Da Autoestrada Engenheiro Fernando Mac Dowell (Lagoa-Barra), é possível perceber o ritmo frenético de construções na Rocinha. No miolo da comunidade, nem mesmo um parque ecológico criado com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foi poupado. O crescimento vertical das 1.018 favelas do Rio não foi dimensionado, mas a expansão territorial é medida pelo Instituto Pereira Passos (IPP). O órgão da prefeitura concluiu que, em apenas um ano (de 2016 para 2017), as favelas cariocas ganharam 333.064 metros quadrados, área equivalente a um Borel, na Tijuca, ou a dois morros da Providência, no Centro.
As áreas favelizadas chegaram a encolher no período entre 2008 e 2012. Porém, em 2013, o processo se inverteu, e o ápice da expansão desordenada foi registrado no ano passado: 0,72%. Em números absolutos, entre 2016 e 2017, o Parque Nova Cidade de Acari foi a comunidade que mais cresceu, ganhando 28 mil metros quadrados, aumentando quatro vezes e meio seu tamanho no período. Em seguida, vem Rio das Pedras, em Jacarepaguá, com mais 21 mil metros quadrados. Percentualmente, Nova Cidade também lidera o ranking (360%), quase ao lado da Valentim da Fonseca, no Sampaio, que “engordou” 3.089 metros quadrados (de 872 para 3.962).
O presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina, José Ricardo Bandeira, alerta que o crescimento de favelas causa um profundo impacto na segurança, principalmente num momento em que o poder público reduz sua presença em comunidades por meio de um recuo no programa de pacificação (UPPs):
— O aumento de territórios de exclusão só beneficia o tráfico e as milícias, o que pode afetar os índices de violência.
SEM INFRAESTRUTURA
Para o sociólogo Marcelo Burgos, professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC, a falta de fiscalização tem possibilitado que um mercado imobiliário clandestino se aproveite de uma demanda superaquecida por moradias em favelas próximas às regiões centrais, por conta das dificuldades de mobilidade e de uma integração tarifária eficiente:
— Esse crescimento generalizado, horizontal e vertical, agrava toda a infraestrutura das comunidades. Os problemas de saneamento, por exemplo, se agravam.
Segundo o presidente da Associação de Moradores de Acari, Washington Rodrigo, áreas nas quais houve remoções de barracos, que seriam transformadas em praças e complexos esportivos, foram abandonadas. Resultado: voltaram a ganhar barracos.
— Agora, não temos esgoto nem áreas de lazer — lamenta Rodrigo.
O levantamento do IPP foi feito com base em fotos aéreas e imagens de satélites. Na região que engloba a Zona Sul, a Tijuca e adjacências, a Rocinha foi a que mais avançou (1.265 metros quadrados). Percentualmente, a área da Barra e de Jacarepaguá registrou o maior aumento: 1,62%. Depois, vem o Centro, com 1,25%. Marcelo Burgos diz que uma das causas do problema é o que chama de “barracentrismo”:
— Esse é um legado não desejado do processo olímpico. Fizeram um enorme investimento, mas não houve previsão da demanda por moradia.
Para a urbanista Luciana Ximenes, da Comissão de Política Urbana do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio, o que falta é um programa de urbanização de favelas. Já o economista Mauro Osório, presidente do IPP, afirma que a expansão territorial de 0,72% em um ano não é expressivo, e atribui esse crescimento à crise econômica:
— Desde 2015, o Rio perdeu 315 mil empregos, mais que São Paulo (286 mil).
Em nota, a Secretaria municipal de Infraestrutura e Habitação informa que, nos últimos 20 meses, realizou uma operação a cada três dias para combater construções irregulares em favelas, mas “o avanço é muito maior que a capacidade da prefeitura de atuar, e não é por falta de técnicos”.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior