Se o carnaval é a hora de botar o bloco na rua, que seja em grande estilo. Na dúvida entre chamar atenção pela graça ou pelo capricho nas fantasias, os cariocas têm optado pelos dois. Quem for acompanhar o desfile do Suvaco do Cristo, domingo, no Jardim Botânico, por exemplo, vai se deparar com um grupo de 50 homens vestidos de Sininho, a fada do clássico Peter Pan, não a ativista.
VEJA MAIS: Confira a agenda de blocos de rua do carnaval do Rio de Janeiro
— Gostamos de sair de mulher, é sempre mais engraçado usar saia, bojo, enchimento. Tem uns integrantes mais gordinhos que ficam ótimos com a barriga de fora — conta, aos risos, o engenheiro Gabriel Medina, um dos idealizadores do grupo de amigos batizado de Piranhas do Suvaco, que vai para o 13º carnaval. — Já fomos Chapeuzinho Vermelho, Cleópatra, Pedrita. Preferimos as fantasias mais tradicionais, que não saem de moda.
Mas há quem prefira seguir as tendências. E quem não tem unicórnio — um dos hits deste carnaval — caça com flamingo, outra modinha da vez. As amigas Claudia Gonçalves, Alice Bove, Adriane Cruz e Vanessa Aguiar vão em bando para o Fogo e Paixão, que também sai no domingo, no Centro. A cereja do bolo da fantasia de “flaminguete” é uma boia rosa-choque com um isopor acoplado, para manter a latinha de cerveja gelada. E você aí achando que flamingo só bebia água…
— O tema do bloco este ano é o piscinão do brega, inspirado no Piscinão de Ramos, então vamos botar os flamingos para nadar — conta a gerente de projetos Claudia Gonçalves.
E a onda é mesmo se fantasiar — e se divertir — em grupo. As cartas coloridas do jogo Uno estarão espalhadas pelo bloco Fanfarra Black Clube, no sábado de carnaval, no Centro. Doze amigos estão confeccionando camisetas e adereços de cabelo, e prometem se embaralhar durante o desfile.
— Nos apresentamos num festival em São Paulo e viramos a noite jogando Uno. Achamos que daria uma fantasia legal. Tem gente que escolheu ir vestido da carta que muda o sentido do jogo ou com aquela que obriga o adversário a passar a vez. Sempre causa aquele riso maroto da galera — diz a professora Aline Andriaça.
Para além de estar na moda e divertir, há quem queira fazer pensar. Com o tema “Somos iguais e diferentes e todos merecemos respeito”, o bloco Carmelitas, que desfila na sexta e na terça de carnaval em Santa Teresa, trará uma ala com 11 meninas representando diferentes religiões. O mestre-sala, Edney DeConti, e a porta-bandeira, Yara Barbosa, irão vestidos de pastor e Iemanjá, respectivamente, com figurino de Maíza e Julia Jacobina.
Caracterizações em grupo estão em alta no carnaval do Rio – Agência O Globo
— Queremos chamar a atenção para o respeito que devemos ter com a escolha do outro. Espero que o nosso entrosamento transmita essa mensagem. Menos intolerância e mais respeito — torce Yara.
A busca por construir fantasias mais fiéis à cultura popular nordestina levou 24 integrantes do grupo de pernas de pau do bloco Terreirada Cearense a passar uma temporada em Cariri, no Ceará, no final do ano passado. Por lá, a trupe fez oficinas de construção de figurinos e de bonecos e aprendeu as técnicas de confecção dos mestres populares.
RIFA E VAQUINHA NA INTERNET
Todas as fantasias foram construídas coletivamente pelos membros do grupo, com verba arrecadada em eventos, rifas e uma vaquinha on-line. Com o tema “Cariri encantado”, o Terreirada Cearense, que sai no sábado de carnaval, na Quinta da Boa Vista, terá 80 pernaltas distribuídos em alas, como a dos seres mágicos, com direito a orixás, rezadeira, cigana, buda e krishna. Todos com uma pegada nordestina, cheios de cores, fitas e brilho.
— No Cariri, mais do que colar pedras, aprendemos sobre relações humanas e respeito à cultura. Bebemos na fonte de uma história de décadas, o que vai nos ajudar a levar ainda mais alegria para as ruas do Rio no carnaval — destaca a pernalta Raquel Poti, coordenadora do coletivo artístico do bloco.
Para a antropóloga Mirian Goldemberg, a empolgação para se fantasiar no carnaval vem da vontade de “ousar, mudar e subverter a rotina”:
— Não somos uma coisa só. Podemos experimentar diferentes papéis e não ter uma única identidade. O carnaval é o momento de ser tudo o que queremos ser, sem conflito nem culpa, sem medo ou vergonha de nos expor e revelar nossos desejos.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior