Envolvido em polêmicas em torno da folia, Crivella é alvo de críticas nos sambas dos blocos de carnaval

Primeiro, veio a redução da subvenção da prefeitura para as escolas de samba e os blocos. Depois, houve a publicação de um decreto que condicionou a realização de eventos em espaços públicos da cidade à aprovação direta do gabinete do prefeito — suspenso na semana passada. Mais adiante, a administração municipal ainda anunciou a criação de um blocódromo, na Barra, com pagamento de cachê e área VIP, no estilo da folia baiana — ideia prorrogada para julho aos 45 do segundo tempo. Não é de hoje que o enredo “Marcelo Crivella e o carnaval carioca” desanda no quesito harmonia. Pois essa tensa relação acabou virando alegoria: a maior parte dos blocos com sambas próprios investiu em letras que têm o prefeito como alvo. De críticas, claro.

Nascido a partir de um movimento político, a campanha Diretas Já!, o Simpatia sempre optou por letras com homenagens a Ipanema, ao mar e ao Rio de Janeiro. Este será o primeiro ano em que terá um tema específico. Por tema, leia-se Crivella. O samba de Manu da Cuíca, Luiz Carlos Máximo, Belle Lopes e Bil-Rait Buchecha diz que vai para o sol “afastar assombração” de “quem não sabe a diferença entre a sua crença e a nossa tradição”.

— O Simpatia sempre foi bossa nova, cantou a menina da praia, a morena, o Morro Dois Irmãos. Resolvemos mudar o tema porque achamos que ele (o prefeito) não pode dar as costas para a arte popular. Ele tirou dinheiro das escolas, não patrocinou a Parada Gay nem barco de Iemanjá, não fez nada pelos blocos de rua. Achamos que era um absurdo e resolvemos sair criticando, abrindo mão de uma tradição — diz o cineasta Dodô Brandão, diretor do Simpatia É Quase Amor.

PROVOCAÇÃO NO REFRÃO

Não será a única mudança no andamento do bloco. Ao contrário dos outros anos, o samba será mais curto e quer estimular os foliões com um jogo de perguntas e respostas: “Ensaio de escola? Ele mela/ Roda de samba? Atropela/ Macumba? Não tolera/ Só gosta de bloco Nutella/ Ele não cuida nem zela/ Casa de jongo? Cancela/ Em nome de Deus? Apela/ Qual o nome do hômi?’’.

— Há uma tradição nos blocos do Rio, após a retomada (do carnaval de rua), de repetir as escolas de samba, com músicas longas. E a consequência é que as pessoas não cantam. Fizemos a brincadeira da adivinhação para ter de volta essa interatividade — explica o compositor Luiz Carlos Máximo, ressaltando a participação de duas mulheres na composição, “algo raro e importante’’.

Com desfiles nos dias 9 e 13 de fevereiro em Santa Teresa, o Carmelitas tem enredo “palavroso”: “Contra a intolerância e contra a censura, a favor da liberdade de expressão”. Pois dele nasceu o bem-humorado samba “Despachito”, trocadilho que junta um dos hits do momento e o nome popular para as oferendas de religiões de matrizes africanas.

A letra, de Luiz Fernando, Luiza Fernanda, Ricardo Dumont, Marcelo da Hermenegildo, Marcelo Carvalho e Juninho do Império, traz referências indiretas ao prefeito, bispo licenciado da Igreja Universal, ao reforçar que “Universal é o meu carnaval” e comparar o número de igrejas e padarias existentes nas ladeiras do bucólico bairro do Rio: “Mas veja só, quanta heresia. Tanta igreja e só uma padaria”. O desfile, segundo o presidente do bloco, o jornalista Alvanísio Damasceno, criticará Crivella ressaltando o contexto de conservadorismo da sociedade atual:

— A gente verificou o crescimento da intolerância na sociedade, fazendo pressão para fechar exposição, incendiando centros espíritas, agredindo adeptos do candomblé. Isso é muito preocupante. O samba não cita nome, mas faz referências.

O Imprensa Que Eu Gamo desfilou ao som de “Despacitos pra trás’’, de Caio Nolasco, Carlos Fidélis, Chico Nogueira, Djalma Júnior, Gabriel Goyanes, Guilherme Pecly, Jorge Sápia, Leo Diniz, Paulo Fraiz e Thiago Prata. Entre inúmeras críticas, a letra — “Ó, seu prefeito, por que se oculta assim?/Não deu a chave pro Momo/Será que vai dar pra mim?’’ — relembrou polêmicas do carnaval que passou, quando Crivella decidiu não ir ao Sambódromo nem participar da entrega da chave da cidade para o Rei Momo, evento que marca a abertura da folia.

O Bloco do Barbas, que desfila no dia 10 em Botafogo, escolhe seu samba amanhã. Mas o enredo já dá uma palinha do que está por vir: “Se é pecado sambar, o Barbas não pede perdão”.

Os foliões do Jardim Botânico também podem esperar irreverência do Suvaco do Cristo, no domingo. O tema, “Proibido proibir”, é definido como uma homenagem a modernistas, tropicalistas e ao povo brasileiro. Defende a letra de Tomaz Miranda e Manu da Cuíca: “Não enche meu carnaval de pastor/Eu sou devoto é de alalaô’’.

No mesmo dia, na Zona Portuária, o Escravos da Mauá quer combater o obscurantismo com a reedição do samba de 2006.

— Para bom entendedor, meia palavra basta. É claro que a gente interpreta como obscurantismo o que está acontecendo, tanto a nível nacional quanto municipal. A nossa fé é a democracia — diz Ricardo Sarmento Costa, um dos fundadores do Escravos.

O Bloco Virtual, que faz cortejo no dia 12, no Leme, se inspirou no quadro “O jardim das delícias terrenas”, de Hieronymus Bosch, de 1503, para carregar nas tintas a crítica contra o episódio que resultou no cancelamento da exposição “Queermuseu’’, no ano passado.

— A crítica não é só ao prefeito, mas a um movimento generalizado de censura — ressalta Lila Jardim, organizador do bloco que não tem samba próprio, mas que cantará músicas críticas como “Apesar de você”, de Chico Buarque, e “Filosofia”, de Noel Rosa.

PREFEITO DIZ SER TOLERANTE

Em nota, o prefeito Marcelo Crivella afirmou respeitar manifestações culturais e repudiar atos de intolerância religiosa. “Prova disso é que todos os 88 eventos religiosos realizados na cidade desde o início da vigência do Programa Rio Ainda Mais Fácil Eventos (Riamfe), em junho do ano passado, não precisaram de qualquer autorização da prefeitura. Essas celebrações contaram ainda com o apoio de órgãos municipais no bloqueio de trânsito, na limpeza de ruas e na distribuição de banheiros químicos”, afirma um trecho do comunicado.

O pesquisador Felipe Ferreira, coordenador do Centro de Referência do Carnaval da Uerj, ressalta que não há, na história recente, registro de outros prefeitos que tenham sido tão criticados por associações e grupos carnavalescos como Crivella:

— Falava-se muito da falta d’água, de enchentes e outras mazelas. É interessante pensar que, em consequência de seus atos, o prefeito acabou se tornando um personagem carnavalesco.

João Roberto Kelly, o “rei” das marchinhas, defende que o compositor de músicas carnavalescas precisa ter um fundamento popular:

— O compositor tem que ser a voz do povo.

CONFIRA A LETRA DOS SAMBAS:

SIMPATIA É QUASE AMOR

Meu deus do céu, olha quem pintou no pedaço

Um filho de múmia com cobra cascavel

Que faz a gente de palhaço

Crer eu não Cri, Vela não acendi

Vim pro sol de Ipanema afastar assombração

De quem não sabe a diferença

Entre a sua crença e a nossa tradição

O Simpatia é quase amor

E vem propor adivinhação

Ensaio de escola? Ele mela

Roda de samba? Atropela

Macumba? Não tolera

Só gosta de bloco nutella

Ele não cuida? Nem zela

Casa de jongo? Cancela

Em nome de Deus? Apela

Qual o nome do hômi?

Qual o nome do hômi?

BLOCO DAS CARMELITAS

Oh, Tupã! Combatei a intolerância!

Com a força de batuques ancestrais

Incorporei nessa folia

Santa Teresa é gira

O povo de rua

Abre os caminhos em louvor

Deus é amor, Alah é igualdade

Meu mantra a ecoar pela cidade

A bateria faz o toque singular

Pro santo que eu vou arriar

Meu “despachito” nesse bloco tão bonito

Abaixo o preconceito

Ninguém vai ganhar no grito!

Sambam Judeus e ateus

Todas as crenças

No mesmo bonde a brincar

Exaltando a arte, a liberdade

Compaixão, diversidade

Oferte a sua alegria, irmão!

Universal é o meu carnaval

Mas veja só, quanta heresia

Tanta igreja e só uma padaria

Axé, Namastê, Nam-Myoho-rengue-kyo

Pachamama, Hare Hare, meu amor

Carmelitas vai passar

Beija o terço, bota o véu

É melhor vender cerveja

Que vender lugar no céu!

SUVACO DO CRISTO

O lábio grande range e mostra o dente

A língua lambe o suor de frente

Acordes dissonantes “Cinco mil alto-falantes”

Na geleia-geral da gente

A arte sai dos pelos, dos bueiros e buracos

E a poesia, do Suvaco

Tantos anos depois a gente tem que por

na bunda …outra sunga de tricô

Deixa eu beijar meu amor seja ele quem for

Sou eu que escolho pra quem toco meu tambor

Não enche meu carnaval de pastor

Eu sou devoto é de Alalaô

Sem lenço e sem documento

Tropicalismo dá um pulo aqui

Enxota ta ta!

A caretice do patropi

IMPRENSA QUE EU GAMO

Não é assim que se faz

Seu editor, não aguento mais

Nenhum passo pra frente, mas despacito pra trás

Sujou mais um pouquinho a fraude do Garotinho

A arte é nua, é crua, tá no museu, é das ruas

Quem tem moral pra censurar?

Coleguinha, deixa a redação pra lá

Quando a gente se encontrar

Nem Gilmar vai nos soltar

Laranjeiras, meu cenário

No centro o Bola é centenário

“Tem que manter isso aí, viu?”

Curral do samba é a pauta que caiu

O Waack já foi pro brejo

O meu IPTU tá lá no céu

No Rio barata voa

Cortaram o mini estéril do Mishell

Óh! Seu prefeito, por que se oculta assim?

Não deu a chave pro momo

Será que vai dar pra mim?

Sou batuqueiro, sou da bateria

Pedi a benção ao meu pai Xangô

É janeiro, tô no mercadinho

Imprensa Que Eu Gamo, o carnaval chegou”

ESRAVOS DA MAUÁ

Quando eu fico triste

O samba insiste em me levar

Sonho que resiste

Uma prainha em alto mar

Boa companhia faz o dia clarear

Amizade é o melhor remédio

Vou no Escravos da Mauá

Amarelo e azul no tédio

Que o meu bloco vai passar

Dá vontade de entrar na dança!

Dá vontade de namorar

Que vontade de ver a lua

Fazer carnaval na rua

Vontade de abraçar e de beijar

Um verão com amor e vento

E viver cada vão momento

No Rio a esperança não cansa jamais

Na praça a alegria é a guia da paz

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior