Dois cafés e a conta com Alexander Albuquerque

Todo dia, o analista de sistemas Alexander Albuquerque sai de sua casa, na Tijuca, para a sede de seu banco. Só que a matriz da empresa não fica numa área nobre da cidade e sim na Maré, um complexo de 16 favelas à beira da Avenida Brasil. É ali, num dos três andares de um prédio onde funcionou uma antiga creche, que ele fundou, no dia 1º de agosto de 2016, uma iniciativa pioneira, o Banco Maré. É um banco virtual, com uma moeda igualmente virtual, a palafita.

A iniciativa resolve problemas de moradores sem conta bancária, que precisam sair da comunidade para fazer pagamentos e transferências. Agora, basta usar o smartphone. Primeiro o cliente baixa o aplicativo gratuito do banco em seu aparelho. Depois, vai a um dos postos espalhados pela Maré e converte reais em palafitas (cada real vale uma palafita) — que nem uma recarga de celular. Em seguida, acessa o aplicativo e realiza suas operações bancárias.

Já há quatro pontos, ou “agências”, no Complexo. Em breve serão abertos outros dois. O banco tem cinco mil usuários no Complexo, e a meta é chegar a 40 mil, de várias partes do país, em seis meses. São feitos em torno de 200 pagamentos por dia — número que sobe para 900 em época de pagamento de salário.

Alexander, de 37 anos, tem como sócios o economista francês Benjamin Drouin, o advogado Vitor Kneipp, o empresário de TI Ronaldo de Albuquerque e o economista americano Manoel Rena (no início participou também David Oliveira). Alexander conseguiu ainda apoios respeitáveis, como os de Maer Salal, engenheiro de segurança do Twitter, e Lídio Ramalho, da Samba Tech, que viabilizaram a estrutura da plataforma, Gabriel Reis, ex-Banco do Brasil, que desenvolveu a parte de design e infraestrutura do Maré, e o Nós 8, coletivo de advogados que cuida da parte jurídica.

Como surgiu o Banco Maré?

Fui a Maré em janeiro de 2016 disposto a montar um curso profissionalizante e ensinar jovens de 14 a 17 anos a programar. Pretendia fazer uma parceria com o programa Dupla Escola do governo estadual. Para minha surpresa, descobri que não havia nenhuma escola de ensino médio no local. Mas um dos líderes comunitários me disse: “Aqui não tem onde pagar contas, você poderia nos ajudar?” É uma região com 200 mil pessoas sem nenhuma agência bancária ou lotérica. E só um caixa automático. Eles têm que ir a bairros vizinhos como Bonsucesso, Olaria e Benfica para fazer as operações bancárias. Isso traz problemas. Um deles de segurança, já que há o risco de ser assaltado. Outro é o atraso no pagamento. Uma senhora explicou que esperava chegar três contas para só então ir pagar, já que não podia gastar com o transporte. Veio aí a ideia do Banco Maré, que é 100% seguro. Temos um sistema onde acompanhamos todas as transações e vemos que são efetivadas. Nossa moeda digital tem esse nome por sugestão de um morador, já que todas as casas aqui começaram em cima de palafitas.

Qual a importância da iniciativa?

Há no Brasil 55 milhões de pessoas desbancarizadas, que movimentam R$ 665 bilhões por ano. O Banco Maré permite que elas tenham acesso a serviços bancários. E sem análises de crédito, consultas a cadastro de devedores e outras formas de exclusão financeira. Nosso foco é o pagamento de contas, mas o usuário pode fazer compras no mercado local e transferências. Tem gente que precisa enviar dinheiro para a mãe que mora no Nordeste. Tem morador que fica desesperado porque precisa pagar naquele dia a pensão do filho que mora com a ex-mulher em outro estado. Agora, podem fazer tudo de casa, a hora que quiser, com o celular. O número de pessoas que pagam as contas com multa diminuiu. Em breve será possível pagar o bilhete único com o aplicativo.

Que outras novidades vêm aí?

Percebemos que muitos moradores desejam um cartão de crédito. Querem se sentir incluídos financeiramente, fazer compras no shopping, sacar no caixa eletrônico. Então, vamos lançar no fim do mês o cartão pré-pago do Banco Maré, com bandeira Mastercard, em parceria com as empresas Edenred e Minutrade. O cartão vai servir também para que eles possam sacar o bolsa família sem ter que sair do Complexo, como acontece hoje. Fizemos uma parceria com a Caixa e a partir do fim do mês será possível tirar o benefício num dos pontos do banco na Maré, passando o valor para o cartão. Outra novidade, que será lançada até novembro em parceria com a Serasa Experian, é uma função de educação financeira, que vai ajudar o usuário a controlar seus gastos. A pessoa informará, por exemplo, que tem que pagar tais contas no mês e que seu faturamento é x. O aplicativo vai falar: “Se você não pagar o cartão de crédito, a taxa de juros é de tanto.” Notamos ainda que vários moradores querem o atendimento físico. Gostam de ir aos nossos postos, interagir com a gente. Pois o Fabito Rycther, da Nica Comunicação, está desenvolvendo para nós um projeto em que o usuário do banco, com óculos de realidade virtual, poderá conversar de qualquer lugar com nossos atendentes, como se estivesse dentro das agências. O piloto será lançado na Maré em outubro. Todos os nossos oito funcionários são da Maré. E já botamos quatro na universidade.

Quais os próximos passos?

Em novembro, chegaremos a duas favelas de fora do Rio: Heliópolis, em São Paulo, e Estrutural, em Brasília. Também este ano vamos abrir na Maré uma escola técnica de programação, em parceria com Pedro Souza e Paulo Brizola. Há ainda um projeto de criarmos no Complexo um polo de tecnologia, o Silício da Maré, com coworkings e um fundo de investimento que apoie startups locais. Os moradores vão desenvolver soluções para problemas de dentro e de fora da comunidade. A Maré pode se tornar referência. Em abril, nosso sócio Manoel Rena foi à China falar sobre o banco. E fomos visitados por um representante da empresa inglesa Humaniq, que quer fazer algo parecido na África. Favela também é exportadora de inovação. É uma tecnologia de ponta que está sendo desenvolvida na Maré e distribuída para todos.

Fonte: O Globo/Mario Ventura
Postado por: Raul Motta Junior