Definitivamente, Norberto Faion é um homem das artes. Aos 73 anos, atuou em teatro, cinema, música e literatura. Difícil para ele é decidir o que mais lhe agradou. Com a sabedoria e a segurança que a idade lhe permite, ele admite que, mesmo com tantos anos de experiência, não conseguiu fazer com que seu nome fosse reconhecido. No entanto, o artista não se deixa abater e luta para lançar, de forma independente, dois livros e mais de 20 canções, que ele sonha ver sendo apreciados pelo grande público.
— Corro atrás para que as pessoas tenham acesso aos meus trabalhos. Estou aplicando minhas economias nisso — diz Faion.
Morador do Pechincha, o artista conta que tentou vender os direitos de seu livro “Contos de um ser qualquer”, mas não foi bem-sucedido. Mesmo assim, não desistiu. Pagou do próprio bolso a impressão de 250 cópias e agora decide se vai vendê-las ou distribuí-las gratuitamente. Os direitos da publicação, que tem 30 contos, continuam sendo negociados com outras editoras.
— Eles falam sobre temas abrangentes: amor, morte e até paranormalidade. Uns são autobiográficos. E tem um que se chama “Festa junina”. A história se passa no dia de São João, numa festa caipira. No final, quase todos os presentes se dão mal ou morrem. Fala sobre a tensão negativa entre os personagens, mas é maravilhoso — garante o autor, que atualmente está escrevendo um livro de poesia.
Inspiração para novas histórias é o que não falta. Faion começou a se interessar pelas artes ainda criança, em São Paulo, sua cidade natal:
— Minha mãe era bilheteira de cinema. Nas férias, eu ia para o trabalho dela e assistia a todos os filmes na sala de projeção. Até os filmes para adultos, aqueles mais ousados.
Aos 19 anos, a caminho da sede da Guarda Civil, onde pretendia começar a trabalhar, um encontro mudou a vida de Faion.
— Encontrei um amigo que me convidou para tapar buraco de figurante no programa do Moacyr Franco, na antiga TV Excelsior. Fui e ainda ganhei uma fala em uma das cenas. Depois dessa experiência, quis investir na área — conta.
Sem sequer terminar o antigo segundo grau (hoje ensino médio), Faion passou a escrever roteiros.
— Nessa época, os textos das peças passavam pela minha mão nos bastidores. Tirava uma cópia para poder ter noção de como se fazia. Aí, deu vontade de começar a escrever as minhas próprias peças — conta ele, que chegou a produzir seis roteiros.
Não demorou para migrar para o cinema, escrevendo e atuando em filmes de pornochanchada:
— Aquilo queimava muito o filme da gente, mas eu precisava trabalhar. Logo depois me mudei para o Rio, onde fiz figurações em novelas.
Mesmo há tanto tempo afastado dos holofotes, Faion continua a se expressar através da arte. Ele tem 22 músicas (MPB, samba e baladas românticas) finalizadas em estúdio — algumas disponibilizadas em seu canal no YouTube). Atualmente, trabalha em outras três canções.
— A idade é implacável, mas ainda consigo expressar meus sentimentos por meio do meu trabalho. Nada me deixa mais feliz do que pegar minha poesia e colocar uma melodia em cima dela.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta junior
Foto: Guilherme Leporace / Agência O Globo