Rio de Janeiro continua lindo, mas nada mais findo. Mas quando se finda, se é que se finda? O fim do mundo pode ser o melhor dos mundos, ao contrário dos “minifins” de mundos. Esses são mais desastrosos e certeiros do que um improvável colapso fatal. A toda hora, acontecem pequenas mortes sorrateiras, indeléveis, de ciclos que se fecham para o novo. E que ninguém se engane: nem sempre a novidade que dá na praia tem o cheiro cálido e o gosto salgado de uma onda. Ela pode ser uma revisita ao velho que, num balanço da maré, chega rejuvenescido pelo esquecimento.
Na verdade, findamos nós, morremos todos os dias, sem despesas e rituais fúnebres. O que víamos antes, diante de nós, já não vemos mais ou vemos diferente. Os nossos pavores se atualizam e até as piadas e as críticas de um tempo se vão. E outras chegam. Foi-se a loura do banheiro, a grande probabilidade de se morrer engolindo bala toffee ou de se perder dos pais no Tivoli. Era inocência que fala?
Entendedores nem sempre entenderão o que muda e por que muda. Nossas revoluções internas trabalham minuciosamente e de forma quase inaudível. E, não mais que de repente, já somos outros por dentro e ao redor. Somos máquinas inconscientes de adulterações. Somos adulteradores de realidade e depois, cordeiros supostamente inocentes, nos submetemos à nossa própria farsa. É a nossa máxima culpa. É difícil aceitar que há a nossa digital em quase tudo, do neopentecostalismo dominante ao tiro de fuzil que risca incandescente o céu. Se há escolha, há responsabilidade.
Em que minimovimentos adulteradores deixamos que se fossem as balas toffee e adentrassem pelas janelas as balas perdidas? Em poucos anos, passamos da morte doce da fantasia infantil à tragédia diária que tem levado milhares de almas desprotegidas. Meu Deus, o que mais há de findo neste Rio que continua lindo? Talvez os parques onde nos entregávamos a um dia inteiro de diversão até que fôssemos expulsos em catarse histérica pela mulher Konga. O parque, como melhor metáfora das ruas, foi silenciado. O medo ficou ensurdecedor. Perdemos a liberdade para nos aprisionar. Não mais o passeio distraído pela Lagoa, à beira-mar ou o banho de cachoeira na floresta. E não importa se buscamos proteção num carro blindado ou no único cômodo da casa com laje. Estamos todos acuados, somos adulteradores perdidos e isolados. A violência, enfim, nos igualou, fez o que nenhuma política pública conseguiu até hoje.
O Rio continua maravilindo, mas, certamente, findo. Porque agora estou falando de literalidades. Nesse paraíso de mar e montanhas, ao menos, 10 pessoas são assassinadas por dia, fora as desaparecidas. Em julho, foram 308 homicídios. Um número espantoso. E os especialistas arriscam que a milícia já mata mais que o tráfico. Matamos em um mês – e não estou considerando sequer o que aqui chamamos de mortes em confrontos ou os latrocínios – mais do que Nova York matou no ano de 2018 inteiro. Lá, a última execução da máfia italiana, um braço do crime organizado, foi, em março, quando Francesco Cali, de 53 anos, foi abatido na frente de sua casa, em State Island. Foi o primeiro caso depois de 35 anos de calmaria desde a morte de Paul Castellano, nos anos 80. Aqui, o mês de agosto começou com punguistas de armas brancas esfaqueando um chileno em Copacabana e terminou com um chinês assassinado em Ipanema.
O Rio da Cadeg, do burburinho da Farme ou da Praça Varnhagen perdeu 10 mil estabelecimentos em 2018. A Rua da Constituição no Centro viu fechar metade de suas lojas de eletrônicos, fenômeno parecido ao que ocorreu na histórica Rua da Carioca. O Centro foi esvaziado. O Porto, que prometia – e ainda promete, contra tudo e todos – um alento, tenta deslanchar, ancorado em incertezas e preso a amarras burocráticas de um modelo de gestão. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, nos dão a má notícia de que, entre janeiro e maio deste ano, a cidade do Rio teve o pior saldo de empregos formais no país: 12.122 vagas fechadas. Se considerado apenas o comércio, o município se mantém na pior posição do Brasil, com 7.871 postos extintos. Se agregados os resultados de comércio e serviços, foram 9.960 empregos perdidos.
O Rio continua lindo, na esquizofrenia urbana entre o solar e o lúgubre. Mas só a gente pode fazê-lo findo.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior