Idosos lotam turmas de remo na Lagoa Rodrigo de Freitas e fazem bonito em campeonatos

“Os velhinhos hoje me mataram”, brinca o arquiteto Claudio Abaurre, de 60 anos, o dente de leite do barco. Claudio rema com uma trupe de elite: os engenheiros aposentados Érico Kalckman, de 78, Rui Nabais, de 71 e Essenine Freire, de 73, todos alunos de remo do Clube de Regatas Guanabara. Os veteranos são quase a metade dos alunos da turma que faz aula na Lagoa Rodrigo de Freitas, de segunda a sábado, às 6h. E são um exemplo de vitalidade e animação neste Dia Mundial do Idoso.

– Achava que tinha passado da idade, esse pessoal remador é tudo jovem. E descobri que existe a categoria master em campeonatos e acabei me empolgando – contava Érico, que começou a remar aos 65 e já foi campeão sul-americano na categoria 75 a 80 anos.

Nos campeonatos de que participou, ele dividiu a responsabilidade – e os louros – com Rui, que chegou a remar na juventude em Angola, onde nasceu e voltou a praticar o esporte em 2014.

– Ele fez a força e eu peguei a medalha. Um dos maiores prazeres é brincar com o adversário depois que a gente ganha – comenta o angolano, que se mudou para o Rio em 1975 e, filho de portugueses, ainda preserva o sotaque.

“No ano passado, no mundial da Eslovênia, havia cinco competidores com 91 anos. Me aguardem”

ÉRICO KALCKMAN
Remador de 78 anos
A dupla chegou a participar de campeonatos mundiais da modalidade e se surpreendeu com a “concorrência”:

– No ano passado, no mundial da Eslovênia, havia cinco competidores com 91 anos. Me aguardem… – desafia Érico, destacando os benefícios da prática – Me sinto muito bem. O remo está nos ajudando a envelhecer melhor.

A turma mais “jovem”, com até 69 anos, agora se prepara para participar da Copa Rio de Remo Master, campeonato interclubes que será realizado no dia 3 de novembro, a partir das 14h30, na Lagoa.

Essenine conta, faceiro, que até hoje joga bola com os amigos uma vez por semana. E atribui a performance ao remo, esporte que praticou nos anos 1960 (chegou a ser campeão carioca em 1966 e 1967) e retomou em 2010:

– Não teria preparo. Da minha geração, quase ninguém joga mais.

Outro engenheiro aposentado e colega dos “meninos”, Emílio Camarini, de 62 anos, lembra que foi o esporte que o salvou de uma doença séria no fígado: ele estava com suspeita de cirrose.

– Fui ao médico há um mês, quando senti uma queimação no esôfago. O médico disse que só não desenvolvi algo mais grave porque remo há 8 anos. Não paro mais. O remo é a minha saúde, um prolongador de vida.

O remo é considerado um dos esportes mais completos. O educador físico Rafael Reginatto, técnico da modalidade no Guanabara, explica que a prática movimenta músculos da perna, glúteos, abdominais e costas. Também melhora a postura, alivia o estresse, aumenta a massa muscular, a flexibilidade, a coordenação motora e aumenta a resistência física. Ele conta que seus alunos com mais de 60 anos têm mais disposição do que muitos jovens.

– Eles são muito saudáveis, não vejo ninguém doente – diz Rafael, acrescentando que, no caso dos atletas mais experientes, ele costuma dar mais atenção à parte técnica do que à física. – Sempre os corrijo, para evitar que eles remem errado. Para eles não ficarem com dor, já que o remo força muito a lombar.

Além do Guanabara, há três outras escolas de remo na Lagoa: a do clube Piraquê, a do Flamengo e a do Botafogo, com mensalidades girando em torno dos R$ 200. A embarcação e os remos são fornecidos pelas escolas. O esporte pode ser praticado em barcos para uma, duas, quatro ou oito pessoas. A tropa feminina rema no barco de oito. Daice Maggi, professora de artes de 61 anos, exibe, com orgulho, os braços tonificados à base de muitas remadas – ela treina desde os 45:

– Moro no Recreio, acordo às 4h20m para chegar a tempo na aula, mas cheia de gás. Ver o dia amanhecer com essa paisagem linda da Lagoa é um privilégio. E o astral dos colegas é bom demais.

A professora Ângela Arantes, de 54 anos, é das mais animadas. Aos 48 anos, recebeu o diagnóstico de um processo degenerativo no joelho, após uma queda que a deixou quase sem andar. Foi fazer remo e, em três aulas, parou de sentir dor. O novo estilo de vida a fez cortar massas e exageros à mesa e perder oito quilos em três meses.

O esporte também transformou a arquiteta Gigi de Vicq, de 56 anos. Ela passou a praticar a modalidade quatro meses após ficar viúva, em março do ano passado, e voltou a sorrir.

– O remo é um antidepressivo. Minha vida mudou completamente.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior