Grafiteiros dão vida a tapumes de obras na Zona Sul

Muros coloridos por grafites estão presentes no caminho do carioca desde sempre. No entanto, um novo olhar — que passa bem longe do preconceito — vem sendo dado a esta forma irreverente e colorida de expressão. Muitas vezes confundido com pichações, que são ações de vandalismo, o grafite ganhou status de arte urbana. Agora, não é difícil encontrar síndicos, empresas e proprietários de estabelecimentos comerciais convidando grafiteiros para transformarem paredes cinzas e frias em verdadeiras obras de arte. Até os feiosos tapumes de construções estão ganhando nova cara após o toque de criatividade destes profissionais.

Na Rua Visconde Silva, no Humaitá, onde está sendo erguido um edifício de seis andares, é impossível passar indiferente ao enorme tapume de 18m x 2,5m. Ali estão alguns dos principais ícones do lifestyle carioca, como o Horto Florestal, a Lagoa Rodrigo de Freitas, a ciclovia e o Cristo Redentor. A criação foi do designer e grafiteiro Marcelo Lamarca (@marcelolamarca), de 38 anos, dez deles dedicados à arte.

— A inspiração veio da arquitetura do bairro, com suas charmosas casas tombadas, da natureza e do esporte — conta Lamarca, que já emprestou seu talento para grifes como Carolina Herrera e fez trabalhos em Nova Iorque e na Suíça, onde grafitou um mural para a Organização das Nações Unidas (ONU).

Ele diz que todo o processo do painel no Humaitá, do rascunho à finalização, levou menos de uma semana. Segundo Lamarca, a parte mais gratificante foi a interação com os moradores e outras pessoas que passavam diariamente pelo local, agradecendo e elogiando o trabalho.

— Esse é o maior valor do grafite. É arte na rua para quem quiser ver. Tudo o que se quer é dar vida e cor ao dia a dia, amenizando o cinza da cidade. É permitir que o cara que está no ponto de ônibus aguardando a condução possa admirar um trabalho como esse — afirma Lamarca, que, no Rio, já deixou seus traços em muros do Leblon, de Ipanema, de Copacabana e do Catete.

O artista conta com a ajuda do irmão Diogo Lamarca (@diogolamarca) nas tintas e também nas imagens que registram o passo a passo de cada trabalho.

Marcelo Lamarca foi convidado pela construtora Mozak, especializada em imóveis de luxo, e responsável pelas obras da Visconde Silva, a grafitar os tapumes.

Segundo a analista de marketing da construtora, Maria Carolina de Almeida, o objetivo de convidar grafiteiros para colorirem os tapumes das obras vem do desejo de harmonizar o empreendimento com a localização.

— Nosso foco é o Rio, em especial, a Zona Sul. Queremos trazer para esses bairros um pouquinho da história do lugar, além de beleza para quem passa ou visita, e uma sensação de acolhimento. Temos uma obra no Jardim Botânico que homenageia natureza com elementos da fauna e da flora. Outra obra é a do antigo Cine Leblon, que carrega uma questão emocional do bairro, e muita gente lamentou o fim. Por isso, a arte faz uma referência ao cinema — explica Maria Carolina.

De fato, quem olha o tapume da construção na esquina da Avenida Ataulfo de Paiva com a Rua Carlos Góis se depara com a imagem de um rolo de filme verde azulado (ou azul esverdeado, dependendo de como se vê) em meio a máquinas de projeção em preto e branco.

A primeira obra da Mozak a ter grafite em seus tapumes foi o edifício comercial que está sendo erguido no local onde antes funcionava o Colégio Saint Patrick’s, também no Leblon. As obras começaram há um ano.

— Foi quando começamos a ver o impacto positivo que causava nas pessoas e percebemos que elas estavam de fato interagindo e se sentindo inseridas naquela paisagem — lembra Maria Carolina, que ainda não sabe ao certo o que ocorrerá com os tapumes ao fim das obras: — Temos um tempo de cerca de dois anos até o primeiro empreendimento ficar pronto. Até lá vamos analisar se faremos um processo de reciclagem ou aproveitamento para que os trabalhos possam ter uma continuidade.

Caveiras, formas geométricas, cartoons, letras estilizadas, realismo… Limite não existe para os artistas que dominam os pincéis e os jets. E, se não há barreiras para a criatividade, elas também não existem quando se trata de superar desafios em busca da parede perfeita. Mesmo que ela esteja a 40 metros de altura. Que o diga o arquiteto, urbanista e, claro, grafiteiro Miguel Fernandes, o Sereno (@mig_sereno), de 38 anos. Sua mais recente criação foi um paredão de 34m x 6m na esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com a Rua Figueiredo de Magalhães.

— Poucas pessoas tiveram oportunidade de pegar um prédio tão alto num lugar de tanto destaque. Foi uma experiência maravilhosa pintar com o privilégio de poder apreciar o Rio do alto — conta Sereno, que foi convidado pelo síndico do prédio para dar vida ao paredão.

Para Sereno, o grafite tem um papel urbanístico importante, carregando a missão de revitalizar espaços através da arte.

— Muitas vezes o grafite transforma o ambiente ao seu redor. É o síndico que melhora a iluminação para valorizar a pintura. Ou o dono de uma loja próxima que passa a zelar mais pelo local depois que o grafite ficou pronto — conta ele, que, entre outros trabalhos, pintou o tapume do Cine Leblon e está finalizando uma Frida Kahlo na esquina das ruas Francisco Sá e Raul Pompéia, também em Copacabana.

E quem pensa que só os homens dominam os grafites na cidade está enganado. As mulheres vêm ganhando espaço na street art. Como a ilustradora e artista plástica Dolores Marques (@esosdesign), de 31 anos.

— Comecei a desenhar numa folha de papel com uma lapiseira 0.5mm. Depois, passei para as telas e fui buscando espaços cada vez maiores. Vi que o céu é o limite. Com o grafite, o seu braço é um compasso e seu corpo, uma régua — conta ela, que tem como grande fonte de inspiração o Cosme, um vira-latas de dois anos, sua outra paixão.

Em 2014, o então prefeito do Rio, Eduardo Paes, promulgou uma lei que permitia a prática do grafite em locais como postes, colunas e muros (desde que estes não fossem patrimônio histórico), paredes cegas, pistas de skate e tapumes de obras. Mas proibiu os desenhos em viadutos e fachadas de imóveis públicos ou tombados onde tivesse sido aplicada tinta antipichação reparadora. Ele também instituiu 27 de março como o dia municipal do grafite. O prefeito Marcelo Crivella mantém postura semelhante à de seu antecessor.

O trabalho do grafiteiro Phellipe Dávila, o Remela (@remelattk), mostra o quanto sua arte pode ser versátil. Do alto de seus 14 anos dedicados às tintas, ele conta que já pintou nas ruas, em comunidades, restaurantes e academias. Assinou também o grafite da Famous Burguer, de José Aldo, campeão de UFC.

— O grafite é uma ferramenta decorativa. É maravilhoso que as pessoas o estejam valorizando cada vez mais — diz Remela.

De olho nas tendências quando o assunto é grafite, Remela já fez trabalhos com estêncil e apostou nas chamadas “bombs”, aquelas letras gordinhas e mais desenhadas, com efeitos e detalhes característicos do grafite.

— Hoje estou numa pegada mais cartoon, que tem agradado muito nas ruas. No Rio é assim, quanto mais colorido e alegre, melhor — diz ele, que tem grafites espalhados no Flamengo e no Catete.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: – Brenno Carvalho / Agência O Globo