Com um clima de verão em pleno inverno, as praias ganharam protagonismo na estação. Mas a maré boa pode ficar só na aparência. A qualidade daquela areia clarinha da orla carioca não faz jus à paisagem. O último boletim divulgado pela prefeitura, em maio, alerta que 18 (75%) de 24 pontos analisados não estão recomendados porque apresentam algum tipo de contaminação. Nos cinco primeiros meses deste ano, 67,5% (162) das 240 amostras de areia coletadas em 15 praias oceânicas não apresentaram bons resultados.
O quadro, que tem como razão de fundo a poluição e o despejo de esgoto, preocupa principalmente porque, há um mês, o monitoramento deixou de ser feito. O contrato para o controle da qualidade das praias expirou em 31 de maio, quando saiu o último levantamento, e a empresa responsável pelo serviço não demonstrou interesse em continuar trabalhando para a Secretaria municipal de Meio Ambiente.
Levantamento do GLOBO com base nos dez boletins divulgados este ano mostra que as praias da Barra, próximo ao Quebra-Mar; de Copacabana, na altura da Rua República do Peru; e de Ipanema; perto da Rua Maria Quitéria, apareceram como “não recomendadas” 100% das vezes. Isso significa que a taxa de coliformes totais estava acima de 30 mil NMP (número mais provável) por 100 gramas de areia, e que a presença da bactéria Escherichia coli , responsável por infecções, era superior a 3.800 NMP/100g.
Animais e esgoto são causas de contaminação
No Leblon, na altura da Rua Bartolomeu Mitre; na Praia do Diabo e na Barra, na altura do Pepê, 90% das amostras estavam contaminadas. No Leme, no Arpoador, em Grumari, na altura do Rio do Mundo, e em Copacabana, perto das ruas Souza Lima e Barão de Ipanema, a areia apareceu imprópria 80% das vezes. No mesmo período do ano passado, a pior classificação apareceu em 33% de todas as pesquisas.
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A presença de cães — proibida por lei — e restos de comida são as principais causas de contaminação, de acordo com a Secretaria municipal de Meio Ambiente. Porém, na visão do infectologista Edimilson Migowski, da UFRJ, as línguas-negras deveriam ser a maior preocupação.
— Coliforme é pista inequívoca de que a areia vem sendo banhada com esgoto, fezes. Acredito que isso é 80% do problema — afirmou, destacando infecções intestinais, hepatite A e até meningite viral como doenças mais graves.
CONDIÇÃO DA AREIA DA PRAIA
NÃO RECOMENDADA
BOA
REGULAR
Vermelha
São Conrado
Ipanema
Prainha
Recreio/Reserva
Leme
Barra de
Guaratiba
Copacabana
Barra
Leblon
Pontal
Arpoador
Grumari
Pepê
67,5%
20,8%
Total das
coletas
(50)
(162)
Regular
Não reco-
mendadas
Das 240 amostras coletadas entre janeiro e maio
deste ano:
10,4%
1,2%
(25)
(3)
Ótima
Boa
Piores praias
Melhor praia
Recreio/Reserva é a única praia que nunca apareceu como NÃO RECOMENDADA. Essa também é a única que apareceu como ÓTIMA e por três vezes
Barra/QuebraMar
Copacabana/República do Peru
Ipanema/Maria Quitéria
NÃO RECOMENDADAS
em todos os boletins
Fonte: Secretaria Municipal do Meio Ambiente
A chef Juliana Jucá, de 46 anos, vai à Praia de Copacabana toda semana. No início do mês, ela parou no hospital com infecção intestinal.
— O médico incluiu a praia entre as hipóteses mais prováveis para explicar o quadro — contou. — Em alguns pontos, o cheiro é ruim, e piora com as línguas-negras. A população de rua também usa a praia como banheiro.
Na Praia da Reserva, no Recreio, o motorista José Antônio Rodrigues, de 48 anos, encheu seis sacolas de lixo enquanto caminhava na terça-feira. Mas a praia foi a única que, este ano, atingiu o quarto nível de avaliação, sendo considerada ótima por três vezes. Na pesquisa de maio, no entanto, a qualidade despencou para o segundo (regular), sem sequer passar pelo terceiro (bom).
Professor de biologia marinha da UFF, Abílio Soares cobra fiscalização, especialmente do despejo de esgoto:
— É caso de saúde pública.
Diante da queda da qualidade da areia, a Secretaria municipal de Meio Ambiente informou que pediu a intensificação da limpeza à Comlurb. O órgão frisou que fiscaliza o despejo de esgoto. Já a Comlurb explicou que usa um trator especial para revolver a areia, reduzindo, assim, o risco de contaminação por bactérias.
Banhistas ficam expostos a riscos de doenças
Segundo o dermatologista Egon Daxbacher, o contato com areia contaminada pode causar micoses e infecções fúngicas e bacterianas, que, não tratadas, viram erisipela e celulite.
O infectologista Edimilson Migowski explica que banhistas ainda estão expostos a vírus que provocam diarreia, vômitos e meningite.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo