Aos 78 anos, Luciano Mattei passa a maior parte do tempo na oficina instalada no quintal de sua casa na Estrada da Boiuna, na Taquara. Ali estão expostos um pouco de tudo o que criou e máquinas nas quais ainda está trabalhando. É o Professor Pardal, brincam seus filhos. Substituísse a fibra de vidro por madeira e poderia ser Gepeto, já que dá vida a tudo aquilo em que põe a mão. As alcunhas caem bem: sua história é ligada às invencionices. Há dez anos, ele está montando um girocóptero, aeronave que se assemelha a um helicóptero mas, em vez de cabine fechada, tem apenas uma cadeira.
Claudio Cardoso Affonso também transformou o quintal de sua casa, no mesmo bairro, em oficina e espaço para guardar criações. Ele conta da incredulidade das pessoas quando comenta que construiu nada mais, nada menos que um automóvel de maneira artesanal.
— Quando digo que construí um carro, ninguém entende. As pessoas ficam perguntando, nem conseguem imaginar isso — conta Affonso.
Aficionados por carros, há muitos. Mas os dois moradores de Jacarepaguá levaram sua paixão ao extremo de querer criar carros à imagem e semelhança dos seus sonhos.
Na década de 1970, o italiano Mattei, que chegou ao Brasil quando criança, se apaixonou pela fibra de vidro, material que não era muito conhecido no país. Estava decidido: ia mexer com aquilo de qualquer forma. A literatura estrangeira lhe foi muito útil. Baseando-se no que aprendia lendo, começou a fabricar bancos e pequenos objetos de decoração. A matéria-prima vinha de navio da Itália. À medida em que ia pegando prática, Mattei aumentava a complexidade de suas criações. Até que, em 1974, montou o seu primeiro carro, o Búfalo, modificando a carroceria de um Buggy. O sucesso foi tanto que ele abriu uma fábrica em Inhaúma, onde produziu outros dois modelos, o Charmant e o Gringo, que recebeu este nome em homenagem ao seu criador. Ele também fazia orelhões e lanchas. Com o surgimento dos carros populares, a fábrica de Mattei deixou de ser competitiva e ele a fechou, mas até hoje se dedica a invenções.
— É uma coisa que nasceu comigo. Fui criado no meio de oficinas. Gosto das máquinas porque elas resolvem nosso problema. Na época em que comecei a mexer com a fibra de vidro, havia um cara que fabricava Buggies. Quando os vi, senti um frisson. Não havia muita literatura sobre carros de fibra de vidro, fornecedores, nada. Fui desenvolvendo técnicas mais e mais avançadas. Assim que as dominei, montei uma fábrica — conta Mattei.
Quem chega à sua oficina não acha que o espaço seja dos mais organizados, mas o Professor Pardal da Taquara garante que sua bagunça é milimetricamente pensada. Se alguém mexer em uma ferramenta que seja, garante, ele vai saber. Um modelo de carro num canto, um banco em outro, um arco e flecha nos fundos, uma grua que levanta uma tonelada… Esse é o cenário. Uma das criações que mais consomem seu tempo atualmente é o girocópetro. Na década de 1970, esse tipo de aeronave era conhecido como cadeira voadora. O modelo, que tem motor importado da Itália e leme na parte de trás, já está quase pronto, mas, como Mattei é perfeccionista ao extremo, vive desmontando algumas partes e refazendo-as. Um processo que já dura mais de dez anos.
Ele conta que seu pai era piloto da Força Aérea Italiana. Serviu, inclusive, na Segunda Guerra Mundial, o que mostra que seu interesse por aeronaves tem raízes na família. O próprio Mattei foi piloto de helicóptero, durante 33 anos; e, como não pode comprar um aparelho só seu, decidiu que construiria um. No Brasil, para uma aeronave experimental levantar voo é necessária uma autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), dada a quem cumpre uma série de exigência, entre elas vistoria técnica e um laudo final assinado por um engenheiro aeronáutico do órgão. Apesar disso, Mattei ainda alimenta expectativas de voar.
— Se você for para os Estados Unidos, não precisa de licença para levantar voo. Lá há um festival de aviação que incentiva a criação. Aqui, não. Deveria ser assim: a pessoa que quer voar o faz por sua conta e risco. Gosto muito de trabalhar na oficina, isso me ocupa. É o meu exercício diário, inclusive cerebral. Se eu parar, morro — afirma.
Quem sai aos seus não degenera. Allan, filho do inventor, seguiu os passos do pai. Desde pequeno ajudava-o na fábrica. Mesmo depois do fim das atividades, continuou produzindo carros por encomenda. O modelo vermelho do Gringo que desfila atualmente pelas ruas de Curicica foi refeito há cerca de oito anos. Na ocasião, um cliente pediu que a dupla fizesse o conserto de um carro que havia lhe vendido e, numa colisão, sofrera danos no para-lama. O rapaz, entretanto, ficou desempregado, e não pôde pagar o conserto. Allan acabou comprando de volta o carro e desmontou-o todo, recriando-o sem deixar que perdesse a originalidade.
Trata-se de um conversível esportivo de estilo antigo. Allan optou por não colocar portas para baratear o custo de produção. As únicas peças móveis são a tampa do motor e a do capô. Tanto o motor quanto o chassi são de Fusca, e o veículo atinge a velocidade máxima de 140 km/h, embora Allan ressalte que o ideal é não ultrapassar os 80 km/h. Um detalhe chama a atenção: o nome da família Mattei está escrito bem na frente do carro, assim como em todos os outros Gringos fabricados.
Hoje, Allan monta barcos de nautimodelismo por hobby, e vende um ou outro sob encomenda, por preços a partir de mil reais. No momento, está trabalhando em um navio de guerra.
— Há um ditado que diz que, se na madrugada você olhar para um prédio e vir só um apartamento aceso, pode estar certo de que ali mora um modelista. É que nós só trabalhamos de madrugada, quando a casa fica em silêncio e podemos nos concentrar completamente nos nossos projetos. As peças são minúsculas, é preciso muita paciência. Puxei ao meu pai; nossa família é muito criativa — resume Allan.
AUTOMÓVEIS PODEM SER REGISTRADOS
Claudio Cardoso Affonso concilia o hobby ao trabalho: ele garimpa, compra e vende peças de carros antigos. Como Mattei e Allan, já comercializou os carros que produzia, mas hoje não o faz mais. Ele diz que cada um custa cerca de R$ 150 mil, e a construção leva dois anos. O preço, alega, não compensa o trabalho.
Affonso constrói os carros em sua garagem. Motor, caixa de marcha, bancos e suspensões traseira e dianteira são as únicas peças compradas ou recebidas de amigos.
Seu xodó, um Hot Rod com motor seis cilindros de Opala, levou um ano e oito meses para ficar pronto e foi concluído há sete anos. A manopla da alavanca de marcha foi feita com a maçaneta de uma porta antiga. O painel mistura moderno e retrô: tem luzes de LED. A instalação da parte elétrica e a pintura também foram feitas por Affonso. A carroceria, de fibra de vidro, foi fabricada a partir de um molde tirado de um carro semelhante adquirido há mais de 20 anos — o ponto de partida para que começasse a produzir seus próprios veículos. A ideia e a paixão o motivaram a largar o emprego em um banco e fazer sociedade com um amigo para vender carros.
— Eu tinha comprado um carro de um vendedor de São Paulo e fechado tudo às pressas, por telefone. Quando recebi a carroceria, que pensei ser de um Hot Rod, vi que ela era de má qualidade — conta Affonso, referindo-se a um modelo fabricado principalmente entre as décadas de 1920 e 1940 e muito popular no Brasil até os anos 1950. — Eu e meu sócio o desmontamos e fizemos as fôrmas. Depois, nós as preenchemos com fibra de vidro para reproduzi-las e fizemos três modelos para vender.
Para garantir que haja um padrão, todas as partes dos carros fabricados por Affonso têm moldes, a exemplo das lanternas traseiras, produzidas com com resina e polidas após enrijecidas. O gabarito é de um Ford 39. Criar o modelo possibilitou deslocar a luz de freio para o centro da lanterna, além de baratear o custo, porque, de outra forma, seria preciso comprar uma peça com essas características no exterior.
A economia é um dos principais combustíveis para as criações de Affonso. Quando criança, ele e o irmão aprenderam mecânica ao consertarem um Opala do pai:
— Os consertos eram caros, então tínhamos que aprender a fazer o máximo possível. Minha família é bem criativa. Quando tínhamos 10 anos, meu avô João sempre mostrava para mim e para o meu irmão o que criava no fundo de sua casa, em Quintino. Minha mãe era artesã. E meu pai trabalhava consertando TVs e sabia fazer qualquer ajuste em casa.
Affonso usa sua criatividade para criar máquinas velozes. A primeira foi um skate, feito com madeira e rodas de patins, quando era menino. Logo vieram os carrinhos de rolimã, que fabrica até hoje, e bicicletas. Há três anos, uma magrela perdeu os pedais e ganhou velocidade com um motor que a faz atingir até 40 km/h. O desafio da vez é aprender a técnica pinstriping, pintura com traços finos e pontos feitos à mão livre.
Os Hot Rods que produz são sempre únicos. Um novo exemplar está em construção há dois anos, e é feito nas horas livres. O design foi alterado: a frente ficou mais curta, o que demandou a compra de um motor menor, de quatro cilindros. A carroceria, ainda branca, vai ser completamente modificada. Antes, será pintada de preto para tornar visíveis as imperfeições na textura enquanto há tempo de consertá-las e deixar a superfície lisa. Nas ruas, o modelo diferentão não só chama a atenção como faz os curiosos ultrapassarem os limites:
— Só tem carro antigo quem é apaixonado por automóveis. Dá trabalho, temos gastos e não podemos parar em qualquer lugar. Pais já botaram filhos de pé em cima do meu carro para tirar fotos. Nos Estados Unidos e na Europa, as pessoas admiram carros assim com as mãos para trás, como num museu.
O veículo artesanal pode e deve ser registrado, seguindo uma série de regras e normas do Regulamento Técnico da Qualidade nº 24 (RTQ 24), do Inmetro. Só com o documento em mãos pode-se dar entrada no Detran, responsável pelo número de identificação do veículo e pelo emplacamento. No Rio, a espera é longa, e Affonso preferiu ir a Santo André (SP) para regularizar o carro:
— A burocracia é grande. Brasileiro não dá valor ao que é feito em casa, diz que é coisa de fundo de quintal. Nos Estados Unidos, o artesanal tem um preço bem mais alto.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior