Gírias: expressões de São Paulo estão se disseminando entre cariocas

Os “mano e as mina”, no trampo ou na balada, acham tudo “daora” ou “sussa”, e só “ficam pistola” se tiver “treta”. Não deu para entender? Então, isso é sinal (ou seria semáforo?) de que as gírias paulistanas desembarcaram no Rio para confundir. Mas a gente pode explicar, assim como qualquer carioca que aderiu ao “paulistanês”.

É o caso da estudante Aline Lopes, moradora de Bento Ribeiro. Ela usa corriqueiramente expressões típicas da Terra da Garoa, novas e antigas (que podem ser conferidas no quadro ao lado).

— Falo “que fita”, “fazer um corre” e “breja” — enumera Aline, para lamentar em seguida: — Mas “padoca” e “feijuca” eu não consigo.

O tatuador Thiago Luz, que foi alvo de deboche quando chegou ao Rio, há 18 anos, diz, brincando, que “gourmetizaram o paulistanês”. Morador de Jacarepaguá, ele lembra que falar palavras como “mano” era a senha para virar motivo de piada:

— Eu não podia falar “mano”, “meu”, “rolêzinho” e “daora” que alguém sempre caía em cima. Parecia que eu estava em outro planeta.

Mas a história de amor com São Paulo não encanta todos os cariocas. O engenheiro Maurilio Mesquita, que mora na Tijuca, não disfarça o incômodo. Ele costuma dizer que o monopólio da língua é disputado entre Rio e São Paulo, numa espécie de “bipolarização do português”.

— Está na hora de o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) tombar o português falado na antiga capital do Império — provoca Maurilio.

DA PERIFERIA PARA AS RUAS

Professor de língua portuguesa, Sérgio Nogueira diz que essa dinâmica muda de tempos em tempos, e que não existe uma regra para isso.

— Tenho a impressão que as diferenças estão cada vez menores. Hoje, conheço poucos cariocas que chiam, o Brasil inteiro parou de conjugar os verbos no plural, e confesso que, entre advogados, tenho dificuldade de saber quem é de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro — explica o professor, acrescentando. — Às vezes, a presença do regionalismo começa de brincadeira, e a gente vai usando até se esquecer da origem.

Quem começou brincando assim foi o comediante Felipe Torres, que interpreta, desde 2004, o personagem Boça no grupo Hermes & Renato. No início, teve gente que achou que Boça, altamente ingênuo e com sotaque paulistano carregado, estava “tirando uma”, isso é, zoando diretamente os paulistanos, mas a intenção dele era pegar no pé dos marmanjos mimados por avós. A piada saiu pela culatra. Hoje, após 17 anos morando em São Paulo, Felipe absorveu um pouco da criação.

— “Treta” é o que eu mais falo, com certeza. Hoje eu sou mais “Boça” — constata o comediante, que nasceu em Petrópolis, ou seja, é fluminense. — Em 1999, eu lembro de ouvir um funk do Mr. Catra em que ele soltava uns “meu”, uns “mano”.

Adepta do carioquês clássico, a cantora Fernanda Abreu é casada com o músico de São Paulo Tuto Ferraz há seis anos e atribui ao hip-hop paulistano esse boom. Prova de que santo de casa não faz milagre, ela conta que ouve “paulistanês” o dia inteiro, mas não aderiu.

— Não sai da minha boca, mas acho até bacana, engraçado. Minha filha veio me chamar de “mano” e eu respondi: “Que mané mano, eu sou sua mãe!”.

Fundador do coletivo I Hate Flash, o fotógrafo carioca Fernando Schlaepfer assume que chega a usar mais “mano” do que “brother”.

— Como viajo muito, vejo que a galera adquire gírias de vários lugares, não só do “paulistanês”. A internet permite muito isso.

O rapper e cantor paulistano Rael, que acompanha a disseminação das palavras, diz que o estilo musical teve uma grande parcela nessa popularização do falar paulistano. Porém, bem antes, os vizinhos já estavam nas “quebradas” (periferias).

— Daí surge uma relação entre três universos: as ruas, a música e os presídios. Havia muita coisa que eu escutava antes no rap porque alguns caras tinham passado pela cadeia, saído dela e levado as gírias para as ruas — observa o rapper.

Professora adjunta de linguística da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), Luciana Vilhena chama o fenômeno de consagração do uso, que é o que, segundo ela, vem acontecendo no Rio.

— Existe um teste que a gente sempre faz para saber se um termo é natural do lugar ou não: conversar com uma criança local de 5 anos, da pré-alfabetização, e ver se ela entende. No momento, está havendo um movimento oposto ao da década de 1980 e do início da de 1990, quando as gírias cariocas entraram em São Paulo, justamente por influência do audiovisual. As questões midiática e econômica influem muito, como a concentração de serviços, atividades e acesso a bens culturais, algo que São Paulo esbanja — explica a linguista, que tem ouvido muito de seus alunos que alguma coisa bacana é “top” (sim, o termo é paulistano, “ô meu”).

GÍRIAS CARIOCAS TAMBÉM CAÍRAM NO GOSTO DOS PAULISTAS

Ediene Souza, de 29 anos, moradora da Vila Sônia (bairro da Zona Oeste de São Paulo), chegou a fazer um dicionário de verbetes cariocas com os amigos do Rio de Janeiro: até pouco tempo, ela não entendia que o famoso geladinho da Terra da Garoa era o conhecido sacolé vendido na beira da praia. E gostou da palavra.

— Trabalho com cariocas, então, às vezes, paro para eles me explicarem o que estão falando. E eles acabaram praticamente impondo certas palavras, como “sacolé”. É legal falar essa palavra. Mas “biscoito” me recuso. A gente briga ainda — conta, em meio a risadas, Ediene, para quem a guloseima deve ser chamada de “bolacha”.

Também da Zona Oeste, a paulistana Juliana Grellet, de 35 anos, diz que se espantou quando ouviu “guimba de cigarro” pela primeira vez.

“Falei: ‘Jesus, o que é isso?’” — conta a moradora da Vila Mariana, acostumada a falar “bituca”.

Mas, hoje, palavras como “caô” e “sinal” já fazem parte do vocabulário de Juliana:

— Já me pego falando “maneiro” e “douze”. Cariocas têm essa mania de falar esse número com “u”. Uma graça.

Vitor Paulo Furini, de 18 anos, natural de Dracena, interior de São Paulo, já adotou o “qual é” no seu cotidiano. Influência de um amigo carioca com quem estuda na faculdade, conta ele:

— Comecei a falar bastante “qual é”, “mermão” e “tô tranquilão”. Acho muito “daora” o sotaque carioca.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior