“Bom dia, Valdecir”; “Fala, queridão”, “Valdeciiiir”. Não é arriscado dizer que Valdecir de Oliveira é um dos vendedores mais conhecidos da cidade. Nos breves cinco minutos em que a equipe de reportagem esperava ele servir alguns de seus fieis clientes numa manhã de terça-feira, mais de dez pessoas saudaram-no. Para todos, respondeu com um sorriso gentil e um alto astral contagiante. Dono de uma carrocinha de coco com vista para a Ilha da Boa Viagem e para o Rio de Janeiro, há 21 anos o escritório de Valdecir é quase na praia. Fica na Avenida Almirante Benjamin Sodré, ao lado do MAC, seu “irmão” mais novo, de 19 anos.
Antes de ser vendedor de coco, ele já havia trabalhado como segurança, lojista e até pescador. Visionário, quando notou o início da construção do museu, resolveu montar sua barraquinha ali, que também fica próxima ao Morro do Palácio, onde mora há mais de 30 anos. Marinheiro de primeira viagem, demorou algum tempo para se familiarizar com o facão, mas a paixão pela profissão, garante, foi de cara.
— No começo foi muito difícil, vendia oito, nove cocos por dia. Mas o trabalho me encantou. Converso com o mendigo e com o doutor de forma igual. É disso que eu gosto, é isso que o trabalho me proporciona — conta Valdecir, que hoje vende cerca de 150 unidades por dia.
Nos fins de semana, quando ele dá, de cortesia, bananas para os clientes, as vendas chegam a 300 cocos.
Aos longo dos anos, descobriu técnicas para saber se tem muita água no coco, se ela está gelada e, até mesmo, doce. O som semelhante ao de um pandeiro desafinado ao dar umas batidinhas no coco definem: nem doce, nem fria. E aí, nem pensar em oferecer para a freguesia. Ele gosta mesmo é de escutar: “Colocou açúcar, Valdecir?”.
— Num momento de descuido seu, fui lá e coloquei — responde ele em tom de brincadeira e dando uma piscadinha de olho, sempre com um sorriso estampado no rosto.
Apesar de muita gente achar que a simpatia de Valdecir é o principal motivo para seu sucesso, esse ponto não figura em sua própria lista. Ele acredita que chamou muita atenção da clientela devido à preocupação com a limpeza e a higiene de sua barraquinha e ao fato de “arranhar um pouquinho” no inglês. Álcool gel, guardanapos e papéis-toalhas são itens obrigatórios. E um grande cartaz com todas as bandeiras dos países que participaram da Copa do Mundo dá boas-vindas aos estrangeiros. Quer agora fazer um maior, com todos que participarão dos Jogos Olímpicos, mas ainda não conseguiu encontrar a lista oficial.
— Não descobri todos os países que vêm ao Brasil para as Olimpíadas. Assim que eu tiver essa lista, faço um outro banner. As pessoas veem isso e ficam interessadas. Gostam ainda mais quando descobrem que eu falo um pouquinho de inglês — diz.
Nunca teve um professor, apesar de ainda sonhar em fazer um curso de inglês. Aprendeu comprando revistas e DVDs nas bancas de jornais. Quando tem dúvidas, recorre a amigos.
Com todos esses feitos, Valdecir, aos 54 anos, sente-se um homem realizado. Ajuda os quatro filhos e seis netos e se preocupa em ser um exemplo. Ele se gaba:
— Fiz tudo para ser um espelho para os meus filhos. Sou um pai exemplar, eles me olham como uma pessoa trabalhadora. Sempre fui respeitado na comunidade.
Ainda que já tenha conseguido quase tudo “nessa vida”, como ele mesmo diz, luta agora para voltar a ter banquinhos, proibidos pela prefeitura, para seus clientes se sentarem. No mais, agradece a Deus e ao Botafogo, seu time de coração.
Fonte: O GLobo
Foto: Ana Branco
Postado por: Raul Motta Junior