Circuito oferece tours para conhecer cultura de comunidades quilombolas de Jacarepaguá

Dotado de construções imponentes, o histórico terreno da Beneficência Portuguesa na Praça Seca foi escolhido como o lugar ideal para manter viva uma história ainda mais antiga. A área onde hoje é o bairro já foi o Engenho de Fora, um dos muitos engenhos que havia em Jacarepaguá no período colonial. Para resgatar atividades, festas, saberes e ritos dos povos africanos que ali trabalharam como escravos surgiu o Quilombo Aquilah, cuja importância acaba de ser reconhecida pelo poder público. No mês passado, ele foi escolhido pela Secretaria de Turismo do Rio de Janeiro (Setur) e pela Companhia de Turismo do Estado do Rio de Janeiro (TurisRio) para coordenar o recém-criado Circuito Carioca Quilombola de Jacarepaguá.

O grupo coordenado por Hosania Nascimento de Almeida e Cláudia Mattos, ambas profissionais da área de saúde, começou oferecendo atendimento médico básico para mulheres negras, moradoras do entorno. O trabalho sociocultural surgiu como uma forma de atraí-las, mas foi se fortalecendo e se transformou num braço importante do projeto. Em 2014, o Aquilah foi um dos quatro selecionados no Grande Rio para a Semana Fluminense do Patrimônio, iniciativa com o objetivo de valorizar o patrimônio cultural imaterial fluminense.

— Somos um quilombo urbano por não sermos remanescentes de quilombolas mas oferecermos atividades voltadas para a preservação dessa cultura — diz Hosania.

Os primeiros programas tiveram início em 2010, numa sala. Mas se multiplicaram e o projeto passou a ocupar a área onde funcionava a enfermaria da Beneficência, fechada há quatro anos. O leque de atividades aumentou, com oficinas de dança e música; festas semanais ou mensais, embaladas por maracatu, jongo e samba de roda; uma sala com acervo de povos africanos no Brasil e no mundo; e um salão multiuso, ocupado por palestras, reuniões e estudos.

O atendimento médico voluntário também foi ampliado, à medida que mais profissionais aderiram à iniciativa, oferecendo consultas e palestras sobre cuidados básicos. Há também fornecimento gratuito de remédios, doados por laboratórios da região. Os quilombos do Camorim e Cafundá Astrogilda, no Maciço da Pedra Branca, recebem ainda as visitas mensais do programa “Aquilah saúde”.

— Os negros costumam ter patologias como diabetes e hipertensão. Nossa causa era cuidar das mulheres negras do entorno e de seus familiares. Precisávamos atraí-las e começamos um trabalho sociocultural. Enquanto elas esperavam consulta, dávamos oficinas — conta Hosania.

A cardiologista e geriatra Cláudia Mattos é coordenadora do serviço nas comunidades. O material usado nas visitas é doado por parceiros, que emprestam também veículos para o transporte:

— Observamos que as pessoas precisam de consultas básicas, preventivas. Desde julho vamos ao Cafundá Astrogilda, que agora já tem também psicólogo.

O Circuito Carioca Quilombola de Jacarepaguá, coordenado pelo Aquilah, oferece um passeio de oito horas, de sexta a domingo, pelos três quilombos da região. Os visitantes têm contato com música, gastronomia, dança, artesanato e história dos povos africanos. A aproximação dos espaços, ressalta Maria Lúcia dos Santos Mesquita, da Comunidade Cafundá Astrogilda, em Vargem Grande, tem resultado em boas parcerias. O local, com cerca de três mil moradores, foi reconhecido como comunidade quilombola pela Fundação Palmares em 2014. .

— O território é só um, e foi se dividindo. Com o tempo, voltamos a nos aproximar — celebra Maria Lúcia, neta da matriarca, Astrogilda, reforçando a mudança da própria comunidade nos últimos anos. — Estamos nos vendo de outra maneira, e conseguimos dar mais visibilidade à nossa cultura. É um trabalho de luta, de resistência.

O Quilombo Aquilah nasceu com a proposta de disseminar a cultura afro. Está aberto de terça a sexta, das 9h às 17h, e nos fins de semana, de acordo com a programação prevista. Entre os voluntários está a farmacêutica Irisland Medeiros, a Iris, uma “faz-tudo”, cujas funções vão desde receitar medicamentos até arrumar a sede para eventos e visitas de escolas.

— Quando cheguei, estava tratando uma depressão. Tem o lado médico, mas também o resgate do que é ser mulher. A gente é acolhida aqui — diz Iris.

A massoterapeuta Andreia Simões, ou Branca, também encontrou suporte após o divórcio. Hoje, oferece sessões de massoterapia gratuitas, com produtos orgânicos, e aprende danças tradicionais e artesanato.

— Aqui nós encontramos amor ao próximo, o cuidado com o outro. Eu sou muito grata — conta, emocionada.

A tranquilidade do quilombo só é abalada pela ameaça de perder a sede. O complexo da Beneficência Portuguesa na Glória, na Zona Sul, foi arrematado em um leilão em 2013. A unidade da Praça Seca não consta do acordo, mas tem futuro incerto.

— Queremos continuar o trabalho e o panorama nos parece favorável, mas ainda não podemos falar sobre isso — diz Hosania.

Enquanto a negociação continua, o Aquilah começa a cultivar plantas medicinais que pretende distribuir. Grupos podem conhecer o local; basta agendar. A programação cultural é compartilhada na página do Facebook @quilomboaquilah.
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Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior