De um lado, parte da ciclovia Tim Maia desabada. Na outra ponta, o cenário é de abandono. O trecho da orla conhecido como cantão de São Conrado, na Zona Sul, próximo ao hotel Gran Meliá (antigo hotel Nacional), parece esquecido pelas autoridades. A laje que servia de travessia entre o calçadão e a areia, uma espécie de passeio, foi devastada pela ressaca há quase dois anos, segundo banhistas. O que se vê, onde antes havia bancos e um jardim, são pedras reviradas e superpostas do que um dia compôs o piso daquele espaço. Parte da rampa de acesso à praia também foi destruída pelas ondas e não foi refeita. O corrimão está completamente enferrujado, assim como as grades do calçadão. Pichações tomam conta de postes e muros.
— Apesar dos nossos apelos, a prefeitura, até hoje, não fez nada. Esse passeio era muito bonito. É um descaso muito grande com o nosso bairro — lamenta o engenheiro aposentado José Britz, presidente da Associação de Moradores e Amigos de São Conrado e morador da região há 22 anos.
Outro problema recorrente no antigo passeio é o acúmulo de lixo, vindo da Rocinha e de São Conrado em dias de chuva. De acordo com o fotógrafo Marcello Farias, um dos fundadores da associação Salvemos São Conrado, a sujeira desce junto com o esgoto pelo canal da Avenida Aquarela do Brasil, e a Unidade de Tratamento de Rio (UTR) do bairro não comporta o volume de água. A estação elevatória da Cedae não dá conta de bombear o fluxo para o emissário de Ipanema, e o esgoto, com o lixo, acaba desaguando na praia.
— No último fim de semana, o lixo era tanto que as ondas do mar estavam jogando ele em cima da laje. A Comlurb levou três dias para limpar. E, com o esgoto, a água do mar fica preta, viscosa, cheirando mal. Vários banhistas pegam doenças. É um absurdo — reclama Farias.
POLUIÇÃO PROVOCA DOENÇAS
Umas das vítimas mais recentes é o médico e surfista Rodrigo Cardoso, de 33 anos, nascido e criado no bairro. Ele ainda se recupera de uma virose contraída após surfar no mar de São Conrado, na última sexta-feira. Passou três dias de cama com febre, dor no corpo, infecção respiratória e gastroenterite.
— Era para você sair da água feliz, porque pegou uma boa onda, mas sai triste ao ver a praia imunda e completamente degradada. São Conrado tem ondas de nível internacional e, infelizmente, deixou de sediar a etapa brasileira do campeonato mundial de surfe em 2015 por causa da poluição. É uma vergonha. A Praia de São Conrado está abandonada, os governantes precisam se mobilizar para resolver esse problema — cobra.
A Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente afirmou que a rampa de acesso à praia na laje do cantão de São Conrado será refeita ainda em 2018 e seu corrimão, reparado. Informou ainda que técnicos do órgão realizaram ontem uma vistoria no local para retirar as pedras soltas e concluir o projeto de recomposição, que inclui estaquear novamente a laje para devolvê-la à população.
Sobre a UTR de São Conrado, a Fundação Rio Águas alegou que ela é própria para captação em tempo seco. Isso significa que, em dias chuvosos, a operação fica prejudicada por conta do aumento da vazão no canal da Avenida Aquarela do Brasil. O órgão também informou que a Comlurb trabalha permanentemente para recolher o lixo oriundo da Rocinha que se acumula nestes períodos, mas que a solução depende de os moradores pararem de jogar dejetos na galeria de água pluvial.
COMLURB PROMETE VISTORIA
A Comlurb, por sua vez, disse que a remoção do lixo nessa área da orla de São Conrado demorou a ser feita no fim de semana porque os funcionários que atuam no local foram mobilizados para desobstruir a Estrada do Joá, atingida pelo temporal da madrugada da última quinta-feira. Prometeu remover as pichações e fazer uma vistoria no local.
Já a Cedae afirmou que seu sistema de esgotamento não é feito para escoar águas das chuvas. A companhia diz ainda que o grande descarte de lixo no canal da Rocinha pode prejudicar o funcionamento da estação elevatória e criar barreiras no escoamento para o emissário de Ipanema.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior