Esposa do premiê é proibida de sair da Espanha após escândalos de corrupção

“RAUL BARROZO DA MOTTA JUNIOR”

“O dinheiro é um senhor poderoso”, disse o poeta espanhol do século XVII Francisco de Quevedo. A Espanha certamente não é estranha à corrupção, que destruiu muitas carreiras políticas nas últimas décadas.

O mais recente a enfrentar perigo crescente é o atual primeiro-ministro Pedro Sánchez, que lidera o país há quase oito anos. Durante o período de Sánchez no cargo, a Espanha se tornou uma das economias mais dinâmicas da Europa, apesar da fragilidade de sua coalizão governante, que inclui partidos separatistas catalães e bascos.

Sánchez e seu Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de esquerda, chegaram ao poder quando o Partido Popular, de centro-direita, perdeu uma moção de desconfiança em 2018, após um enorme escândalo de corrupção.

Uma situação semelhante se forma agora ao redor de Sánchez, um político astuto conhecido por superar seus adversários. No sábado, um juiz espanhol ordenou que sua esposa, Begoña Gómez, fosse a julgamento por corrupção, exigiu que ela entregasse seu passaporte e a proibiu de deixar o país. Gómez também deve se apresentar ao tribunal duas vezes por mês.

O juiz, Juan Carlos Peinado, havia anteriormente indiciado Gómez por peculato, tráfico de influência, corrupção em negócios e apropriação indébita de fundos, alegando que ela se aproveitou de seu casamento para impulsionar sua carreira em uma universidade de Madri.

Tanto Gómez quanto Sánchez negaram qualquer irregularidade. Sánchez queixou-se frequentemente de que o caso tem motivação política e não passa de uma “farsa obscena”.

A investigação teve início em 2024, após um grupo anticorrupção — Manos Limpias, que se traduz como “mãos limpas” — com ligações à ultradireita, apresentar uma queixa contra Gómez, alegando tráfico de influência. Na época, Sánchez se afastou das funções públicas por quase uma semana para questionar se deveria permanecer no cargo.

“Hoje é um dia terrível para aqueles de nós que acreditam na justiça”, escreveu o ministro da Justiça Félix Bolaños no X em resposta à decisão do juiz no sábado (20), acrescentando que “a verdade prevalecerá no final”.

Outros comentaristas disseram que as exigências do juiz eram excessivas, dado que Gómez conta com proteção policial que a impediria de deixar o país.

O juiz chegou a sugerir que sua escolta policial poderia ajudá-la a fugir.

“Toda a investigação foi marcada por medidas desproporcionais, em busca de máxima atenção midiática, e carente da imparcialidade e da moderação que os cidadãos esperam do sistema de justiça”, escreveu o principal diário espanhol El País em um editorial de domingo (21).

O caso contra Gómez é apenas o mais recente a envolver pessoas próximas a Sánchez. A sede do seu partido governista, o Socialista, foi alvo de uma operação policial, e vários aliados próximos foram alvo de investigações, incluindo o ex-primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero e o ex-braço direito José Luis Ábalos.

Zapatero é suspeito em um caso envolvendo crime organizado, tráfico de influência e falsificação de documentos relacionados a um empréstimo a uma pequena companhia aérea. Ele negou qualquer irregularidade. Sánchez prometeu “plena cooperação do governo com o sistema de justiça, pleno respeito pela presunção de inocência do Sr. Zapatero e todo o meu apoio a (ele)”.

Ábalos, que passou sete meses preso antes de seu julgamento em abril, é acusado de receber propinas pela compra de máscaras faciais no valor de $60 milhões durante a pandemia de Covid.

O irmão músico de Sánchez, David, está atualmente sendo julgado na cidade de Badajoz, perto da fronteira com Portugal, acusado de tráfico de influência em sua nomeação para um cargo há nove anos.

Sánchez não foi citado em nenhum dos casos, mas eles enfraqueceram sua coalizão minoritária, e o PSOE sofreu reveses em várias eleições regionais.

A operação na sede do PSOE em Madri na semana passada, que se concentrou no suposto uso indevido de fundos partidários, aumentou ainda mais a pressão sobre ele.

O Tribunal Superior da Espanha informou que um juiz ordenou a busca na sede do partido como parte de uma investigação sobre “uma rede supostamente voltada a minar processos judiciais que afetam o (partido) ou o governo”.

A investigação se concentra em saber se os fundos foram usados para pagar um jornalista para criticar as queixas judiciais contra figuras do partido e aliados.

O líder da principal oposição conservadora, Alberto Núñez Feijóo, afirmou na semana passada que o governo estava em “agonia” e exigiu a renúncia de Sánchez.

A próxima eleição na Espanha está prevista para até agosto do ano que vem, mas muitos analistas esperam que a coalizão entre em colapso antes disso.

Um pequeno partido basco da coalizão já questionou se ela pode sobreviver, mesmo com Sánchez insistindo que cumprirá seu mandato completo. E o partido de esquerda radical Sumar advertiu que não toleraria provas de uso ilegal de fundos partidários.

As pesquisas indicam que, se uma eleição fosse realizada agora, o Partido Popular (PP) de Feijóo venceria e poderia formar uma maioria com o partido de ultradireita Vox.

Para Sánchez, o segundo líder com mais tempo no cargo entre os 27 estados da União Europeia, a sobrevivência política agora parece mais perigosa do que nunca. Mas a constituição espanhola trabalha a seu favor, já que um primeiro-ministro só é derrubado quando o parlamento apoia uma alternativa.

Vários partidos no fragmentado legislativo espanhol não apoiariam Feijóo, especialmente as facções separatistas, que têm uma relação de rivalidade profunda com o PP.

Poucos apoiaram Sánchez para a reeleição em 2023, mas ele prevaleceu com uma elaborada construção de coalizão. Sua melhor esperança agora pode ser resistir à tempestade — e torcer para que os vereditos nos casos de aliados próximos sejam favoráveis.

Fonte CNN BRASIL