O aroma do frango à passarinho, caprichado na cebolinha, na salsa e no alho frito, que saía de um bar do alto de um morro da Zona Sul não se espalha mais pela comunidade. O vaivém de estrangeiros guiados pelo sucesso do petisco bem temperado também cessou. Desde o início do ano, o estabelecimento, inaugurado no embalo da chegada de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), está fechado. Seu proprietário, um nordestino com um sorriso que iluminava o rosto, deixou tudo para trás após bandidos lhe darem um ultimato: tinha que sair da favela. Disseram que ele era “X-9”, informante da polícia: “Fizeram isso só porque PMs também gostavam de comer lá, no cantinho dele”, conta uma amiga do ex-comerciante, que nunca mais voltou.
A história dele não é um caso isolado. Muitos moradores de favelas que acreditaram nas UPPs hoje temem pelo seu futuro. A promessa do secretário estadual de Segurança, Roberto Sá, de manter o projeto mesmo com a retirada de três mil PMs (anunciada no mês passado) não foi suficiente para tranquilizá-los. Alguns, assim como o ex-comerciante, já receberam recados de traficantes para deixar suas casas. Foi o caso de um homem de 50 anos nascido e criado numa comunidade da Zona Norte. Bastou ser visto conversando com um policial para ter seu destino selado.
— Era quase meia-noite quando apareceram na minha casa. Nem consegui abrir direito a porta, vieram com tudo para cima de mim. Levei uma coronhada. Mesmo tonto, vi um monte de traficantes com pistolas e fuzis na minha sala. Não contei, mas deviam ser uns 20. Eles gritavam, me acusavam de ser informante. Isso aconteceu porque um vizinho me viu conversando com um PM. Como sei cuidar de animais, ele me pediu dicas de banho e tosa, nada de mais. Foi o bastante para me mandarem deixar o morro. Achei que ia morrer, fiquei apavorado — lembra o homem, que descreve a cena com a voz embargada e os olhos marejados.
“PERDI MINHA CASA”
Para sorte do tratador de animais, pouco antes do amanhecer teve início uma operação da PM na comunidade. Num primeiro momento, ele pensou que a incursão policial daria aos bandidos a certeza de que ele era um informante. No entanto, mais calmo, percebeu que era a oportunidade de sair ileso da favela.
— Fui embora só com a roupa do corpo. Depois, pedi a um conhecido para buscar meus documentos e alguns outros pertences, mas, quando ele chegou lá, estava tudo queimado. Perdi minha casa. Aliás, duas. Minha mãe tinha me deixado uma outra, na Praia de Ramos, que estava alugada. Pedi aos inquilinos para saírem, e, quando comecei a me instalar, foi a vez de a milícia me expulsar. Souberam que eu tinha saído de uma favela com tráfico. Mais uma vez, acharam que eu era um leva e traz. Fiquei morando na rua por um tempo. Até hoje tenho pesadelos. Perdi tudo, até minha mulher, mas não perdi a dignidade — conta.
Atualmente, o tratador de animais aluga um quarto por R$ 350. Perdeu clientes, já que a maioria vive nas áreas das quais foi expulso, e agora vive dos trocados que arrecada com a venda de papelão e latinhas. Enquanto lamenta “o que estão fazendo com as UPPs”, luta para se reerguer: já tirou documentos novos e todos os dias bate à porta de petshops em busca de um emprego.
Entre as pessoas que participam dos 129 projetos sociais das 38 UPPs do estado (37 na capital e uma em Duque de Caxias), o clima é de preocupação. A Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) informa que as aulas estão sendo frequentadas por 8.716 crianças, adolescentes, adultos e idosos, mas não revela se houve redução de alunos por conta da volta dos tiroteios em algumas comunidades. A primeira a receber uma unidade da PM foi o Morro Dona Marta, em Botafogo, em dezembro de 2008. Indícios de desgaste do programa surgiram em julho de 2013 com a morte do pedreiro Amarildo de Souza, que desapareceu depois de ser levado para a UPP da Rocinha. De lá para cá, com os investimentos feitos durante a Copa do Mundo e a Olimpíada, o projeto se manteve com altos e baixos até mergulhar na crise financeira do Rio. Traficantes voltaram a ser vistos armados nas favelas, desta vez, com maior poderio bélico.
A CPP afirma que alguns projetos sociais acabam porque os PMs responsáveis são transferidos, mas há cursos cuja frequência caiu por causa de ameaças do tráfico. A quantidade de alunos das aulas de artes marciais numa UPP da região da Grande Tijuca teria diminuído mais de 50% devido a pressões de bandidos. Numa escolinha de futebol de uma outra UPP da Zona Norte, o aluno mais velho, de 15 anos, levou uma surra de integrantes de uma quadrilha: os criminosos não queriam ver “a molecada batendo bola com a polícia”, segundo um morador. Muito machucado, o adolescente precisou ser levado para uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA).
— Depois que o garoto levou a surra, ninguém mais frequentou as aulas. Todos os pais ficaram com medo de ver os filhos passarem pelo mesmo castigo. A família do menino saiu daqui sem olhar para trás, foi para o Nordeste — contou um morador da favela.
Lideranças comunitárias de algumas das 264 localidades atendidas pelas UPPs não escondem a preocupação com o futuro do programa. Para Marcus Vinícius, presidente da Associação de Moradores do Morro da Casa Branca, na Tijuca, um eventual encerramento do projeto seria uma perda para todo o Rio:
— Claro que há o temor de moradores serem expulsos. Aqui é uma das poucas comunidades onde as escolas não fecharam, pois não tivemos problemas com tiroteios. Aqui, o morador dá “bom dia” para o policial. Não há truculência. É claro que são necessários ajustes em algumas UPPs, mas o projeto tem grandes méritos, diminuiu a violência em várias regiões.
No Vidigal, o presidente da associação do morro, Sebastião Aleluia, também apoia o programa, porém vê a necessidade de mudanças:
— Não temos dúvidas de que as UPPs representam um avanço, mas precisamos ver ajustes. Ainda há muito abuso de autoridade. Existe uma preocupação com o futuro do projeto, que melhorou nossa qualidade de vida. Temos americanos, franceses e outros estrangeiros vivendo aqui. Mas o morador não se envolve com os policiais, é uma questão de sobrevivência.
Em 2012, quando as UPPs estavam no auge, o governo do estado chegou a usar moradores de áreas pacificadas como protagonistas de propagandas de TV. Atualmente, alguns desses personagens preferem ser esquecidos.
— Fazer a propaganda mexe com o meu lado psicológico até hoje. Sinto muita dor por ter apostado todas as fichas nas UPPs. Para mim, era uma nova ideologia. Peguei uma época em que as crianças rendiam na escola porque dormiam bem a noite toda e acordavam bem dispostas para estudar. Não tinha violência. Mas, por causa de políticos corruptos, o projeto se perdeu. Não dá para se conformar com isso — critica uma professora que participou da campanha publicitária e, agora, deixou a escola no morro.
Não é de agora que o apoio às UPPs torna os moradores mais vulneráveis. Um dos primeiros casos de retaliação por parte do tráfico ocorreu em 2012, quando o comerciante Flávio Duarte foi morto com cinco tiros em um acesso ao Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Ele dava lanches a policiais militares.
— Flávio acreditava na proposta de mudança. Sabia como era o Morro dos Macacos antes da chegada da UPP. Um dia, ele me disse que ver crianças brincando fora de casa, sem medo de tiroteios, foi o melhor presente que recebeu na vida — conta a presidente do Instituto Mudando o Final, Ludmila Neder da Rocha, que criou, em 2015, a Medalha Flávio Duarte, para homenagear policiais e pessoas que se destacam em ações transformadoras nas favelas.
Pesquisador do Núcleo de Estudos em Conflito e Sociedade (NECSo) da UFF, Daniel Ganem Misse afirma que a possibilidade de os moradores de comunidades com UPPs sofrerem retaliação por parte do tráfico existe:
— O risco é maior nas áreas das UPPs mais antigas, onde houve grande apoio ao projeto. A proposta da Secretaria de Segurança de vincular as UPPs aos batalhões não é boa, acaba com a proposta original, de policiamento comunitário, e pode levar a um aumento das mortes em decorrência de intervenções policiais. Refiro-me a um número que mais que dobrou em três anos, saindo de 416 em 2013 e chegou a 925 em 2016.
“COMPROMISSO COM O PROGRAMA”
Jacqueline Muniz, professora do Departamento de Segurança Pública da UFF, também manifesta receio:
— O morador que se aproxima muito do PM corre risco de vida. Mesmo assim, por mais que o projeto dê errado, quem vive em comunidade quer segurança, uma polícia cidadã.
Em nota, a Secretaria de Segurança informou ter como diretrizes “a preservação da vida e o controle da criminalidade e, por isso, reafirma seu compromisso com o Programa de Polícia Pacificadora”. O órgão ressaltou que o estudo da PM diagnosticou a necessidade de “uma maior aproximação das UPPs com os batalhões”; com isso, será possível mobilizar três mil homens “para reforçar o policiamento ostensivo na Região Metropolitana ”. Ainda de acordo com a nota, na sexta-feira, o secretário Roberto Sá e o comandante-geral da PM, coronel Wolney Dias, se reuniram com 11 líderes comunitários para reafirmar o compromisso com a continuidade e melhoria das UPPs, sem mudanças em projetos sociais.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior