A aposentada Iolanda Souza, de 85 anos, moradora de Bonsucesso, está entre os 204.579 servidores do estado que só receberam uma parcela de R$ 550 dos vencimentos de maio. E nem sinal do salário de junho e do 13º. Ela divide a casa com duas filhas e três netos, e o pouco dinheiro que entra é para ajudar no sustento da família. Com dores nas pernas, mal conseguia andar e, sem plano de saúde, nem cogitava ir ao médico. Até se deparar com o anúncio de uma clínica no bairro, que, sensível à crise no estado, está oferecendo atendimento gratuito a servidores.
— Se não fosse isso, não poderia me tratar e, hoje, não estaria andando. Seria muito difícil — diz dona Iolanda, que agora faz tratamento vascular com remédios que consegue de graça por meio do programa Farmácia Popular, do governo federal.
Há dois meses, a clínica Dr. Solidário oferece a servidores do estado cem consultas médicas gratuitas por mês. Normalmente, o atendimento sai a R$ 80. Caso os pacientes precisem fazer exames, eles saem com desconto de até 50%.
— Somos um negócio privado, mas conseguimos reduzir a nossa margem de lucro para causar um impacto social. Sabemos da situação de penúria em que os servidores estaduais se encontram — afirma Sidiney Costa, proprietário da clínica.
E não são só os profissionais da área de saúde que estão se solidarizando com os funcionários públicos do estado. O bar Bukowski, em Botafogo, que tem shows de rock em sua programação e cobra R$ 55 de ingresso, oferece entrada gratuita a servidores estaduais aos sábados, até as 23h59m. A iniciativa começou em janeiro e tem que prazo para acabar.
— Decidimos que a promoção vai durar até terminar essa situação vergonhosa em que o estado nos colocou. Temos amigos e parentes passando aperto, e essa foi uma maneira que encontramos de nos posicionarmos contra esse vexame — diz Priscila Mulatinho, gerente de marketing do bar.
Frequentadora de longa data do bar, Tatiana Chaves, técnica de laboratório do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), também está entre os servidores que só receberam uma parcela do salário de maio. Ela considera a inciativa do Bukowski importante “porque as pessoas que estão passando por esse problema têm que extravasar de alguma maneira”.
— Tem muita gente entrando em depressão, ficando doente. Eu choro todos os dias, de raiva, de indignação, por causa da injustiça. Está quase impossível arcar com todos os compromissos com dois filhos na escola, tendo que pagar plano de saúde, condomínio. O salário do meu marido não é suficiente, contamos com a ajuda de minha mãe e minha sogra — diz Tatiana, que mora no Catete.
O Movimento Unificado dos Servidores Estaduais (Muspe) segue arrecadando alimentos não perecíveis para doar a quem está com os salários atrasados. Segundo a coordenação da entidade, desde o último dia 15, foram distribuídas 1.853 cestas básicas. A Arquidiocese do Rio e as ONGs Ação da Cidadania e Viva Rio também aderiram à campanha de arrecadação de mantimentos.
— A Igreja é solidária. Podem contar conosco. É nossa missão ajudar os mais necessitados — disse o cardeal dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio.
As doações podem ser feitas em qualquer uma das mais de 270 paróquias do Rio e na sede da Ação da Cidadania (Avenida Barão de Tefé 75, na Saúde) em horário comercial. E, de segunda a sexta, das 9h às 15h, na Rua Evaristo da Veiga 55, 7º andar, Centro; na Rua Sete de Setembro 141, 2º andar, Centro; na Travessa do Paço 23, 13º andar, Centro; e na Avenida Alberto Lamego 2.000, no Parque Califórnia, em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo