A afirmação “Sem saber onde estivemos, é difícil saber para onde estamos indo” pertence ao historiador britânico Robert Hewison mas bem que poderia sintetizar a vontade dos pesquisadores Claudia Braga Gaspar e Carlos Eduardo Barata. Juntos, eles se debruçaram sobre os documentos, plantas e fotos para resgatar a história de uma das propriedades mais simbólicas do Rio. Agora, como presente à cidade em seus 450 anos, eles apresentam o livro “A Fazenda Nacional da Lagoa Rodrigo de Freitas” (Cassará Editora, R$ 70), um esforço que reconta a urbanização de parte da Zona Sul carioca. O lançamento acontece no sábado, no Solar Grandjean de Montigny, na Gávea, às 16h.
O imóvel do arquiteto francês, aliás, não foi escolhido por acaso. Ele está presente no livro, cuja pesquisa revela que a casa já existia antes da Missão Artística Francesa, em 1816. Grandjean de Montigny comprou a propriedade, então uma Casa de Vivenda do final do século XVIII, de portugueses no ano seguinte, e não em 1827, como apontava a historiografia até então.
Que todo mundo sabe que o nome do bairro vem do Barão de Ipanema, seu fundador, tudo bem. O que muita gente desconhece é que Ipanema, palavra que em tupi significa “água ruim para pesca”, vem do Rio Ipanema, que fica em Sorocaba! Isso mesmo, a cidade no estado de São Paulo. É de lá que veio o Conde de Ipanema, pai do Barão.
ILUSTRAÇÃO INÉDITA EM SEIS PÁGINAS
Além da pesquisa minuciosa, o livro também aposta na qualidade das imagens que dão forma à um acervo precioso sobre a região que hoje abrange o Jardim Botânico, Horto, Gávea, Leblon, Ipanema, Lagoa e Fonte da Saudade. Uma delas é tratada pelos autores como uma preciosidade: uma ilustração panorâmica assinada pela britância Maria Graham feita em 1821. A imagem, que pela primeira vez é publicada completa, é estendida por seis páginas centrais, chegando a 1,26 metros.
A capa do livro “A Fazenda Nacional da Lagoa Rodrigo de Freitas” – Reprodução
— Maria Graham era amiga pessoal de d. Leopoldina, primeira esposa de Pedro I, tendo sido preceptora da princesa Maria da Glória. Mulher culta, artista e a frente de seu tempo. Sua obra, integra hoje o acervo do British Museum e é um valioso instrumento para pesquisadores e interessados em conhecer o Rio de Janeiro dos anos de 1821 a 1828. O panorama é o primeiro a retratar essa área da cidade — explica Claudia.
O trabalho de pesquisa levou 20 anos e reúne acervos do Arquivo Histórico do Exército e do Serviço Geográfico do Exército, além de plantas da região desde 1809. Entre as curiosidades que a cartografia revela está a extensão da Lagoa, que banhava a atual Rua Jardim Botânico. Sua redução é documentada: em 1809, seu espelho d´água possuía 4,48 milhões de metros quadrados, marca que foi reduzida quase à metade com a urbanização ao redor. O livro ainda mostra como esse processo de criação da cidade do Rio mudou a forma de viver dos primeiros moradores da Lagoa.
— Pelo fato de ter sido a fazenda desapropriada pela Fazenda Nacional para a edificação de uma fábrica, foram feitos levantamentos cartográficos e históricos da área e, graças a isso, hoje temos essa evolução documentada. Não se perdeu como tantas outras. O passado pôde ser resgatado e contado, contribuindo para um conhecimento sólido sobre a história dessa parte de nossa cidade — diz a autora.
SERVIÇO
O Solar Grandjean de Montigny fica na Rua Marquês de São Vicente 225, Gávea, dentro do campus da PUC-Rio. O lançamento acontece no sábado, dia 3 de outubro, a partir das 16h. O evento é gratuito. O livro custa R$ 70.
Fonte: O Globo
Foto: Divulgação/Cassará Editora/ Acervo da FBN
Postado por: Raul Motta Junior