Itatiaia ainda espera neve, mas, por ora, ‘sincelou’

Nevar, não nevou, mas “sincelou”. Houve só neblina e muita chuva para as mais de 1.500 pessoas que subiram até a parte alta do Parque Nacional de Itatiaia (PNI) no fim de semana. O nevoeiro congelante, chamado sincelo, chegou nesta segunda-feira nas partes mais elevadas das montanhas e foi flagrado em algumas fotos, diz o caçador de frio do grupo Brasil Abaixo de Zero, o geógrafo William Siqueira, que já instalou mais de 20 estações meteorológicas na Mantiqueira.

Os campos do chamado Planalto do Itatiaia ficaram cobertos de geloItatiaia bate recorde de frio este ano, com 6,8 graus negativos
Acervo O GLOBO: Dez temperaturas mais baixas do Rio, desde os anos 20

O sincelo, um fenômeno extremo de frio, quase desconhecido no habitualmente tórrido Estado do Rio de Janeiro, costuma ocorrer no inverno dos estados do Sul. Aqui é raridade. Mas o chefe do PNI, Gustavo Tomzhinski, contou que ontem cristais de gelo foram fotografados nas Agulhas Negras (2.790 metros) e no Morro do Couto (2.680 metros).

A noite desta segunda-feira ainda nem tinha começado quando o termômetro mergulhou abaixo de zero grau Celsius. Com um grau negativo no Morro do Massena, a sensação térmica era de seis graus negativos. E isso é só o início desta semana, que promete recordes de baixas temperaturas nas montanhas da Serra da Mantiqueira. A previsão para até amanhã é de geada — e das grandes. Ontem, a estação do Massena indicava queda de grãos de gelo, mas não propriamente neve no cume.

Durante todo o dia, as duas estações do PNI — Massena e Campo Belo — se alternaram no registro das temperaturas mais baixas do Brasil. Em nenhum momento o termômetro subiu acima dos 4 graus. Se as condições para a formação de neve acabaram, as de geada forte apenas começaram. Diferentemente da neve, a geada precisa de temperaturas abaixo de zero e clima seco para se formar.

— Há grande chance de ocorrer geada — afirma o meteorologista Diego Arsego, do Centro de Previsão e Estudos Climáticos do Inpe (CPTEC).

A geada é mais fácil de ocorrer do que a neve porque precisa de muito frio — o que quase sempre há no Planalto do Itatiaia — e clima seco, característico do inverno. Já neve nos trópicos, mesmo nas montanhas acima de dois mil metros, exige uma combinação extremamente difícil. É preciso ter frio abaixo de zero, ar quase saturado de umidade e chuva. Havia uma possibilidade de que isso acontecesse no fim de semana. A umidade e a chuva compareceram. Mas a temperatura não foi tão baixa quanto se esperava.

— Houve uma inversão térmica e a temperatura a 3 mil metros de altitude estava a 1 grau, mas acima disso marcava cerca de 4 graus. Essa inversão térmica foi determinante para não termos neve. Não houve frio suficiente — diz Siqueira.

Apreciadores de neve, como os integrantes do grupo Brasil Abaixo de Zero, passaram o fim de semana acompanhando as condições meteorológicas.

—As chances, desde o início, eram muito pequenas, mas ninguém quer perder uma oportunidade dessas. Neve tropical é imperdível — diz Siqueira.

O montanhista e fotógrafo Germano Viegas foi outro que ficou na expectativa de neve. Mas não se arrependeu:

— A neve não veio. Mas o Planalto com muito frio é sempre interessante.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: César Caffé, guia do Parque do Itatiaia