Exercícios físicos ganham novas formas dentro de casa durante a pandemia do novo coronavírus

Os primeiros dias de isolamento para quem pode ficar em casa durante a pandemia de coronavírus não foram fáceis para a psicóloga Raissa Munt, de 24 anos. Recém-formada, ela teve os planos de carreira adiados, assim como a vida social interrompida. Não saber quando retomaria as idas diárias à academia e as aulas semanais de zouk foi angustiante, até a jovem perceber que tinha “praia, centro de meditação e academia” poucos metros acima da própria cabeça. Ela descobriu todas essas possibilidades no terraço do prédio de três andares onde mora, no Engenho Novo.

— Fiquei muito mal emocionalmente, no começo do isolamento, e o terraço apareceu como o local perfeito para manter o contato com o mundo, sentir o vento, tomar sol — descreve. — Aos poucos, percebi que também podia me exercitar ali.

Descobertas como a de Raissa são compartilhadas por pessoas no mundo inteiro, cada uma ao seu modo, conforme as restrições de circulação são recomendadas pelos órgãos competentes. Para manter o corpo em movimento, muita gente tem transformado o ambiente doméstico em “academias particulares”.

— Pelo menos três vezes por semana, levo canga, som e incenso para o terraço e faço exercícios de alongamento, posições de ioga e meditação. Ao fim da tarde, tem um pôr do sol lindo — conta a psicóloga, que deixou para dentro de casa os funcionais, como agachamento e abdominal.

Sem romantizar o momento, Raissa afirma que a experiência lhe proporcionou algumas reflexões sobre autossuficiência e deu novos significados aos exercícios físicos. Aquela obrigatoriedade de ir à academia para manter a forma, segundo ela, perdeu espaço para o foco na saúde mental.

Criatividade atlética
Sensação semelhante é compartilhada pelo fotógrafo Felipe Goifman, de 54 anos, e a namorada, a bancária Ana Paula Pedroso, de 36. Acostumados às atividades ao ar livre, eles usam a criatividade para não perder o elo com o mundo exterior.

— Gostava muito de caminhar na praia. Como moro na Glória, tenho subido e descido as ladeiras vazias para me movimentar — diz Felipe. — A casa onde vivo é grande, e estou aproveitando este momento para explorar o meu próprio universo. Também tem dias em que faço abdominais, levanto pesinhos.

O imóvel, aliás, tem uma piscina pequena, que serviu especialmente a Ana Paula. Ela tem preferência por esportes aquáticos, sobretudo surfe e natação, duas atividades impensáveis durante a pandemia. Para aliviar a saudade da água, comprou uma leash, espécie de coleira usada pelos surfistas para não perderem a prancha, que ela prende ao corpo e fixa à borda. Assim, consegue nadar sem sair do lugar.

— É como se fosse uma esteira aquática — compara.

Fora isso, quando está em seu apartamento, no Jardim Botânico, Ana Paula tem utilizado aplicativos para fazer alongamentos.

— É difícil ficar parada — sentencia.

Interromper as atividades também está fora de cogitação para a advogada Julliene Ribeiro. Em função de um tratamento de saúde, ela precisou usar um medicamento cujo efeito colateral foi uma cardiopatia. Desde então, os exercícios se tornaram obrigatórios para que ela mantivesse o bombeamento de sangue para o corpo no nível adequado.

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— Hoje, minha prioridade é me exercitar e me alimentar bem — ressalta.

Munida dessas motivações, ela ia todos os dias à academia e não tinha o hábito de fazer ginástica em casa. Mas o fechamento desses locais no último mês foi a deixa para tirar da gaveta uma corda nunca usada (“Nem imaginava que eu sabia pular corda”, pondera) e adaptar garrafas de 1,5 litro a dez litros como pesos para exercícios funcionais.

— Essas atividades são importantes para oxigenar as células — diz Julliene, que, às vezes, vai até o play do condomínio para pular corda ao ar livre. — Encontrei um jeito viável e acessível de manter a minha saúde física e mental.

A professora de educação física Julia de Oliveira, de 25 anos, pratica muay thai e tecido acrobático e malha na academia. Com o isolamento, precisou aprender a se exercitar de outras maneiras, dentro do apartamento onde mora com o pai. A nova rotina evidenciou como o empenho é fundamental.

— Tenho que ter muita disciplina para me exercitar em casa. Marco horários para as atividades e me arrumo como se fosse sair de casa mesmo — diz. — Na verdade, neste momento, estou me redescobrindo por inteira.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo