Numa época em que pouco se sabia e falava sobre a importância história da Zona Portuária, o Cemitério dos Pretos Novos foi o primeiro sítio arqueológico relacionado aos escravos descoberto na região. O local, onde entre 1779 e 1830 eram enterrados os africanos mortos na chegada ou durante a viagem de navio até o Porto do Rio, ficou escondido sob casas da Gamboa até 1996. Apesar de ser um um dos grandes símbolos da memória africana no país, juntamente com o Cais do Valongo (declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco) o cemitério, rebatizado de Instituto dos Pretos Novos (IPN), está à míngua. Desde março de 2017 sem receber nenhuma ajuda da prefeitura para custeio, o local está funcionado com doações de cariocas, além de um convênio com uma faculdade particular cujo valor só cobre 30% de suas despesas mensais. Sem dinheiro para comprar até material de limpeza, este mês a direção do espaço lançou pedido de ajuda nas redes sociais. Foi criado um curso, com ajuda de voluntários, em que o pagamento será feito com sacos de lixo, desinfetante, vassouras, sabão e outros itens que vão garantir a limpeza do espaço por pelo menos um ano.
“Um ano se passou e nada mudou. Sem a renovação do convênio com a prefeitura via (Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região Portuária – Cdurp) para o custeio do IPN Museu Memorial, convênio destinado para o pagamento de Light, material de limpeza e higiênico, água, telefones, ajuda de custo para voluntários, contabilidade entre outros. Rogo aos amigos que já vêm contribuindo com doações e se puderem continuem ajudando, e os que ainda contribuem entrem no site www.pretosnovos.com.br e ajudem, pois, sem a força e o esforço de todos, novamente será enterrada a memória deste Holocausto Negro e será silenciada uma das vozes de um grande crime contra a humanidade. Querem calar a história fechando este lugar”, desabafou Merced Guimarães, diretora do IPN, nas redes sociais.
Segundo Merced, os problemas financeiros da instituição começaram em março de 2017, quando o contrato de pagamento de custeio das atividades não foi renovado pela Cdurp, órgão da prefeitura responsável pelos repasses à instituição.
Em 2016, a prefeitura havia repassado R$ 79 mil para as despesas de todo ano, além de R$ 6 mil para o pagamento dos guias do Circuito de Herança Africana. Este ano, o IPN só recebeu o valor de R$ 8 mil, para custear as despesas com o programa do circuito, que atende a instituições de ensino da rede pública.
‘Estamos há um ano nesta penúria. Fico até constrangida e envergonhada por ter que pedir dinheiro ou insumos para manter aberto um lugar de valor excepcional universal’
– MERCED GUIMARÃES
Diretora do Instituto dos Pretos Novos
— Estamos há um ano nesta penúria. Fico até constrangida e envergonhada por ter que pedir dinheiro ou insumos para manter aberto um lugar de valor excepcional universal. Depois do encerramento do convênio, fui à Secretaria de Cultura, mas eles disseram que não têm dinheiro para continuar nos ajudando. Parecem não enxergar a importância do IPN ou o racismo institucional é tão grande que querem apagar todos os vestígios da História — critica Merced, que também aponta o abandono do Cais do Valongo. — A prefeitura coloca um guarda municipal, que só trabalha até 17h, mas à noite jovens andam de skate e mendigos entram no sítio. Além disso, você circula por toda a Praça Mauá e o Boulevard Olímpico e não vê nenhuma placa indicando para se conhecer o local — completa.
De acordo com Merced, além do Museu Memorial, Galeria de Arte Contemporânea e Biblioteca, o IPN oferece uma programação educativa com oficinas gratuitas, em parceria com o Museu de Arte do Rio (MAR). E anualmente cerca de 20 mil pessoas visitam o IPN. Desde 2010, conta, já foram ministradas 378 oficinas, para 9.280 participantes.
— Recebemos algumas doações de visitantes e de pessoas que nos mandam alguma ajuda. Confesso que elas me dão alegria e também tristeza, porque estamos num momento difícil e acho que o dinheiro deve fazer falta para esses amigos. Além disso, o IPN tem 35 % do seu custeio através das turmas de pós-graduação lato sensu em História e Cultura Africana e Afro brasileira e especialização em Turismo, em parceria com a (Fundação Educacional de Duque de Caxias (Feuduc). Mas não é suficiente para pagarmos todas as despesas, que giram em torno de R$ 6 mil mensais — explica.
De 16 de maio a 8 de agosto, sempres às quarta-feiras, das 15h às 17h, será oferecido o curso “Como histórias e lendas dos orixás”, no Museus de Arte do Rio (MAR). Informações e inscrições pelo endereço: oficinas@pretosnovos.com.br
Para o antropólogo Milton Guran, coordenador do grupo de trabalho que apresentou a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade, trata-se de descaso do poder público, já que o sítio histórico do cemitério integra um complexo maior.
— O que estão fazendo com o IPN é sabotagem. O IPN é o testemunho material concreto do tratamento desumano que a sociedade escravagista brasileiro dava aos negros trazidos da áfrica. É lamentável que a sociedade civil não compreenda a importância daquele local — afirmou.
O sítio arqueológico que deu origem ao IPN foi descoberto em 1996, durante obra numa das casas de Merced Guimarães, diretora do instituto. Os operários encontraram pedaços de ossos humanos no entulho; pesquisas e testes confirmaram que ficava ali o cemitério dos africanos recém-chegados.
A prefeitura diz que ainda oferece apoio ao IPN. Já que “representantes da Cdurp integraram o movimento #Ipnresiste para contribuir com sugestões que apontem para a manutenção das atividades da casa.”Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Cultura informou que “está em andamento a criação do Museu da Escravidão e da Liberdade (nome provisório), que segue o conceito de museu território, o que beneficiaria outras iniciativas no entorno do “território” onde está instalado, por exemplo, o Instituto dos Pretos Novos e a sinalização do Cais do Valongo.”
Já a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro informou, também por meio de nota, que por quatro anos apoiou financeiramente o Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos. De acordo com a prefeitura, em quatro anos, foram repassados ao IPN R$ 355 mil por meio de convênios. “O convênio de repasses trimestrais para o IPN terminou em março de 2017. Quando a gestão do prefeito Marcelo Crivella assumiu, a administração da Cdurp constatou que havia somente R$ 1.600 dos R$ 144 milhões dos 3% do leilão dos Cepacs reservados aos projetos de valorização do patrimônio em caixa, e por essa razão, o convênio foi suspenso.”
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior