Há pouco mais de uma semana, enquanto a cidade acompanhava, apavorada, a ocupação da Rocinha pelas tropas militares, as redes sociais foram à loucura com uma foto. O flagrante era de um grupo de quatro moradores da comunidade, todos homens de meia-idade, sentados em uma mesa de bar com duas cervejas geladas e uma porção de batatas fritas. Um deles, com sorriso no canto da boca, ergue um copo descartável, transbordando de cerveja, no mesmo momento em que dois militares, com expressão séria e armados com fuzis, atravessam a via em frente. Um lado da foto parece estar marchando em direção a uma guerra; o outro, brindando à chegada do fim de semana. “Eu lidando com meus problemas”, divertia-se uma internauta, brincando de legendar a foto. Outro gaiato exaltava: “O Rio é o meu país”.
A imagem que correu a internet pode ser mais que um registro curioso. Aquela mesa de bar, que reúne um momento de alegria e outro de tensão, acontecendo simultaneamente, é a síntese do espírito do carioca, conhecido até internacionalmente, que resiste às piores provas. A vida levada com despretensão, a malandragem e, claro, o amor incondicional pelo boteco não se deixaram vencer nem mesmo pela recente escalada de violência.
Em busca de explicações para o irreverente comportamento carioca, O GLOBO ouviu historiadores, antropólogos, escritores, ilustres e anônimos que conhecem bem a cidade e seus moradores. A ideia era tentar descobrir, até que ponto, os últimos acontecimentos e a turbulência das ruas estão sendo digeridos e interferindo neste traço tão nosso. A origem dessa característica, além de histórica, tem implicações etnográficas. Bem antes de se expandir, quando ainda tinha cerca de 50 mil habitantes, o Rio recepcionou a corte portuguesa, que, de cara, nos deixou uma herança capaz de nos dar uma graça especial: o chiado marcante do “s” que nos distingue até hoje é resquício do sotaque lisboeta dos nobres vindos com a Família Real. O professor João Baptista Ferreira de Mello, do Instituto de Geografia da Uerj e coordenador do projeto “Roteiros Geográficos do Rio”, observa que, durante o período colonial, a cidade tinha muito mais negros escravizados do que portugueses.
— Você vê isso na obra do (pintor) Debret. Ele só pintava negros porque era só o que via na rua. Qualquer tipo de trabalho era feito pelo braço escravo, até porque o nobre não podia trabalhar, sob pena de perder o título de nobreza — explica.
E foram justamente os negros que deram grande contribuição para o caldeirão cultural que, por sua vez, forjou nossos estereótipos. Depois da proibição do tráfico, parte deles foi vendida para o Vale do Paraíba e deixou o Rio. Mas, com a abolição da escravatura, quase todos voltaram e esta presença maciça do africano nos moldou, em parte, à semelhança deles. Dos negros, herdamos a musicalidade, a alegria e a descontração, ressalta o professor João Baptista.
A EVOLUÇÃO DO COMPORTAMENTO CARIOCA
— O negro colabora com a alegria, a espontaneidade e a música. É o combustível para essa frequência nas ruas — afirma o professor.
Uma influência intensa da qual não escapou sequer o entrudo português, precursor do carnaval. No Brasil colonial, a data era marcada por uma festa sem música, em que se atiravam água uns aos outros e urina e fezes em escravos e nos mais pobres. Até nas procissões, os negros deixaram sua marca. Eram mais de cinco por mês, em que nobres e políticos iam na frente, com gestos contidos. No fim da multidão, seguiam negros, ao lado de pessoas da base da pirâmide social, estes sim, esbaldando a alegria e a descontração que os brancos poupavam.
Carnaval desenha o humor da cidade
O carnaval sacudiu os ânimos da cidade, em 1870, com a figura do “Zé Pereira”: o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes que reunia amigos e tocava bumbo no Centro do Rio, principalmente na Rua do Ouvidor. Na época, aquele era um endereço chique. A Ouvidor reunia as confeitarias da moda e foi a primeira a receber iluminação, inicialmente a azeite e depois a gás. No fim do século XIX, foi se tornando também o coração da folia. Agregou à festa todo o leque da sociedade, não só as elites, como era antes. Mas havia outro carnaval, em que os ricos não marcavam presença. Era a festa dos batuques na Praça Onze. Foi lá que nasceu o samba e onde hoje fica Sambódromo, inaugurado em 1984.
Com o tempo, a festa cresce com os blocos de rua, principalmente os do subúrbio, onde a população mais pobre, que era “apartada” dos corsos, desfiles mais chiques, dava um jeito de brincar o carnaval como podia. “Olha o bloco do sujo/Que não tem fantasia/Mas que traz alegria/Para o povo sambar/ Olha o bloco do sujo/De alegria barata”, diz a letra da marchinha “Bloco do sujo”, que retrata a época. É mais um sinal do improviso carioca, que foi ganhando corpo e passou a se fazer presente em outros tantos episódios da história. O geógrafo João Baptista Ferreira de Mello lembra de um deles: a reforma sanitária de Pereira Passos e de Oswaldo Cruz, que, de desastre, virou fonte de renda:
— O Rio é muito é criativo. Na aurora do século XX, o sanitarista Oswaldo Cruz foi chamado para vacinar a população e combater as epidemias. As autoridades passaram a comprar ratos de moradores para estimular que eles caçassem os bichos e, assim, manter a cidade livre dos roedores. Muitas pessoas passaram a criar ratos para ganhar dinheiro — diverte-se o professor, ao citar a lembrança.
Leila Diniz na Banda de Ipanema: para pesquisadora, irreverência da musa simbolizava o espírito da cidade – Reprodução
Por outro lado, observa o professor de história e colunista do GLOBO, Luiz Antônio Simas, a alegria e o ritmo da cidade sempre esconderam tensões sociais. O próprio termo Cidade Maravilhosa, cunhado na época das reformas de Pereira Passos, é parcial, pois se referia a um Rio que estava sendo forjado para as classes mais altas:
— Você tem a construção de um imaginário da “Cidade Maravilhosa”, de um Rio que adota esse modelo civilizatório europeu, extremamente parcial.
Um exemplo dessa lógica é a própria praia. Anos antes de se tornar um ponto de encontro para cariocas de todas as classes sociais, o que só aconteceu mesmo com o surgimento de linhas de ônibus cruzando o Túnel Rebouças, já nos anos 70, e de plataforma de modismos, a praia era um lugar para o qual a elite torcia o nariz até os anos 1930. O bronzeado de sol era mau visto, já que a pele negra e mulata era desvalorizada nas altas rodas. Hoje, apesar de mais democrática, a praia se divide a partir de uma geografia social: cada classe e cada tribo tem seu espaço na orla, como mostra o documentário “Faixa de Areia”, dirigido por Flávia Lins e Silva e Daniela Kallman.
Samba era criminalizado
Também nos anos 30, outro fenômeno dá amplitude ao legado africano. Os brancos, finalmente, descobrem o samba, que no início do século era criminalizado. No começo dos anos 1960, a classe média passou a subir para as rodas no alto dos morros. O compositor e jornalista Ronaldo Bôscoli, ícone da Bossa Nova, “denunciou”, em uma reportagem, “a invasão dos grã-finos” que iam à Mangueira sambar com “copos de leite condensado, com cachaça na mão”. A passagem é citada no livro “Cidade Partida”, de Zuenir Ventura.
Para a professora Lúcia Lippi, do Centro de Pesquisa e Documentação (CPDOC) da FGV, foi nos anos 1960 que o Rio viveu sua consagração como “Cidade Maravilhosa”. Aquele, no entanto, era um momento de integração do Rio, que vivia momentos de rejeição e de aproximação com sua própria herança cultural miscigenada:
— Esses traços (de miscigenação cultural) são olhados em alguns momentos com profundo menosprezo e, em outros momentos, como algo bom.
A coisa foi acontecendo aos poucos. Na década de 1950, os Anos Dourados, avalia a pesquisadora, foram um período de grande difusão dos hábitos cariocas, que passaram a ser conhecidos em todo país e até invejados, graças ao rádio e depois à TV. Um movimento que se consolidou dez anos depois.
— Nos anos 50, surge a figura dos Anos Dourados, do Rio “maravilhoso”. Copacabana está bombando. E o Zé Carioca (personagem criado pela Disney, em 1940) representa todo o Brasil — conta.
O tempo passa, e novos acontecimentos engrossam o caldo cultural. A antropóloga Míriam Goldemberg cita o que chama do tempo “Toda mulher é meio Leila Diniz”. Para ela, os anos 60 e 70 foram impregnados pelo espírito de alegria do Rio, que encontraram na personalidade da musa sua melhor síntese:
— O Rio era a vanguarda de comportamento do Brasil. Era Bossa Nova, era Cinema Novo. Mesmo com a ditadura, havia aqui uma resistência. Muita gente falava que não dava para ter uma Leila Diniz em outro lugar do Brasil. O Rio era um lugar da alegria, da felicidade, da libertação.
O boteco também é uma “instituição” que se formou com o passar do tempo. No Brasil colônia, eram as farmácias que vendiam álcool. Mas a ideia de beber junto com os amigos num estabelecimento que transbordasse irreverência ganhou corações e mentes. Para o jornalista José Octavio Sebadelhe, autor, junto com o Pedro Paulo Thiago de Mello, do livro “Memória afetiva do botequim carioca”, respirava-se política:
— O botequim sempre teve um lado político-social — afirma. — Ele passa por um traço da civilização carioca, que é a arte do encontro. Quando saiu da prisão de 40 dias (durante o regime militar), o pessoal do Pasquim, em vez de ir direto para casa, foi para o Antonio’s (o botequim, que ficava no Leblon).
Outro patrimônio do imaginário sobre o Rio é a noitada. Léo Feijó, empresário e autor com Marcus Wagner do livro “Rio: cultura da noite”, conta que a vida social só começou a se desenvolver com a chegada da corte portuguesa e o surgimento dos primeiros bailes em salões de palácios. Logo vieram os teatros, os dancing rooms, as gafieiras e as discotecas, que revolucionaram a noite, com os jovens passando a ser seu público principal. Nos subúrbios, surgiram os bailes de soul e funk. Hoje, segundo ele, a tendência entre os produtores é ser dono da festa, e não da sede dela, que pode ser móvel.
— O carioca tem esse desejo de sair. Gosta do convívio, de encontrar gente, de ver novidade. É muito ágil para tendências — analisa Feijó.
O autor e empresário ressalta, entretanto, que esse hábito está passando por adaptações por causa do aumento da violência:
— Infelizmente, as pessoas estão circulando menos do que circulavam anos atrás. Desde o ano passado, optaram por se concentrar em polos culturais que já têm um movimento.
Assustada, mulher encosta na parede enquanto tropas das Forças Armadas fazem operação na Rocinha – Leo Correa / AP
Alguns especialistas e muitos cariocas constatam que o espírito da cidade, escolhida pela Forbes em 2009 como a “mais feliz do mundo”, não é mais o mesmo. Notícias da guerra e da crise fizeram com que a antropóloga Míriam Goldemberg, por exemplo, se surpreendesse com o número de pessoas que declaram o desejo de deixar a cidade. Para ela, o humor do carioca é cíclico: se estava no auge nos “Anos Dourados”, hoje vive um dos seus momentos mais tristes:
— Não me lembro de ter visto tanta tristeza, medo, impotência. Gosto muito de um termo do Gilberto Freire, que define o brasileiro como um “equilíbrio de contradições”. Você vê coisas muito contraditórias que não se equilibrariam em outros lugares. Aqui você tem crise, violência, Uerj sem dinheiro e uma explosão de felicidade momentânea com o Rock in Rio.
Pessimismo e otimismo se alternam. O início dos anos 2000, com escândalos políticos e o aumento da violência, teve ares mais depressivos. Em 2010, entretanto, a cidade foi tomada pelo entusiasmo, ao ser escolhida para sediar a Olimpíada e a Copa do Mundo. Ao mesmo tempo, na área da segurança, surgia uma iniciativa que devolveu esperança de tempos melhores: as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Desde 2013, segundo Míriam, o desânimo começou a dar seus sinais. Ela se surpreendeu com o resultado de entrevistas que fez com cariocas durante uma pesquisa em 2016. Com o recrudescimento da criminalidade, mais gente dizia preferir ir ao shopping do que à praia. A violência foi citada como o problema que o carioca menos gosta na cidade, com 29% das respostas dos entrevistados, na frente do trânsito (28%).
— Desde 2013, a tensão se agravou. Teve um momento de euforia no Rio, em que se andava mais tranquilo à noite. Que havia pré-sal, Eike Batista. Tudo foi se desfazendo. E aí ficou só o lado negativo que nunca deixou de existir — analisa.
Especialista em psicologia social pela Uerj, o professor Rafael Wolter afirma que o Brasil tem uma identidade nacional muito forte, mas, ao mesmo tempo, instável, facilmente abalada em períodos de crise. Ele explica que a teoria prevê três reações possíveis quando um povo tem sua identidade social ameaçada: reforçar a identidade (se declarar para o Rio, por exemplo), a passividade (ficar apático em relação a tudo) ou a mobilidade (negar seu pertencimento à identidade, como as pessoas que dizem que “não se sentem mais cariocas”).
O cantor Zeca Pagodinho, apontado como a personalidade que melhor encarna o carioca feliz, em pesquisa encomendada pelo GLOBO em 2013, também não passou incólume ao revés atual. Na última sexta-feira, enquanto bebia uma “gelada” na “Barrada do Lelê, na Barra, o sambista desabafou:
— Não sei por que está havendo tanta guerra no Rio. O carioca está devagar. Ele tem que se movimentar e clamar pelos seus direitos. Temos que tirar essas crianças das ruas e botar na escola.
Em 2016, a Olimpíada foi um momento de euforia em meio à crise: cariocas deixaram a tristeza de lado para mostrar que a cidade sabe fazer festa e receber muito bem seus convidados. Além das arenas esportivas, a Orla Conde, espaço revitalizado à beira da Baía de Guanabara, também atraiu multidões em clima de paz e alegria.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior