Autor de ‘Cidade Partida’, Zuenir Ventura volta a Vigário Geral 24 anos após chacina

Quarenta e cinco degraus tem a escada da passarela verde que passa sobre a linha férrea, à margem da Rua Bulhões Marcial, um dos limites de Vigário Geral. Zuenir Ventura a subiu tantas vezes que memorizou o número de degraus. Nunca esqueceu. Colunista do GLOBO e imortal da Academia Brasileira de Letras, o mineiro de 86 anos volta a ser repórter quando chega ao lugar onde ocorreu uma das páginas mais tristes da história carioca, que ele conhece como poucos. É logo reconhecido: “A lenda chegou!”, anuncia Paulo Nei, que era uma criança no dia 29 de agosto de 1993, quando 21 inocentes foram mortos na chacina de Vigário Geral.

— A cidade continua partida. A diferença fundamental é que hoje temos consciência disso — afirma Zuenir, que não ia a Vigário há dez anos.

Ele frequentou a favela durante dez meses, entre 1993 e 1994, antes de publicar o livro “Cidade Partida”, um divisor de águas no jornalismo e no pensamento da sociedade carioca, vencedor do Prêmio Jabuti. Nesta terça-feira, dia 29, a chacina completou 24 anos, e Zuenir encontrou na comunidade as feridas da tragédia ainda abertas. Há famílias de mortos, que até hoje, lutam pela indenização prometida pelo estado. Outras tentam manter o pagamento, que seria vitalício quando foi acordado, mas depois passou a valer apenas até a data em que a vítima completaria 65 anos.

— Continuamos lutando por justiça, e não vamos desistir. Agora, de novo, a briga é pelas indenizações — afirma Iracilda Toledo, presidente da associação de mortos da chacina e viúva do ferroviário Adalberto de Souza.

UPP FOI ESPERANÇA POR UM TEMPO

Vigário Geral ainda chora pelos seus mortos.

— A UPP foi uma grande esperança, mas faltou ao projeto aquilo que Betinho chamava de invasão de cidadania. Vivemos aqui um apartheid social, e a maneira de mudar isso não é com força policial, mas com cidadania — afirma Zuenir.

Antes de Zuenir ir embora de Vigário, Estevan, de 11 anos, pede um abraço. Depois, volta com um celular para tirar uma foto. Diz que seu sonho é ser jogador do Flamengo, e pede a Zuenir que volte à favela.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior