Inauguração de novo quiosque na Lagoa provoca polêmica com proprietários antigos

O entorno do espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas virou cenário de polêmica e indefinição em relação ao futuro dos oito quiosques que funcionam no Parque dos Patins (cinco) e no Parque do Cantagalo (três). Com os contratos de operação com a prefeitura vencidos, em alguns casos, há mais de um ano, os proprietários de estabelecimentos como Joseph Bar e Palaphita Kitch vivem dias de incerteza quanto ao futuro dos negócios. O cenário de dúvidas é maior no Parque do Cantagalo, onde a prefeitura já notificou, em setembro de 2016, que os donos do Palaphita Kitch, Joseph Bar e Quiosque Baiano (ex-O Keka Baiana Tem) terão que desocupar os pontos. Pioneira na década de 1990 na operação dos quiosques da Lagoa, a empresa Fine Food’s venceu uma licitação da prefeitura em 2013 e se prepara para reassumir os pontos de venda existentes no Cantagalo. O contrato prevê ainda que a empresa será responsável por implantar seis novos quiosques.

Pelas regras do edital de concessão, os quiosques atuais do Cantagalo serão demolidos, porque o contrato prevê que a Fine Food’s terá que instalar novas estruturas padronizadas, desenhadas por técnicos da própria prefeitura. A Secretaria municipal de Fazenda não informou qual o prazo limite para os comerciantes deixarem o Cantagalo. Polêmicas à parte, o primeiro quiosque com a nova concepção será inaugurado na próxima sexta-feira na altura da Rua Vinícius de Moraes (Ipanema) em um ponto ainda não explorado na região. Batizado de Badalado Lagoon Club, servirá café da manhã, almoço e jantar. O quiosque é inspirado em uma casa que existe há sete anos na Rua Araguaia (na Freguesia, em Jacarepaguá),

‘Só saio se for retirado por um órgão público. Investi R$ 1 milhão no meu quiosque. Meu compromisso é com a prefeitura’

– JOSEPH REIS
proprietário do Joseph Bar
Mesmo com os contratos com a prefeitura vencidos há mais de um ano, os atuais proprietários dos quiosques permaneceram no local pagando aluguel ao munícípio, enquanto o novo operador não assume. A eventual permanência dos comerciantes atuais dependeria de um acordo com a Fine Food’s, que em alguns casos parece pouco provável.

— O Palaphita Kitch existe lá há 16 anos. Pago R$ 11 mil por mês de aluguel à prefeitura por uma área equivalente a dois quiosques. Todos os funcionários estão com o pagamento em dia. Não vou me adaptar a essa empresa. Prefiro ir embora — diz Mário de Andrade Netto, o Mário Maluco, proprietário da casa.

Apesar do risco de despejo, o proprietário do Joseph Bar (ex- Balkon), Joseph Reis, argumenta que a casa tem alvará, por isso acredita ter direto de permanecer no local. Ele comprou o ponto há apenas seis meses. E diz que paga em dia à prefeitura o aluguel de R$ 6 mil.

— Só saio se for retirado por um órgão público. Investi R$ 1 milhão no meu quiosque. Meu compromisso é com a prefeitura — disse.

O contrato com a Fine Food’s tem a duração de 15 anos. O proprietário da empresa, Fernando Augusto Alves, diz que já pagou cerca de 20% (R$ 620 mil) dos R$ 3,1 milhões estabelecidos pela prefeitura para explorar os pontos. Além disso, pagará R$ 70 mil por mês de aluguel.

— A proposta do nosso projeto é transformar o Parque do Cantagalo em um verdadeiro polo gastronômico. A ideia é que todos os nove quiosques estejam abertos até o fim do ano. Minha intenção é inclusive investir na recuperação do entorno em parceria com a prefeitura. Mas a realidade é que os os atuais comerciantes terão que se adaptar ao novo conceito. Ou terão que sair — disse Fernando Alves.

O novo quiosque da Lagoa será inaugurado nesta sexta-feira – Márcia Foletto em 27/01/2018 / Agência O Globo
A ideia do empresário é terceirizar os quiosques. Ou seja, em um modelo parecido com que a Orla Rio mantém nos 309 quiosques que opera nas praias entre Leme ao Pontal. Fernando não revela quanto pedirá de aluguel para os futuros ocupantes. Sobre o perfil dos outros oito pontos disse que ainda se encontra em negociações com interessados.

Proprietária do Quiosque Baiano, Jussara Amaral, tem postura diferente dos outros comerciantes do Cantagalo. Ela disse que negocia com Fernando um novo ponto na região, mas depende ainda de arrumar um outro sócio. Operando o ponto desde 2012, ela reivindica apenas ser avisada com um mês de antecedência quando terá que desocupar o espaço.

— Acho legal padronizar os quiosques, eles estão muito obsoletos. Gostaria de explorar um quiosque novo. Mas em sociedade com alguém, porque o investimento deve ser elevado — disse Jussara.

Se há conflitos com os atuais ocupantes, a relação entre a Fine Food’s e o próprio município também foi marcada por alguns desentendimentos nos últimos anos. Os modelos originais, tanto do Parque dos Patins quanto do Cantagalo, foram implantados pela empresa a partir de 1998, depois que ela ganhou uma primeira licença da prefeitura para explorar os pontos por dez anos. Em 2008, o poder público tentou realizar uma nova concorrência. A Fine Food’s discordou do município e foi à Justiça, mas perdeu o processo em que tentava manter a concessão. Em meio ao imbróglio, a prefeitura firmou contratos individuais, já vencidos, com os comerciantes. Devido às regras do contrato original, por cinco anos a Fine Food’s ainda manteve uma pequena participação nos quiosques, já que cedia as estruturas em regime de comodato para os operadores.

Em 2013, o município optou por fazer uma licitação apenas para o Cantagalo. A Fine Food’s venceu a concorrência, mas ao longo dos últimos anos, a empresa foi cobrada inúmeras vezes pela demora para implantar o serviço. Fernando Alves argumenta que, somente agora, a primeira estrutura poderá ser implantada devido à burocracia para a obtenção de uma série de licenças. Ele argumentou, inclusive, que a Fine Food’s precisou do aval do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já que o entorno da Lagoa é tombado.

Sobre a proposta da Fine Food’s de revitalizar o entorno, ainda não há um acordo firmado com a prefeitura. O superintendente regional da Zona Sul, Marcelo Maywald, diz que ainda está levantando as necessidades da área para apresentar uma proposta de “adoção” do espaço.

— Já sabemos que é preciso replantar árvores e tratar algumas espécimes existentes. O mobiliário urbano, quadras esportivas e iluminação pública também têm que ser melhorados — disse o superintendente.

Da cor branca e construídos sob deques de madeira, os nove quiosques do Catagalo serão implantados ao longo dos 102,5 mil metros quadrados entre o Parque do Cantagalo e a curva do Calombo. Eles serão instalados a cada 160 metros, com bicicletários para 12 a 15 vagas. Cada estrutura terá 260 metros quadrados, três banheiros e capacidade para 40 mesas e 180 cadeiras.

Enquanto isso, do outro lado da Lagoa, entre os proprietários dos cinco quiosques do Parque dos Patins, o clima também é de indefinição quanto ao futuro. Proprietária de um dos quiosques que leva seu sobrenome, a empresária Vivian Arab contou que os contratos desses pontos venceram em novembro do ano passado e não foram renovados. Ela contou que mesmo assim continuou a pagar o aluguel pelo espaço e desconhece os planos da prefeitura para a área. O GLOBO também indagou a Secretaria de Fazenda sobre o futuro da área e não teve resposta.

— Hoje, todos os comerciantes do Parque dos Patins permanecem por aqui a título precário. Continuo a pagar o aluguel do quiosque. Mas esse clima de incerteza é muito ruim. Não conseguimos informação da prefeitura sobre o que pretendem fazer aqui. Todos estão no escuro, sem saber o que pode acontecer no futuro — disse Vivian.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior