Disque-Denúncia, nascido em onda de sequestros, passa por crise e se reinventa

15 de janeiro de 1995, às 10h15m. Dois carros emparelham com um Mercedez- Benz na Avenida Venceslau Braz, na altura do Hospital Pinel, em Botafogo. O trânsito para, e oito homens vestindo terno e armados com metralhadoras AR-15 rendem o empreiteiro João Antônio de Queiroz Galvão. Era o início de mais uma onda de sequestros no Rio que teve, no mesmo ano, entre suas vítimas, o jovem Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, filho do presidente da Federação da Indústria do Rio de Janeiro.

Foi neste momento que o Disque-Denúncia, que completa nesta terça-feira 22 anos e que deu voz à população para denunciar a violência das quadrilhas que aterrorizam o estado, foi criado. De lá para cá, foram mais de 2,3 milhões de informações. Além de dados, muitas vezes precisos sobre a atuação de bandidos, as informações, acumuladas ao longo dos anos, ajudam a compreender as mudanças no perfil criminal do estado, que hoje enfrenta dois grandes problemas: os roubos de cargas e os arrastões a motoristas e pedestres, dois crimes que têm por trás traficantes armados com fuzis, interessados em diversificar seus negócios.

Enquanto tropas do Exército estão desde sexta-feira no Arco Metropolitano fazendo levantamento de dados para combater a escalada de roubos de cargas, segundo informou o Comando Miliar do Leste, o Disque-Denúncia também abastece o serviço de inteligência das tropas com informações minuciosas sobre a atuação da quadrilhas.

“Os bandidos da Pedreira usam o bairro de Guandu, em Japeri, como base para atacar caminhões nos 71 km de extensão do Arco Metropolitano, que liga Itaguaí a Duque de Caxias, e em trechos da Dutra e da Washington Luís. Os roubos costumam ocorrer sempre no mesmo horário, por volta das 9h”, avisa um dos denunciantes.

Em outro informe, um morador dá detalhes sobre o comando das ações, inclusive informando qual o nome do bandido que seria o braço financeiro do tráfico. A denúncia diz que ele pretende transformar Japeri numa filial da facção criminosa que já controla o Complexo da Pedreira, na Zona Norte,. O traficante, continua o denunciante, “já atuava no Guandu, mas em 2015 foi expulso de lá pelo chefe do tráfico. Em 2016, com apoio da Pedreira, retomou a região”.

Coordenador-geral do Disque-Denúncia, Zeca Borges observa que, além da mudança no perfil de crimes praticados, o serviço a análise criminal também já identificou que as quadrilhas, hoje, se comportam de forma diferente:

– Assim como aconteceu com a corrupção em Brasília, aqui também todos os limites foram rompidos. Hoje, os criminosos roubam pobres, roubam em favelas. O morador da comunidade vive o mesmo medo que o garoto de classe média da Zona Sul sente no asfalto. Ele precisa esconder o relógio, o celular – comenta Zeca Borges.

Em mais de duas décadas de funcionamento, o serviço ajudou na autuação e prisão de cerca de 21 mil pessoas, na apreensão de 20 mil toneladas de cocaína, de dez mil armas, de nove toneladas de maconha e de R$ 1,7 bilhão em espécie encontrados em poder de bandidos.

Além do já tradicional 2253-1177 para informações por telefone, o Disque-Denúncia conta hoje com um aplicativo e outros serviços muito usados inclusive pela polícia como o Procurados.org que exibe informações e fotos sobre criminosos foragidos da Justiça.

Depois de amargar com a crise do estado, que cortou sua participação na entidade, o serviço conseguiu se recuperar e vive hoje de doações e do apoio da iniciativa privada.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior