Ampliação do BRS não sai do papel, e sistema já apresenta vários problemas de conservação

Lançado há sete anos como solução para desafogar os principais corredores viários da cidade, o Bus Rapid Service (BRS) se incorporou bem à rotina e ao cenário do Rio. De acordo com a CET-Rio, nos locais onde o projeto foi implantado, o tempo de percurso dos ônibus caiu, em média, 24%. Mas, apesar de reconhecer que o sistema de faixas exclusivas é essencial para a redução dos engarrafamentos, a Secretaria municipal de Transportes não implantou nenhum quilômetro de BRS ao longo de 2017. Pior: a falta de conservação das pistas especiais é latente em vários trechos, e vem sendo alvo de críticas.

— Contar com um corredor exclusivo é ótimo, inegavelmente as viagens de ônibus ficaram mais rápidas. Porém vejo com tristeza que ondulações e buracos tomaram o asfalto, o que já começa a provocar atrasos. O BRS é um sistema simples, espero que a prefeitura não deixe o projeto fracassar — disse o advogado Júlio Castro, passageiro da linha 220 (Usina-Candelária).

A Secretaria municipal de Transportes afirma que existe um plano para ampliar o sistema em 13 quilômetros este ano, mas sem especificar onde e quando irá fazê-lo. Entre 2011 e 2016, foram instalados 21 corredores de BRS no Rio, totalizando 50 quilômetros. No começo, houve muitas reclamações de motoristas de carros, que foram obrigados a ceder espaço nas vias, e de passageiros de ônibus, que tiveram de se acostumar a mudanças de pontos. O projeto se concentrou em ruas da Zona Sul (sete) e do Centro (seis), priorizadas por apresentarem engarrafamentos diariamente.

No fim da administração de Eduardo Paes, a prefeitura divulgou um plano de expansão dos corredores de BRS e uma lista com avenidas e ruas que, de acordo com estudos realizados, deveriam receber o sistema. A meta era a criação de mais 70 quilômetros de faixas exclusivas. O ex-secretário de Transportes Alexandre Sansão diz que a equipe de transição de gestão preparou um mapa com indicações para a implantação de 17 pistas até 2020. Seriam 13 novos percursos, com quatro trechos no Centro: os eixos Rua da Carioca-Avenida Nilo Peçanha, Rua Araújo Porto Alegre-Rua Evaristo da Veiga e as avenidas Passos e Graça Aranha.

A Secretaria municipal de Transportes não comenta o projeto. Apenas informa, em nota, que “avalia os corredores BRS com base nas medições encaminhadas pela CET-Rio, que verificam o desempenho dos corredores e a redução média no tempo de viagem”. “Há planos para mais 13 quilômetros de corredores BRS na cidade, mas ainda estão em análise, sem datas ou trechos confirmados para implantação”, destaca o órgão no comunicado.

ESPECIALISTA APONTA NECESSIDADE

As zonas Norte e Oeste, na avaliação de especialistas, deveriam ser as próximas regiões a receber novos quilômetros do sistema. Na primeira, há corredores do BRS num pequeno trecho da Tijuca e nas avenidas de chegada e saída do Méier (Marechal Rondon e Vinte e Quatro de Maio). Na segunda, nada foi implantado. Para Eva Vider, engenheira de transportes e professora da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o projeto chegou à maioria das vias que precisavam de pistas exclusivas para ônibus, mas é hora de a prefeitura investir naquelas que têm fluxo médio de coletivos.

— O BRS é um benefício para toda a cidade porque prioriza o transporte coletivo em detrimento do privado. Acredito que a maioria dos principais corredores já está contemplada, porém as zonas Norte e Oeste também precisam do sistema. Uma boa medida seria uma ligação entre a Cidade de Deus e o BRT, por exemplo. Corredores de média capacidade também podem começar a receber o BRS. Se você vê ônibus passando de cinco em cinco minutos numa via, ela já merece um BRS — comenta Eva Vider.

No planejamento feito pela gestão anterior da Secretaria municipal de Transportes, estavam previstas uma ligação da Tijuca ao Estácio (2,6 km), a complementação do trecho do Centro ao Méier/Vila Isabel via Radial Oeste (6,5 km, ida e volta) e o percurso Humaitá-Leblon pela Rua Jardim Botânico (4,8 km, ida e volta). Segundo Alexandre Sansão, a Zona Oeste, incluindo Barra e Jacarepaguá, foi excluída do projeto porque “notadamente, ganhou os corredores Transoeste, Transolímpica e Transcarioca do BRT, cumprindo o mesmo papel, mas de forma ainda mais impactante”.

ENGENHEIRO VÊ FALHAS NA FISCALIZAÇÃO

José de Oliveira Guerra, professor de Engenharia de Trânsito da Uerj, avalia que, antes de pensar em expandir o BRS, a prefeitura deve fazer com que os corredores já existentes voltem a funcionar bem:

— É preciso manter ativa a cultura da operação do corredor. A gente vai para a rua e verifica que as coisas não andam bem. Quem anda no BRS vê problemas operacionais, como o desrespeito aos locais de paradas dos ônibus. A fiscalização é necessária, não pode parar. Há pardais eletrônicos que deixaram de funcionar por questões de manutenção e de término de contrato.

De acordo com a CET-Rio, de janeiro a novembro do ano passado, foram registradas 84.791 infrações de invasão dos corredores BRS. Em 2016, houve 143.293. Mas, longe de representar uma melhoria no comportamento dos motorista, diz o órgão, a queda na quantidade de multas reflete um cenário atípico, formado por “muitos eventos”.

Uma equipe do GLOBO percorreu alguns corredores da cidade e constatou problemas. Na Rua São Clemente, em Botafogo, a faixa azul que delimita a pistas do BRS está apagada em vários trechos. O mesmo acontece na Rua Voluntários da Pátria, no mesmo bairro, e em vias do Centro. Na Rua Vinte e Quatro de Maio, que corta vários bairros da Zona Norte, há muitos buracos e ondulações no asfalto.

— Há uns dois meses, começaram a recapear a faixa entre São Francisco Xavier e o Méier. Mas até hoje o asfalto não foi completamente refeito. Isso prejudica o trânsito, pois os ônibus acabam saindo do BRS, espremendo os carros que passam ao lado, quase provocando acidentes — reclama a pensionista Marisa de Barros.

Em nota, a Secretaria municipal de Conservação diz que realiza manutenção constante em Botafogo, principalmente na Rua São Clemente, “que recebe um quantitativo enorme de ônibus diariamente”. “O serviço para este local já consta na programação”, acrescenta. O órgão afirma ainda que enviará uma equipe para vistoriar a Rua Vinte e Quatro de Maio para executar os serviços necessários.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior