Ninguém duvida que cada desfile na Sapucaí é uma verdadeira aula de cultura popular. O que muitos sequer desconfiam é que há um outro enredo por trás das apresentações. Sem fantasias e adereços e munida de cadernos e canetas, uma turma cada vez maior tem ido para as salas de aula estudar o carnaval. Os “acadêmicos do samba” já têm espaço na UFRJ, na Uerj, na Candido Mendes e na Veiga de Almeida, que oferecem cursos de pós-gradução e MBA ou laboratórios para reunir quem pesquisa e também quem faz a folia acontecer.
O carnavalesco Tarcísio Zanon está no grupo dos que levam para a Avenida o que aprendeu em sala de aula. Pós-graduado em Figurino e Carnaval pela Universidade Veiga de Almeida, ele foi aluno, por exemplo, de Jack Vasconcelos, carnavalesco da Mocidade. Ao lado de Marcus Ferreira, Tarcísio fez da Viradouro a campeã do Sambódromo este ano. Já Gabriel Haddad, da Grande Rio, a vice-campeã, defendeu, poucas semanas antes dos desfiles, sua dissertação de mestrado sobre carnaval no Programa de Pós-Graduação em Artes da Uerj.
Pesquisa de campo
Na UFRJ, o Observatório de Carnaval, ligado ao Museu Nacional e criado há três anos, reúne cerca de 50 alunos de graduação, mestrado e doutorado, de diferentes cursos. O núcleo não se limita a pesquisar entre muros: vai a campo, ou seja, até as escolas de samba. Todos os anos, estuda os enredos — neste, foram 27, da Série A e do Grupo Especial. Ao final, um júri escolhe os destaques em quesitos como “efeito imagético do enredo”. Neste ano, deu Mocidade. A premiação será dia 26, na Faculdade de Letras.
— Nossos doutores ajudam muito os alunos a encontrarem seus temas e os caminhos para estudá-los. O carnaval ainda é visto na universidade com muito preconceito. Muitas vezes, o orientador do curso não sabe orientar sobre carnaval — diz Tiago Freitas, coordenador-geral e doutorando em Linguística pela UFRJ e em História da Arte pela Uerj.
A Uerj tem o Centro de Referência do Carnaval, um laboratório que reúne cerca de 50 pessoas.
— Essa renovação de carnavalescos surge a partir da academia. Há um gosto pela pesquisa. Eles disputam, mas não são inimigos — comenta Felipe Ferreira, criador do centro e orientador da pós em Artes e em História da Arte, destacando diferenças entre a geração atual e a anterior, que vinha sobretudo da Escola de Belas Artes (EBA), da UFRJ. — A EBA tinha o perfil do fazer, do artista criador. Hoje, as universidades têm papel importante em formar o artista pensador.
A pós da Veiga de Almeida, criada em 2007, é uma das que mais formam profissionais para a folia. São professores estrelas como o maquiador Jorge Abreu; o enredista João Gustavo Melo; e o historiador Luis Carlos Magalhães, presidente da Portela.
— Falamos no curso da construção do figurino, como você cria uma história, setoriza o tema e desenvolve a partir daí a comissão de frente, o abre-alas… — explica Klayton Eler, coordenador do curso.
A Associação Brasileira de Gestão Cultural, em convênio com a Universidade Candido Mendes, oferece desde 2002 o MBA em Gestão e Produção Cultural, com aulas voltadas para o carnaval. O carnavalesco Milton Cunha é professor do curso:
— O curso da Veiga é mais para o pessoal que quer design. Já o da Candido é para quem quer ser diretor de harmonia, diretor de carnaval, chefe de barracão, ou para quem quer empreender fazendo bailes e blocos.
O troféu do júri acadêmico do Observatório de Carnaval (Obcar), da UFRJ
Efeito imagético em enredo – Mocidade
Poética no enredo – Mocidade
Discursividade no enredo – Mocidade
Narratologia no enredo – Mocidade
Coreografia na comissão de frente – Mocidade
Narrativa e discurso na comissão de frente – Mocidade
Bailado do mestre-sala e porta-bandeira – empate entre Mocidade e Vila Isabel
Dança e movimento de passistas – São Clemente
Movimento em baianas – Mocidade
Efeito imagético em fantasias – Viradouro
Efeito imagético em alegorias – Viradouro
Musicalidade em samba-enredo – Mocidade
Musicalidade em bateria – Mocidade
Musicalidade em harmonia – Mocidade
Comunicação e interação com o público – Mocidade
Intérprete – Mocidade
Onde estudar e pesquisar o ziriguidum
Pós-graduação em Figurino e Carnaval da Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Duração de 20 meses, com aulas quinzenais aos sábados. A próxima turma começa no dia 28 de março, no campus Tijuca. A primeira mensalidade custa R$ 314,93, e o restante do pagamento é feito em 19 parcelas de R$ 503,88. Informações pelo www.uva.br ou (21) 2574-8888, para o Rio; demais localidades pelo 0800 024 6172.
MBA em Gestão e Produção Cultural da Cândido Mendes/ABGC
A próxima turma começa em abril. A duração é de 18 meses, com aulas quinzenais aos sábados. O curso terá como sede o Museu da República. O custo é dividido em 24 parcelas de R$ 870,00. Serão oferecidas duas bolsas integrais. Informações pelo (21) 3543-6489 e www.abgc.org.br.
Observatório de Carnaval (Obcar) da UFRJ
Ligado ao Museu Nacional, é aberto a alunos de graduação, mestrado e doutorado – tanto da UFRJ quanto de fora – com pesquisas ligadas ao carnaval. Esse grupo de pesquisa engloba diferentes cursos e oferece a orientação de especialistas na área. Pelo @observatoriodecarnaval_ufrj, no Instagram, é possível acompanhar as atividades dos pesquisadores.
Centro de Referência do Carnaval da Uerj
Reúne estudantes de diferentes cursos com linhas de pesquisa dentro da temática do carnaval. Dentro do centro também funciona o Laboratório de Arte Carnavalesca. As atividades, como seminários, e a biblioteca – na Coart, o centro cultural da Uerj – são abertas à comunidade. Informações pelo (021) 2334-0423.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: ROBERTO MOREYRA / Agência O Globo