Cerca de 60 pais passaram três dias esperando na porta de um colégio estadual em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, para tentar garantir uma vaga para seus filhos. A fila começou a se formar no domingo, por volta das 14h e só se dissipou na manhã desta quarta-feira, quando a direção do Colégio estadual Erich Walter Heine disponibilizou uma lista de espera para vagas a serem preenchidas no caso de eventuais desistências dos alunos já matriculados. Por volta das 9h, pelo menos 30 responsáveis ainda esperavam o atendimento.
Para organizar a fila, os próprios pais criaram uma lista com os nomes de quem estava no local. Ainda assim, era preciso permanecer no lugar para não perder a posição. Dia e noite, os responsáveis se revezaram com parentes e amigos para conseguirem fazer as refeições e ir ao banheiro. A maioria das pessoas da fila mora na vizinhança da escola e, apesar da proximidade, tiveram seus filhos alocados em escolas distantes pelo sistema de matrícula estadual.
— A matrícula online alocou minha filha em uma escola no bairro Vilar Carioca, na Cesário de Melo. Ela, que tem 15 anos, vai precisar pegar dois ônibus e ainda andar um bocado para chegar na unidade. Eu, como pai, fico preocupado. Se ela estudasse no Erich Heine, poderia ir a pé — diz Maurício Lins, de 55 anos, que mora numa rua ao lado do colégio e chegou na fila no domingo à noite.
COLÉGIO PREMIADO
Mas não é apenas a proximidade que motiva a grande procura pela unidade. O Colégio Erich Walter Heine obteve a maior nota da rede no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2017: tirou 5.6, bem acima da média nacional das redes estaduais, que é de 3.5. Além disso, graças a uma parceria com a siderúrgica ThyssenKrupp CSA, o prédio da escola foi reformado inteiramente sob o conceito de sustentabilidade (telhado verde, iluminação natural, horta, reciclagem de materiais) e chegou a ganhar um prêmio internacional por isso. Outro aspecto que atrai as famílias é o fato de a unidade oferecer o ensino técnico em administração. Ao fim do curso, os alunos podem fazer um estágio na CSA.
Com tantos atrativos, o colégio acaba chamando a atenção de alunos que moram em outros bairros, fazendo com que a concorrência aluno/vaga aumente naquela unidade. Ao fazer a matrícula no ensino médio da rede estadual, pela internet, os responsáveis precisam selecionar três unidades, em ordem de preferência. Os alunos são alocados de acordo com critérios como: ter concluído o ensino fundamental em escola pública, morar próximo à unidade escolhida e ter a idade adequada para o ano a ser cursado.
Esse último item – idade – é o que tem feito a diferença, de acordo com alguns relatos. Alunos que têm 14 anos são priorizados para ingressar nas turmas do 1º ano do Ensino Médio, em detrimento dos que têm 15. Com isso, os adolescentes da vizinhança que estão nessa faixa acabam sendo alocados na segunda ou terceira opção.
— Na primeira fase, entraram todos que têm 14 anos. Meu filho tem 15 e ficou de fora. Eu moro na rua de trás da escola. Mas ele foi alocado em uma unidade que fica na Areia Branca, e vai precisar pegar dois ônibus e uma kombi para chegar. A gente sabe que é uma escola premiada, de referência, e por isso atrai outras pessoas. Mas é preciso repensar os critérios — afirma Ana Paula da Silva, de 46 anos, que chegou na fila às 20h de domingo e garantiu a 19ª posição na fila de espera do colégio.
De acordo com ela, o processo seletivo para a unidade era feito mediante prova até quatro anos atrás, quando foi criada a matrícula online, de forma padronizada para todas as unidades da rede. Na opinião de Ana Paula, o currículo escolar deveria ser adotado como critério para a seleção.
— Se querem manter o nível de excelência da escola, então deveriam pedir o histórico escolar. O aluno que quer vir para cá tem que ser MB (“Muito Bom”, nota máxima na avaliação da rede pública) desde cedo — diz ela.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: FABIANO ROCHA / Agência O Globo