Academia Brasileira de HQs abre primeira gibiteca do Rio

As paredes de uma pequena loja de vidro dentro da Universidade Estácio de Sá, no Rio Comprido, foram decoradas há apenas duas semanas e já carregam mais de um século de história (em quadrinhos). É ali que funciona, desde o início do mês, a sede da Academia Brasileira de Histórias em Quadrinhos (AbraHQ), com direito a uma gibiteca capaz de fazer os amantes da arte perderem a noção do tempo.

Entrar na gibiteca é um mergulho no mundo dos diálogos em balões. Além do acervo com 4.500 gibis, o espaço é decorado com desenhos de personagens marcantes dos quadrinhos. O destaque vai para ícones nacionais, como o Amigo da Onça, feito por Péricles Maranhão na revista “O Cruzeiro”, e Nhô Quim, criado por Angelo Agostini, em 1869.

Há lugar ainda para estrangeiros famosos, como Gato Félix e Fantasma, que também foram desenhados por brasileiros: Gutenberg Monteiro e Walmir Amaral, respectivamente. Ágata Desmond, a fundadora da AbraHQ, quer fazer da gibiteca um oásis para fãs de HQs, além de estimular a leitura para as novas gerações.

— Embora já tenha sido considerada até uma arte perniciosa nos anos 60, as crianças aprendem a ler com histórias em quadrinhos. Quero receber o mesmo respeito que dão à Academia Brasileira de Letras — afirma a presidente da AbraHQ.

“Herdeira” de Edmundo Rodrigues, Ágata Desmond está à frente da AbraHQ, projeto do quadrinista falecido em 2012 – Agência O Globo / Leo Martins
Roteirista de histórias em quadrinhos por cinco décadas, Ágata inaugurou a AbraHQ em 30 de janeiro deste ano — data na qual se comemora o quadrinho nacional. À época, O GLOBO mostrou que a academia alugava uma loja em Botafogo, na Zona Sul da cidade, como espaço temporário para reuniões de artistas e fãs dos quadrinhos. A gibiteca na Universidade Estácio é a primeira sede fixa da AbraHQ

— É uma parceria. A AbraHQ ganha o espaço, e nossos alunos ganham uma oportunidade a mais de conhecimento e cultura, que são a essência de uma universidade. Juntou a fome com a vontade de comer — resume o professor José Luis Laranjo, coordenador do curso de Comunicação da universidade, que abraçou a causa. — Para aproveitar o Hallowen, os alunos até sugeriram uma festa temática, com fantasias de personagens de quadrinhos, na época da inauguração. Vamos fazer esse evento no fim do mês.

Embora esteja dentro da universidade, o espaço é totalmente aberto ao público. O horário de funcionamento é das 10h às 19h, de segunda a sexta-feira, mas Ágata diz se divertir tanto com as visitas à gibiteca que muitas vezes estica o horário até 21h. A partir do dia 22, a gibiteca vai passar a receber excursões de colégios duas vezes por semana. Os passos seguintes já estão desenhados na cabeça da presidente da AbraHQ.

— Queremos receber, principalmente, escolas municipais e estaduais das comunidades do Rio Comprido. A prefeitura, infelizmente, não nos ajudou, mas estamos procurando parceiros para fazer oficinas de desenho — conta.

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ARTISTAS ALTERAVAM O NOME PARA DESENHAR

A paixão pelo desenho fez Walmir Amaral até mudar de nome. Ele virou Willian Armstrong quando desenhava personagens estrangeiros, como Fantasma e Zorro, no Brasil. Segundo ele, era uma exigência dos criadores nos EUA, para disfarçar a procedência do traço.

Walmir, membro hors concours da AbraHQ, ganhou seu primeiro emprego como desenhista de HQs aos 17 anos, na Rio Gráfica, que depois foi incorporada à Editora Globo. Hoje, aos 76, lamenta que as novas tecnologias tenham tomado espaço dos quadrinhos.

— No auge, o Fantasma vendia 300 mil exemplares. Hoje, uma boa publicação não vende mais que 20 mil. O desenho no computador fica engessado, perde muito do traço. Essa gibiteca é bastante importante para resgatar a memória do quadrinho nacional — diz Walmir.

Walmir Amaral desenha o Fantasma para um funcionário da universidade – Guilherme Leporace / Agência O Globo
A gibiteca recebeu o nome de Edmundo Rodrigues, um dos quadrinistas mais célebres do Brasil, falecido em setembro de 2012. O desenhista começou a carreira na revista “O Tico-Tico”, a primeira de quadrinhos do Brasil, criada em 1905. Nos anos 50, Edmundo criou “Jerônimo, o herói do Sertão”, personagem que o colocou no centro da cena de HQs.

Na década seguinte, ele se tornaria editor de quadrinhos da hoje extinta Bloch. A ideia de criar uma Academia Brasileira de Histórias em Quadrinhos foi deixada por Edmundo em uma espécie de testamento, cuja herdeira era Ágata Desmond. A presidente da AbraHQ conta ter recebido uma carta do quadrinista meses antes do falecimento dele. A ordem era misteriosa: só abrir a correspondência após a morte do remetente.

— Na época em que escreveu, o Edmundo ainda não tinha contado para ninguém que estava com um aneurisma. Mesmo sendo uma mulher curiosa, só fui abrir a carta um ano depois do falecimento. Tinha medo do que encontraria ali, mas ele me deixou seu maior legado: lutar pelas histórias em quadrinhos.

IMORTAIS DOS QUADRINHOS

Assim como a Academia Brasileira de Letras, a AbraHQ também tem seus imortais. Em janeiro, na inauguração, 20 artistas foram escolhidos para ocupar cadeiras nomeadas em homenagem a desenhistas célebres já falecidos, como Ângelo Agostini, Edmundo Rodrigues e Gutenberg Monteiro

Mais difícil do que escolher os 20 membros foi achar um presidente. Ágata Desmond diz que artistas famosos, como Ziraldo e Mauricio de Sousa, não puderam se envolver por diversos motivos. A solução foi ela mesma assumir o cargo.

— Eu não tinha pretensão alguma, mas me aventurei. O presidente precisava ser uma espécie de abnegado para dar esse pontapé inicial — conta Ágata, que foi roteirista de HQs.

Segundo ela, o número de imortais pode aumentar caso a academia consiga mais recursos.

— Só nomeamos 20 porque era o que dava para fazer com o dinheiro. Ainda temos muitos artistas de renome para convidar — afirma Ágata, que investiu R$ 5 mil do próprio bolso para decorar a gibiteca.

Fonte: O GLobo
Foto: Agência O Globo / Leo Martins
Postado por: Raul Motta Junior