Intervenção no Cassino da Urca faz referência aos dias de glória do edifício

Os dias de alegria e fortuna que reuniam jogadores e artistas no Cassino da Urca serão lembrados metaforicamente no banho com cerca de uma tonelada de purpurina dourada que o artista plástico Heleno Bernardi vai dar nas paredes, no palco e no fosso da orquestra do teatro, na intervenção que será aberta sábado no Istituto Europeo di Design (IED), na Urca. De acordo com o curador Renato Rezende, a exposição “Cassino” faz referência “aos dias gloriosos, à riqueza que atraía os jogadores, ao brilho dos artistas e também à efemeridade da sorte que girava pelas roletas”.

Bernardi afirma que a mostra revive o espaço do antigo teatro do Cassino, lembrando as camadas de tempo e história que o revestem e recuperando a memória afetiva e simbólica de um período importante da cultura carioca.

— Uso a purpurina tentando extrair potência de suas propriedades assumidamente ilusórias — explica.

Rezende acrescenta que o uso da purpurina dourada como elemento plástico remete à riqueza dos tempos do jogo.

— E se refere, de maneira mais crítica, ao esfacelamento da memória, dos bens culturais e arquitetônicos — conclui.

Apesar de realizado num espaço fechado, o trabalho foi pensado pelo artista como uma intervenção urbana.

No ateliê. Heleno Bernardi: “Uso a purpurina tentando extrair potência de suas propriedades ilusórias” – Arquivo pessoal
— A história deste edifício extrapola suas fronteiras e espelha nossa relação com a própria cidade. Em um momento em que tantas coisas estão sendo demolidas e instituições são desmontadas, investir na transformação de uma ruína, buscando criar sentido a partir de seus restos, é uma forma de agir e de refletir sobre o mundo — diz.

Os quase mil quilos de purpurina utilizados no projeto terão reaproveitamento sustentável ao final da exposição. O material será retirado de paredes e piso, triturado juntamente com os resíduos sólidos da obra, e se misturará à massa do novo concreto que será utilizada na reforma que o IED promoverá a partir de 2018, e que terá selo verde.

A produção da intervenção envolveu um projeto da Tal Projects, galeria que representa Bernardi no Rio, e da consultoria de arte Brisa Art, de Maria Luz Bridger e Fernanda Sattamini. Bernardi desenvolveu um múltiplo, com tiragem limitada de 45 exemplares, cuja venda, ao longo deste ano, financiou a realização do projeto.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior