Com Rio tomado por moradores de rua e camelôs, comércio reclama do impacto da desordem

Um homem escalou, na semana passada, o chafariz da Praça Mahatma Gandhi e, sem se importar com a movimentação frenética de pedestres na Cinelândia, começou a escovar os dentes, aproveitando um filete de água. Não muito longe de onde o morador de rua improvisava um banheiro a céu aberto, camelôs lotavam a Avenida Rio Branco, centro financeiro do Rio, oferecendo todo tipo de mercadoria — até mesmo guarda-sóis de praia— junto aos trilhos do VLT. As duas cenas são um retrato da desordem que tem tomado conta da cidade, que, lotada de turistas, às vésperas do carnaval, também sofre com pichações e equipamentos públicos depredados.

Visitantes e moradores têm se espantado com a bagunça urbana, que já afeta o comércio e pontos turísticos. A degradação no entorno do Museu de Arte Moderna, cujos pilotis viraram dormitórios para moradores de rua, vem afastando o público, afirmou o diretor da instituição, Fabio Szwarcwald, em entrevista ao GLOBO, há dez dias.

Na Avenida Rio Branco, no centro financeiro do Rio,camelôs vendem guarda-sóis junto aos trilhos do VLT sem qualquer tipo de repressão por parte de agentes do município Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo
Na Avenida Rio Branco, no centro financeiro do Rio,camelôs vendem guarda-sóis junto aos trilhos do VLT sem qualquer tipo de repressão por parte de agentes do município Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo
Presidente do Clube dos Diretores Lojistas e do Sindicato dos Lojistas do Rio, Aldo Gonçalves diz que a desordem tem impactado as vendas. Segundo ele, mais de dez mil lojas fecharam as portas no município desde janeiro de 2018, e boa parte desses estabelecimentos mergulhou na crise por conta do grande número de camelôs nas ruas. Gonçalves não tem dúvidas de que a situação ainda vai piorar, já que o levantamento de 2019 sobre locais que encerraram suas atividades ainda não foi concluído.

— O comércio vem tendo resultados ruins, em parte por causa da desordem. Há a crise econômica, o desemprego e a falta de segurança, mas o Rio é um ponto fora da curva. Em qualquer bairro, o número de camelôs aumentou muito. Já estive com o prefeito (Marcelo Crivella), conversei, pedi. A autoridade municipal continua inoperante. Não adianta padronizar ambulantes se não há fiscalização — reclama
.
O presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horário Magalhães, destaca o mafuá no calçadão da Avenida Atlântica, especialmente no início da noite, entre as ruas Miguel Lemos e Siqueira Campos:

— Estamos chamando o calçadão da orla de Copacabana de praça de alimentação, de tão lotado que está de camelôs. O pedestre tem que andar num trecho pequeno entre a ciclovia e os ambulantes. Numa concorrência desleal com os quiosques, eles vendem churrasquinho, cerveja e caipirinha, além de camisas de clube e roupas de marcas famosas.

Mas não é só o comércio informal que incomoda. A principal reclamação dos moradores de Copacabana e do Leme é quanto à população de rua. Nas proximidades da Avenida Princesa Isabel, por exemplo, um posto de gasolina desativado virou, de um lado, dormitório; do outro, estacionamento irregular. No Túnel Velho, que liga Copacabana a Botafogo, placas acústicas foram arrancadas. Os buracos viraram esconderijos para grupos que assaltam pedestres.

Horácio Magalhães chama a atenção ainda para a operação do BRS em Copacabana: segundo ele, motoristas estão ignorando as placas e parando em qualquer ponto. O lado esquerdo da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, acrescenta, virou estacionamento, sobrando apenas uma faixa para veículos particulares e táxis sem passageiros.

Entre o Leblon e Ipanema, os problemas se repetem. O Jardim de Alah está lotado de moradores de rua. Mas não é só. No local, o canal está sujo e postes ameaçam cair. Para Evelyn Rosenzweig, presidente da Associação de Moradores do Leblon, a solução é uma só — ocupar a área:

— O ponto de partida para melhorar as condições do Jardim de Alah é levar público, feiras para lá (a prefeitura anunciou que entregaria o parque à iniciativa privada, mas o assunto ainda está sendo estudado).

Segundo Evelyn, outra praça do Leblon, a Antero de Quental, também está entregue às traças:

— Os brinquedos estão quebrados e há um bando de carrocinhas sem controle — diz, acrescentando que a Praça Cazuza virou um camelódromo à noite.

“Já estive com o prefeito (Marcelo Crivella), conversei, pedi. A autoridade municipal continua inoperante. Não adianta padronizar ambulantes se não há fiscalização”

ALDO GONÇALVES
presidente do SindLojas e do CDL do Rio
Em outros pontos da cidade, o problema é a ação de vândalos: foram pichados gradis de pontes de Avenida Visconde de Albuquerque, no Leblon, pedras no final do Leme, próximo ao Caminho do Pescador, a fachada da Escola Municipal Deodoro, na Glória e placas turísticas, na Lapa. Na orla do Leblon, nem mesmo a escultura “Estrela”, de Amílcar de Castro, escapou.

Placas acústicas instaladas no Túnel Velho, que liga Copacabana a Botafogo, foram arrancadas.Quem passa por ali diz que bandidos usam os buracos como esconderijos após praticarem assaltos Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Placas acústicas instaladas no Túnel Velho, que liga Copacabana a Botafogo, foram arrancadas.Quem passa por ali diz que bandidos usam os buracos como esconderijos após praticarem assaltos Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

A prefeitura informou, na sexta-feira, que iria limpar nesta segunda-feira as pichações da escola, mas nada foi feito. Em relação aos moradores de rua, a Secretaria de Assistência Social afirmou que, no mês passado, fez 6.482 abordagens no Centro e na Zona Sul, mas só “pode agir conforme a vontade do cidadão”. A Secretaria de Ordem Pública, por sua vez, destacou que, no último trimestre de 2019, aumentou em 124% o número de ações especiais de ordenamento em relação a 2018. Segundo a Secretaria de Fazenda, são feitas ações rotineiras nas avenidas Atlântica e Rio Branco. Já a Comlurb diz que ações de combate às pichações são permanentes e que a roçada em todo o Jardim de Alah é feita a cada 20 dias, e a varrição, diária. Por fim, a CET-Rio afirmou que a fiscalização do BRS está a cargo de equipamentos eletrônicos.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior