No segundo dia do ano, a direção do Museu Casa do Pontal telefonou para a Rio-Águas e avisou da forte chuva prevista. O contato faz parte do protocolo do local para não sofrer com as inundações que ocorrem desde que edificações da Vila de Mídia da Rio-2016 foram construídas no entorno do seu terreno e deixaram sua sede um metro abaixo do nível da vizinhança. De lá para cá, foram quatro grandes alagamentos, segundo o diretor executivo do museu, Lucas Van de Beuque. Um deles, em janeiro de 2016, deixou ilhada uma obra da dupla Osgemeos, que fica na área externa.
Um acordo entre a diretoria, a prefeitura e a empresa Calper, responsável pela obra vizinha ao museu, estabeleceu que esta faria um repasse de R$ 7,5 milhões para a construção de uma nova sede num terreno municipal na Avenida Célia Ribeiro da Silva, na Barra. O restante do valor necessário, R$ 3,5 milhões, seria financiado pela Casa do Pontal. Em julho do ano passado, entretanto, a empresa contratada pelas duas partes para realizar as obras teve que interrompê-las devido à falta de repasse de verbas pela Calper — o último aporte fora feito em março. Segundo Van de Beuque, falta concluir 30% do trabalho. A prefeitura fala em 10%.
Desde então, a direção da Casa do Pontal, que já havia se preparado para a mudança, sofre com a falta de previsão para a retomada da construção do prédio e com ameaças de chuva, principalmente neste verão. A Secretaria municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação garante que dentro das próximas duas semanas uma equipe da Riourbe fará um levantamento do que falta para concluir as obras e, então, será enviado um orçamento à Secretaria de Fazenda, para liberação da verba. Em julho, calcula a pasta, faltavam cerca de R$ 1,5 milhão dos R$ 7,5 milhões previstos. Posteriormente, diz a pasta, a prefeitura cobrará da Calper o montante que gastar no projeto.
O Museu Casa do Pontal tem um acervo de 8.500 obras de arte popular de todo o país. Com as enchentes, uma parte importante dos livros da biblioteca foi perdida. A direção foi obrigada também a elevar a altura das vitrines e instalar comportas.
Só no ano passado, foram gastos R$ 700 mil do fundo patrimonial do museu com despesas relativas ao dia a dia e à transição, diz Van de Beuque. Em agosto, a instituição foi contemplada com R$ 4,5 milhões do BNDES, que devem ser usados na transferência do acervo para a nova sede, na montagem das exposições e na divulgação da mudança, além de financiar o funcionamento do museu por um ano. A quantia, entretanto, só será repassada após a conclusão da obra, o que deixa os diretores do museu de mãos atadas. Quando notaram que a mudança não ocorreria no prazo previsto, eles decidiram reduzir o horário de funcionamento, que agora vai de quinta a domingo. Caso a obra não seja retomada, afirma Van de Beuque, a Casa do Pontal não conseguirá manter suas portas abertas até o fim do ano, pois seu fundo atualmente conta apenas com R$ 500 mil:
— Temos uma urgência dupla. A cada chuva ficamos mais preocupados. Além disso, tem a sobrevivência do museu. Nós nos planejamos para sair (do endereço) até julho, então a nossa captação para ficar aqui ficou comprometida. Estamos nesse limbo. A prefeitura disse que vai fazer a obra. Estamos conversando, mas a questão é que precisamos fazer isso o mais rápido possível.
Com a redução do horário de funcionamento, o número de visitantes caiu bruscamente, de 1.700 pessoas por dia para 700. A expectativa é que isso mude com a troca de endereço. A direção aposta no novo espaço e já iniciou parcerias com museus e órgãos internacionais, como o Mucem, de Marselha, na França, que deve inaugurar uma exposição temporária na sede que será aberta; e o Consulado da França. No entanto, a incerteza em relação à mudança forçou a direção a deixar a captação de outras parcerias em segundo plano.
Dono e presidente da Calper, Ricardo Ranauro explica que contratou um seguro por R$ 151 mil para a prefeitura, como forma de garantir a conclusão das obras. Uma cláusula diz que cabe ao segurado (a prefeitura) comunicar o inadimplemento do tomador (Calper). Todavia, a apólice venceu em março do ano passado, um dia depois do último repasse feito pela Calper à empresa responsável pelas obras, e não foi renovada. Ranauro afirma que deu “indícios” de que não conseguiria honrar o compromisso, mas não fez um comunicado formal. Ele afirma que não sabia a data de validade do seguro, embora essa informação esteja na primeira página da apólice.
— Não estamos dizendo que não vamos pagar à prefeitura o que devemos, mas não podemos colocar esse R$ 1,5 milhão que falta agora. Eles não usaram o seguro e ficam botando a culpa em mim. Nossa prioridade são os clientes, nossas obras. Sabíamos que as (do museu) seriam terminadas, por causa do seguro. Demos sinais de que não conseguiríamos chegar ao fim. Não falamos textualmente, mas eles vinham sentindo isso. E, para mim, o seguro poderia ser acionado a qualquer tempo — alega Ranauro.
Por sua vez, a Secretaria de Urbanismo informou que cabia à Calper renovar o seguro. Van de Beuque critica ambas as partes e afirma que também não conhecia os termos do documento:
— É responsabilidade da prefeitura não ter feito a prorrogação do seguro e da Calper não ter cumprido o acordo da obra. Como não somos parte (do seguro), não tivemos o que fazer.
CONTAS ATRASADAS E MUITO ‘AMOR’
O orçamento apertado, agravado pela crise econômica que abala o estado, vem exigindo que os administradores de espaços culturais da região façam malabarismos para não encerrar projetos ou até ter de fechar as portas definitivamente.
Os gestores da Lona Cultural Jacob do Bandolim estreitaram laços com os artistas, principalmente os da região, para manter a programação. A casa cheia, com média de 300 pessoas por evento, não é suficiente para ajudar a pagar as contas, atrasadas há oito meses, desde que, segundo eles, a prefeitura deixou de fazer os repasses mensais no valor de R$ 25 mil. A situação tem impacto inclusive no pagamento dos salários dos 13 funcionários.
— O processo de pagamento ficou parado na mesa da Secretaria de Cultura. Primeiro, fomos contingenciados e, depois, a prefeitura fechou as contas mais cedo — afirma o produtor cultural Diego Cosmetinni, um dos gestores da lona desde 2015. — Só de gastos com equipamentos de luz e de som são R$ 7 mil. E o valor da verba foi congelado; não teve reajuste em 11 anos de existência das lonas.
Na maioria dos eventos, o ingresso tem preço simbólico, de R$ 0,50 a R$ 1, ou é gratuito. Uma rede unindo artistas e produtores vem mantendo a lona em funcionamento. Grupos como Matanza, responsável por reunir 600 pessoas, e Celebrare se apresentaram no local nos últimos meses.
— Fábio Lima, artista e produtor, trouxe o Matanza para cá por enxergar um cenário propício para o rock na região — conta Victor Buhr, diretor de produção e supervisor técnico da lona. — Nossa ideia é massificar a divulgação e criar eventos mensais a preços populares.
Ainda estão previstas oficinas gratuitas (de cinema, teatro e MMA, entre outras), com contribuição consciente (como acrobacia aérea) e ao preço de R$ 40 mensais (aulas de boxe e ginástica e dança para a terceira idade). A grade de aulas é uma forma de ocupar o local nos dias úteis e torná-lo parte da rotina dos moradores, para que eles reconheçam sua importância.
A Secretaria de Cultura informa que as lonas culturais recebem os repasses mensais antecipadamente e que em junho do ano passado entregou à Lona Jacob do Bandolim R$ 100 mil, referentes aos meses de junho a setembro de 2017. Devido a problemas com a prestação de contas, não houve repasse em outubro. A nova contabilidade da Jacob do Bandolim foi aprovada em 23 de novembro, mas, com o encerramento do ano fiscal, só seria possível fazer outro repasse para o espaço em março deste ano. Entretanto, será aberta uma exceção e, em fevereiro, a administração do local receberá R$ 200 mil, referentes ao período que vai de outubro de 2017 a maio de 2018.
É de parcerias que vive também o CCD em Cena, na Cidade de Deus. A ideia é manter projetos de teatro e cinema por meio de editais, cada vez mais raros.
A trupe, com cerca de 50 integrantes produz curtas-metragens, peças, cineclubes e videoclipes. O número de patrocinadores e apoiadores também diminuiu, levando a equipe a trabalhar “no amor”, um jeito de dizer que não ganha cachê e, às vezes, precisa contribuir financeiramente para fazer as produções e os eventos, diz o ator, cineasta e produtor Mateus Paz, diretor do grupo.
— Nós, pretos e favelados, sempre estivemos em crise. A diferença, para nós, é que as pessoas começaram a falar sobre isso. Mas nossa realidade sempre foi essa. No fim de 2016, quando começou a piorar, já sabíamos como fazer parcerias, só que os apoios menores foram se tornando inexistentes — aponta o diretor.
O grupo oferece ainda aulas gratuitas de cinema e teatro. Vizinhos e comerciantes locais ajudam com doações:
— Ser um projeto sério ajuda a enfrentar a crise. As lideranças comunitárias de Jacarepaguá e outros parceiros estão nos dando as mãos como podem, seja emprestando equipamento, doando lanche ou cedendo espaço.
As dificuldades no setor privado atingiram também o Lúmini Art, no Recreio, centro de pesquisa e ações socioculturais criado em 2000 pelo físico Sérgio Henrique Machado. Ele luta para manter o projeto Luminando, pelo qual oferece vagas gratuitamente a alunos de 6 a 17 anos da rede pública.
O projeto sempre se manteve com a renda de contratos para apresentações em eventos de empresas e com o auxílio de parceiros e apoiadores. As duas fontes de receita minguaram, e o Lúmini, de cerca de um ano para cá, passou a dar prejuízo.
— Nossa ideia sempre foi desenvolver projetos artísticos, continuando a pesquisa da companhia de dança, fazendo-a crescer. Acabamos entrando no mundo corporativo, o que passou a gerar receita, e fomos capazes de manter o projeto. Com o tempo, contratamos funcionários e pudemos ajudar mais crianças — conta Machado. — Hoje, porém, nosso patrocínio só paga parte das contas, e o cachê dos espetáculos caiu demais. Ao longo dos anos, já vendi meu carro e me mudei. Mas 2017 foi o pior de todos.
O Lúmini oferece 12 modalidades, como dança contemporânea, acrobacia aérea e teatro. Outra forma encontrada para aumentar a receita foi realizar apresentações no próprio espaço, com entrada a R$ 20. O local ainda promove trabalho com crianças autistas, com síndrome de Down e paralisia cerebral.
Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior