Há 15 anos, todo sábado de carnaval, a jornalista Liliana Rodriguez repete o mesmo ritual. Acorda cedo, vai à praia após dar uma pequena caminhada na orla da Avenida Atlântica e faz uma breve oração, pedindo forças para encarar o longo dia que vem pela frente. Quem assiste à cena não faz ideia de que aquela mesma mulher que está de óculos escuros e com roupas esportivas irá se transformar à noite em uma das convidadas mais deslumbrantes do tradicional baile do Copacabana Palace, uma das festas mais luxuosas que marcam o período carnavalesco da cidade. Cheio de superlativos – seus convites custam entre R$ 2 mil e R$ 4.800 e tem um público que chega a duas mil pessoas -, o evento é um dos remanescentes dos bailes de máscaras que, há mais de um século, foram os precursores do carnaval no Brasil. A festa chega a mais uma edição neste sábado e continua a se firmar como a mais tradicional da cidade.
Como muitos convidados, Liliana começa a produção antes mesmo do almoço, apesar de o evento só começar às 23h.
– Faço massagens, hidrato a pele e os cabelos e procuro descansar sempre que posso ao longo do dia. Mas faço tudo com bastante antecedência. Só não consigo ficar mais zen porque fico muito ansiosa. Gosto de ser uma das primeiras a chegar – diz a jornalista, que cruza o famoso tapete vermelho, pontualmente, às 23h15m, ao lado do marido e dos quatro filhos.
Liliana é apenas um dos muitos convidados aguardados pelo público que lota a calçada próxima à entrada principal do hotel. A curiosidade acerca do evento que reúne o crème de la crème da sociedade carioca faz com que alguns levem até mesmo cadeiras de praia para montar uma espécie de acampamento a partir das 18h, muito antes do início da festa.
– Tem gente que vem todo ano. Alguns são novos, outros mais velhos. Tem morador do bairro que vai até vestido, mas sem convite. Até turista aparece, mas não entende nada – conta Roberto Carraco, um dos chefes da segurança que já trabalha há 24 anos no Copa. – O boom acontece entre 23h30m e meia-noite. Quando a (socialite) Narcisa (Tamborindeguy) passa, o público vibra. Acho que todo mundo gosta: os convidados, por serem vistos; e o público, por ver tudo de perto. O baile do Copa é para ver e ser visto.
Narcisa que o diga. Sempre com uma produção deslumbrante, ela é um dos alvos preferenciais, não só do público que se apinha na calçada, mas também dos inúmeros fotógrafos que se posicionam antes mesmo da entrada do Golden Room.
– Eu amo o baile do Copa. É uma tradição que se sustenta a cada ano que passa. Amo ouvir as marchinhas e estar em contato com pessoas. Sabia que eu conheci o Quincy Jones num dos bailes? – conta a socialite, que já ostentou o posto de rainha do evento por duas vezes.
Realizado desde 1924, um ano após a inauguração do hotel, o baile do Copa, por seus convidados famosos e influentes, sempre esteve envolto numa aura de glamour. No entanto, a pitada extra de charme e encanto fica por conta das presenças internacionais. Jayne Mansfield arrebatou corações quando a alça de seu vestido se soltou, no carnaval de 1959. Brigitte Bardot, então namorada do playboy brasileiro Bob Zagury, foi a sensação de 1964. Orson Welles, Ginger Rogers, Kirk Douglas, Kim Novak, Romy Schneider e Errol Flynn também desfilaram pelos salões do Copa. Sem falar na deslumbrante Rita Hayworth, fantasiada de baiana, no carnaval de 1962. O baile deixou de ser realizado pelo hotel em 1973. Algumas edições foram promovidas por terceiros neste período, mas o evento só foi reeditado oficialmente em 1993.
Com o passar dos anos, a festa de gala, que exige traje black-tie (smoking para os homens e vestido longo de festa para as mulheres) ou fantasias de luxo, passou a receber pessoas mais jovens e acabou virando ponto de encontro de cantores, apresentadores e artistas como Juliana Paes, Grazi Massafera, Guilhermina Guinle, Luana Piovani, Luiza Brunet e Rodrigo Santoro. O clima descontraído do baile chegou a contagiar ainda alguns nomes internacionais da moda como Christian Louboutin e Valentino, que ofuscaram todo o brilho dos convidados e transformistas assim que pisaram no hotel.
– Lembro que Vincent Cassel e Monica Bellucci, na época casados, roubaram a cena, apesar de não terem dado muita conversa. Lembro também que Valentino causou um certo frisson naquela noite, mas nada barra os oito seguranças acompanhando o príncipe Albert de Mônaco pelos salões. Ele distribuía sorrisos e circulava com tanta desenvoltura que mais parecia um folião carioca – lembra o empresário e jornalista Bruno Chateaubriand.
Há 21 anos no comando da produção do baile, Zeka Marquez trará para esta edição a atriz Marina Ruy Barbosa como rainha do evento, que estará com um traje assinado pelo estilista Sandro Barros, para homenagear as melindrosas, jovens independentes dos anos 20.
– A cena desse baile se passará em Paris – adianta Marquez, que gastou cerca de cinco mil metros de tecidos listrados nas cores preta e branca para decorar os salões do Golden Room frontais e nobre, adornados com imensas esculturas de pin-ups, com detalhes em prata.
– O tema é sempre algo aguardado pelos convidados e envolve muita pesquisa. Tem hóspede que me pergunta o tema com seis meses de antecedência – afirma Andréa Natal, diretora geral do Copacabana Palace, que prepara uma melindrosa estilizada, com direito a peruca e muitas franjas, para o baile de sábado. – Sempre chamo muita atenção, mas a minha roupa não é a mais cara do evento. Acho que para pular carnaval é preciso ter criatividade. Quem assina o meu figurino é Carlo Mascheroni, ex-bailarino do Teatro Municipal. Ele imagina tudo dentro do visual do baile e encontra muita coisa na Saara. Eu, para complementar, brinco com a maquiagem e os adereços de cabeça.
Por enquanto, a lista de convidados ainda é guardada a sete chaves, mas alguns nomes como Marcelo D2, o estilista Dudu Bertholini e o empresário Luiz Calainho já foram confirmados pela assessoria do hotel.
O cardápio da festa será assinado pelo chef-executivo do Copa, o francês Pierre-Olivier Petit, que prepara um verdadeiro banquete para a noite de sábado, que envolve a compra de 300 quilos de camarão, 250 de filé mignon e 1.300 garrafas de champagne.
– Depois do réveillon, o baile é a festa com mais mobilização de serviço no hotel. O Zeka Marquez chega com dois meses de antecedência e, dez dias antes da festa, os salões já ficam praticamente prontos. O que faz o sucesso do baile é qualidade de serviço do hotel, que não para. Quando o baile termina, as coisas devem ser desmontadas imediatamente, e a piscina do Copa tem que funcionar normalmente no dia seguinte. Tudo com a mesma qualidade de serviço – comenta a consultora do mercado de luxo e antiga gerente de comunicação do Copa, Patrícia Brandão.
Fonte: O Globo
Foto: Copacabana Palace
Postado por: Raul Motta Junior