Em 1936, o ilustrador naturalista do Museu Nacional Magalhães Corrêa registrou o estilo de vida e o cotidiano da região no entorno da Pedra Branca, a qual batizou de Sertão Carioca, mesmo nome do livro que lançou naquele ano. Os mapas, fotos, textos e pinturas daquela publicação são a principal fonte de informações sobre a Zona Oeste da primeira metade do século passado. Hoje, um grupo de moradores de Jacarepaguá e Vargem Grande se apoia nessa referência histórica para valorizar a essência rural desses bairros, dividindo-se entre o resgate de expressões culturais tradicionais, pesquisa de acervo e luta pela preservação ambiental.
O Ecomuseu do Sertão Carioca nasceu em 2009, quando a historiadora e fotógrafa Rosa Bernardes começou a pesquisar registros antigos da região onde mora. O trabalho foi evoluindo vagarosamente e teve seu ápice em janeiro deste ano, quando o grupo organizou uma Folia de Reis em Vargem Grande, evento que não acontecia no local há pelo menos 20 anos.
— Foi superemocionante. Várias pessoas mais velhas choravam, porque era uma festa que eles não viam há muito tempo — explica Rosa, moradora de Vargem Grande. — O viés não era o religioso, mas sim o de resgate de cantos e músicas tradicionais e de demonstração de fé, qualquer que seja a crença da pessoa.
Mapa do livro de Magalhães Corrêa mostra a extensão da área – Reprodução
Se o primeiro ato do Ecomuseu foi o processo de documentação, indo atrás de fotos e relatos de moradores antigos, o passo seguinte foi a promoção de atividades junto à população, como oficinas e eventos culturais. Com isso, o estilo de vida de um sertão carioca não fica limitado ao imaginário.
— Nós valorizamos e prezamos a forma rural de viver. Preservar o que ainda há de característico dessa vida rural é a nossa missão. Não somos contra o progresso, até porque esse é o caminho natural. Mas também queremos dar voz à cultura tradicional da região — diz Rosa.
As atividades promovidas pelo coletivo ao longo dos anos demonstram a diversidade do seu escopo de trabalho. Em 2011, o grupo filmou uma entrevista com a rezadeira Dona Nata, uma das moradoras mais antigas do entorno da Pedra Branca, que morreu pouco depois. Em 2012, o Ecomuseu se aliou aos protestos contra a remoção de 1.533 árvores, consequência da duplicação da Estrada dos Bandeirantes. A partir de 2013, aprofundou-se na interação com as comunidades locais, fazendo um trabalho junto aos bate-bolas da região e registros da comunidade quilombola Cafundá Astrogilda.
Entretanto, o acervo do Ecomuseu ainda não tem um espaço físico. Atualmente, parte do material pode ser encontrada no blog ecomuseusertaocarioca.blogspot.com.br e na página do grupo no Facebook. Rosa diz que o grupo está buscando uma sede fixa, além de se inscrever em editais para custear a digitalização e o inventário descritivo de todo o material.
A Igreja de Sao Sebastião, em Vargem Grande, foi demolida – Acervo ecomuseu do sertão carioca
— Nós já tentamos três editais, mas não conseguimos a verba. E agora já tem um tempo que não sai edital novo. A cultura da Zona Oeste não é muito valorizada, infelizmente — lamenta a historiadora.
A falta de uma sede própria resulta na utilização de diversos espaços na região, cedidos por parceiros. A apropriação desses lugares, e a consequente aproximação com a comunidade, é uma das propostas de um ecomuseu, diz Guto Barros, também membro do coletivo. As parcerias vão aumentando a capilaridade do trabalho, frisa.
— Nós temos uma área de trabalho determinada, que é a do Sertão Carioca, e realizamos muitas abordagens, físicas, culturais ou imateriais. Depois de um tempo reunindo informações sobre a nossa história, a realização da Folia de Reis, com os parceiros, veio como uma possibilidade de potencializar o ecomuseu através de uma festa cultural para o povo — explica Barros.
A organização da festividade é o pontapé inicial para a promoção de outras atividades. Em julho, por exemplo, começa a programação vinculada à Folia de Reis de 2018. O Ecomuseu promoverá oficinas de arte, reciclagem e criação de museus comunitários, entre outras.
— A oficina de reciclagem vai ensinar a confeccionar placas educativas, a serem instaladas nas ruas. A ideia é espalhar mensagens informativas, com conteúdo de educação ambiental — afirma Barros, que trabalha com bioconstrução.
Iniciativas de outras organizações para valorizar expressões culturais também ganham mais visibilidade graças às parcerias. É o caso da Feira da Roça, realizada todo domingo no Largo de Vargem Grande, com agricultores quilombolas.
O time de futebol de Vargem Grande, cujo campo ficava no largo ao lado da igreja – Rogerio Appelt / Divulgação
O trabalho com o grupo Caipirando tem sido dos mais importantes para a turma do Ecomuseu. O grupo de viola caipira, formado por 30 músicos, toca na Folia de Reis. Um de seus membros, Henrique Bonna, conheceu o trabalho do Sertão Carioca no ano passado, e hoje também faz parte do coletivo.
— Nós já fazíamos um trabalho em Jacarepaguá e nos aliamos ao Ecomuseu para resgatar a Folia de Reis de Vargem Grande – diz Bonna, que defende a preservação da “ruralidade”. — A função do violeiro não é apenas tocar, mas preservar uma cultura. Quando faz a folia, você traz a sensação da vida rural independentemente de estar inserido no meio urbano.
A Folia de Reis é uma festa que simula o encontro da comitiva dos Três Reis Magos com o menino Jesus. Durante o evento, violeiros caminham tocando e cantando, entrando em casas pelo caminho e levando o cortejo até um destino final. Rosa explica que a intenção é resgatar folias esquecidas em outras comunidades da área chamada de Sertão Carioca.
— Queremos trazer de volta a folia do Morrinho da Alegria, na Estrada do Pontal, e da Comunidade do Cascatinha, em Vargem. Quem souber de uma folia esquecida no seu bairro pode nos procurar — diz Rosa. — A semente foi plantada em Vargem Grande, mas fazemos trabalhos em outros lugares. O sertão é enorme. Recentemente, fiz um ensaio fotográfico registrando pontos históricos no Pau da Fome e no Rio da Prata.
Os outros dois membros do Ecomuseu do Sertão Carioca são o antropólogo Bernardo Marques e a dançarina Itana Gomes, do grupo Brincante da Pedra Branca, que promove diversos eventos na região, como rodas de coco. Para Guto Barros, o trabalho está apenas começando:
— Poucas pessoas conhecem a história do Sertão Carioca. No meio urbano, nós vamos perdendo referências tradicionais, infelizmente. Aqui ainda é uma roça, e o simples pode ter requinte. O importante é mostrar que dentro de uma cidade caótica ainda dá para buscar qualidade de vida.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Márcio Alves / Agência O Globo