Historiadores e pesquisadores estão sem acesso a uma das principais fontes de conhecimento sobre o Rio. O Arquivo Público do estado, órgão que guarda boa parte da memória fluminense desde o século XVIII, encontra-se fechado há 12 dias por falta de condições de funcionamento. No último dia 24, a Light cortou a energia do local por inadimplência, conforme informou a coluna Gente Boa, do GLOBO. Desde então, a equipe está impedida de fazer o básico, como consultar a base de dados da instituição para realizar qualquer pesquisa. Parte do acervo necessita de refrigeração e corre o risco de se deteriorar. E pior: não há qualquer previsão de reabertura ao público.
Na quarta-feira, uma equipe de reportagem do GLOBO foi ao local, mas as portas do prédio estavam trancadas. Apesar do corte de luz, funcionários de manutenção, vigilância, limpeza e administração trabalhavam. Uma profissional contou que ainda não há previsão para reabrir a unidade. Além de servir à pesquisa acadêmica e subsidiar ações da própria administração pública, os documentos sob custódia do arquivo são indispensáveis para provar e garantir direitos de cidadania, como indenizações a anistiados políticos.
Um dos acervos mais procurados é o que reúne informações sobre a repressão política no Rio. Há folhetos, panfletos e cartazes apreendidos pelas antigas delegacias de polícia política que atuaram no Rio, entre 1910 e 1983. Em 92, o acervo, então sob a guarda da PF, foi, por ato do Ministério da Justiça, recolhido ao Arquivo Público do Estado.
— Os pesquisadores estão aflitos. Alguns, com teses de mestrado e doutorado, estão com medo de estourar o prazo. Somos requisitados por pesquisadores em geral e por órgãos como Ministério da Justiça, Ministério Público e procuradorias de vários estados, que pedem material probatório para conceder anistia. Só que não temos condição de fazer nada sem energia — contou uma servidora, que está com o salário de março atrasado.
Segundo ela, o Arquivo Público recebe, em média, 230 visitas por mês e tem cerca de 30 funcionários, que estão se revezando numa escala de quatro horas:
— Só está vindo quem faz atendimento. Não tem muito o que fazer sem luz. O prédio é antigo, sem janelas. Para imprimir algo, vamos ao Palácio Guanabara.
De acordo com a Light, a dívida do Arquivo Público está em torno de R$ 390 mil, correspondente ao consumo de dezembro de 2016 a fevereiro deste ano. As contas de março e abril também não foram pagas, mas ainda estão dentro do prazo legal. Em nota, a Secretaria de Fazenda e Planejamento informou que está negociando com a Light para restabelecer o serviço.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo