Ela nasceu na cidade mineira de Miraí, em 1923, e tem a mesma idade de sua terra natal. Lá viveu boa parte de sua vida. Formou-se professora, casou, teve cinco filhos, enviuvou e garantiu a aposentadoria. Cumprida esta primeira etapa, veio para o Rio ajudar os filhos na criação dos netos. Mas, assim que pisou em Copacabana, na década de 1970, Olívia Fagundes Coelho encontrou sua nova vocação.
Há 44 anos ela cuida do Recanto Nossa Senhora das Graças, mais conhecido pelo povo que ali habita como Santuário de Copacabana, aquele oratório de cor azul, fincado em uma pedra pintada de branco sobre o emboque do Túnel Sá Freire Alvim, na Rua Barata Ribeiro.
– Era aniversário do sogro de uma das minhas filhas e decidimos comemorar aqui. Meu irmão, o cônego Vinícius, celebrou a missa. Ali conheci dona Idaci, que havia fundado o local. Ficamos amigas, e todas as sextas-feiras eu ia rezar um terço. Com o tempo, ela adoeceu e me pediu que passasse a cuidar da santa – contou.
Olívia buscou por todas as partes o registro do local para poder cobrar do poder público as melhorias necessárias. Não havia. Foi aí que começou uma peregrinação, concluída somente no ano passado, quando o então prefeito Eduardo Paes sancionou a lei 6.069, de autoria do vereador Carlo Caiado, reconhecendo publicamente o tradicional ponto de oração. Mas, até a vitória, foram muitas as pregações:
– Só tínhamos dois bancos. Fizemos uma vaquinha, muitas senhoras contribuíram e hoje temos 14 bancos. Conseguimos um registro de água para poder regar nossas flores. Quando começou a obra do metrô, emprestamos nossa fonte, mas, depois que foram embora, a água foi desligada e estou há tempos tentando religar. Eu já estou com dificuldades para vir até aqui. Não tenho mais como varrer e ainda trazer água para as plantas. Eu não peço tanto, quero nossa água de volta.
Em carta, pedido ao prefeito
Mas a mineira aproveita a oportunidade e pede mais.
– Esse é o lugar mais bonito de Copacabana porque tem a santa. As autoridades que tomarem conhecimento desta reportagem bem que poderiam olhar por este lugar. Só precisamos de uma rampa para os cadeirantes, tem que subir um pouco o muro para evitar os arruaceiros e reabrir o quartinho feito pela concessionária do metrô para que os guardas municipais que cuidam do santuário (outra conquista de Olívia) possam usar o banheiro e ter onde guardar suas coisas. E também precisamos melhorar os pontos de luz – enumera Olívia, que até carta ao prefeito Marcelo Crivella já escreveu para reclamar. – Eu sei que ele é de outra religião, mas isso não tem importância. Ele tem que cuidar do local que está muito abandonado. E tem que fazer isso por Copacabana, pelo Rio de Janeiro e porque é sua obrigação.
Mesmo com 94 anos e cinco meses, como ela mesma diz, Olívia segue cuidando da santa, sempre acompanhada de sua bengala e da fiel escudeira, a cuidadora Ednalva.
– Eu fiz um propósito a mim mesma e a Deus, de lutar até que o lugar fosse reconhecido e cuidado. E espero que, antes mesmo de fazer aquela viagem para a qual não precisarei de sapatos, que o santuário receba a atenção que merece – garante a guardiã, que vem buscando apoio junto a moradores do bairro para continuar o trabalho.
Autor da lei que garantiu o registro do local como logradouro público, o vereador Carlo Caiado se diz ainda em dívida com a protetora da santa:
– Estive com dona Olívia algumas vezes. Fomos apresentados por um dos meus assessores. É uma senhora encantadora, que literalmente se doa para a eternização desse santuário. O recanto é um lugar de paz e meditação em Copacabana que poucas pessoas ainda conhecem. A energia daquele lugar é inexplicável e isso tudo se deve ao amor que dona Olívia devota ali. Não pude dizer não ao pedido dela, de tornar, por meio de lei, o santuário em logradouro público. Agora é oficial. Estou trabalhando na Câmara para cumprir uma outra promessa, a de agora tombar o santuário, para que o mesmo seja perpetuado na cidade. O local é a cara da dona Olívia, que é uma mulher encantadora e fiel aos seus propósitos.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Agência O Globo / Custódio Coimbra