Haitianos vivem sob o drama da pobreza no Rio

Antes de partir, o marido de Rosèlene Cenatus passou a noite acordado. Deitada na cama, ela o ouviu chorar sem saber o motivo. Ao amanhecer, a haitiana de 35 anos foi comprar tranças e apliques no Mercadão de Madureira, para ganhar algum dinheiro como cabeleireira na favela Gardênia Azul, em Jacarepaguá, onde mora. Quando voltou para casa, encontrou a porta entreaberta e roupas espalhadas. Não havia mais nada do marido nem do pequeno Archelin, de 8 anos, filho único do casal. Com o passar das horas, entendeu que os dois não voltariam. Era dia 25 de janeiro. Pierre Louis foi embora e levou junto o menino. Desde então, Rosèlene procura em vão informações sobre os dois, enquanto vive sozinha na casa de um cômodo cheia de infiltrações e baratas. Como não fala uma frase em português, só conversa com conterrâneos.

— Pode ser que estejam em Campo Grande, ou então em Santa Cruz, não sei — diz Rosèlene. — Li uma conversa no celular dele com outra haitiana. Ela dizia que já tinha comprado passagem para vir morar com ele, mandou até uma foto ao lado da mala de viagem. Mas por que levar minha criança? — indaga, com o iPhone quebrado na mão, mostrando a foto da amante, antes de se jogar na cama e chorar.

Panelas vazias sobre o fogão, geladeira com apenas duas cebolas, aluguel de casa atrasado: a vida de Rosèlene pouco difere da realidade da maioria dos cinco mil haitianos que vivem no Rio. Estão tão desamparados quanto os outros 81 mil espalhados pelo Brasil, concentrados especialmente no Sul, segundo a embaixada do país. Todos vieram a partir de 2010, quando um terremoto na capital, Porto Príncipe, matou 200 mil pessoas. Em outubro de 2016, o furacão Matthews deixou mil mortos no caminho. Com as duas tragédias, pelo menos 300 mil desabrigados se puseram em marcha pelo mundo.

A presença de brasileiros no país desde 2004, quando o Exército passou a comandar a missão de paz da ONU no Haiti — foram 40 mil militares em 14 anos de operação —, serviu de incentivo para muitos migrarem para cá. Mas o fim das obras da Copa do Mundo e da Olimpíada e a crise econômica que paralisou a construção civil jogaram a maioria no esquecimento, apesar do visto de residência humanitário concedido pelo Brasil. Segundo dados da ONG Mawon, fundada no Rio pelo haitiano Robert Montinard e por sua esposa, a advogada francesa Mélanie, com o objetivo de apoiar os imigrantes daquele país, havia trabalho para todos até 2015. Hoje, apenas 40% têm alguma fonte de renda.

“O Haiti é aqui” cantou Caetano Veloso há 25 anos, na primeira faixa do disco Tropicália 2, feito em parceria com Gilberto Gil — a canção de abertura só teve participação de Gil na melodia. Escritos quando havia apenas 141 haitianos vivendo no país, segundo o IBGE, os versos não apenas continuam atuais como podem soar premonitórios. Caetano fala sobre “como é que pretos, pobres e mulatos, e quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados” no Brasil, e expõe tanto o racismo e a desigualdade quanto a indiferença dos brasileiros em relação às suas mazelas (“ninguém, ninguém é cidadão”). Um quarto de século depois, o que mudou? Se não fossem os próprios haitianos, a situação de pessoas como Rosèlene seria ainda pior. Eles se reúnem aos domingos em uma igreja fundada por conterrâneos, com missas em crioulo e francês, na entrada da Gardênia Azul, principal reduto dos haitianos na cidade, uma favela dominada por milícia.

— A violência aqui é diferente. Lá também é perigoso, mas os conflitos em geral são políticos, contra o governo. Os militares demoraram a entender isso — afirma Robert, lembrando que o Haiti conquistou sua independência da França em 1803, tornando-se a primeira nação negra das Américas. — Com o tempo, os militares viram que o tráfico nas favelas de Porto Príncipe não usa armas e mudaram a abordagem — completa.

Ele é sobrevivente do terremoto: quebrou a perna durante o tremor e terá que fazer fisioterapia o resto da vida. Foi o primeiro haitiano a obter visto de residência no país. Cadastrou cada um que chegou ao Rio depois em busca de ajuda, e acompanhou muitos dramas. Viu seu povo, em geral festeiro como o brasileiro, sofrer coisas impensáveis longe de casa. Lembra com tristeza do caso do calado Jean Remy. Após dois anos sem trabalhar, conseguiu um bico de pintor em um edifício em Curicica. Terminado o serviço, subiu ao último andar e saltou para a morte, meses após superar uma pneumonia por morar em local tão mofado e insalubre quanto a casa de Rosèlene. Tinha 32 anos e sonhava com uma nova vida.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior