Assim como as Agulhas Negras, o frio faz parte da paisagem da parte alta do Parque Nacional do Itatiaia (PNI), na Serra da Mantiqueira, entre Rio de Janeiro e Minas Gerais. E os 6,8 graus negativos registrados na madrugada desta quinta-feira pela estação meteorológica doada por caçadores de frio ao parque são apenas uma amostra do inverno que mal começou. O parque, que este mês completou 80 anos, o mais antigo do Brasil, parece imune a verão, uma terra de inverno sem fim. E há promessa de neve para os próximos dias.
A cerca de três horas de viagem do município do Rio, a parte alta, ou Planalto do Itatiaia, fica a uma enorme distância quando se trata de temperatura. À noite, enquanto na capital fazia 21 graus, lá já marcava 3 graus negativos, e a temperatura despencou ainda mais madrugada adentro. Uma geada particularmente forte cobriu os campos de altitude de gelo e congelou poças e córregos. A mais intensa deste ano, que promete mais. No Rio, houve apenas uma névoa, comum nessa época.
O frequentador do Parque Nacional do Itatiaia Germano Viegas observa a represa do Abrigo Rebouças com as Agulhas Negras ao fundo, no centro. Mesmo em dias ensolarados e sem nuvens, o frio impera do outonoParte alta do Parque Nacional do Itatiaia disputa o título de região mais fria do Brasil
A diferença de temperatura – ou amplitude térmica – se deve, principalmente, à altitude. O Planalto do Itatiaia está a mais de 2.400 metros acima do nível do mar. Em média, a temperatura baixa um grau a cada cem metros ganhos em altura. A estação que mediu 6,8 graus negativos fica a 2.470 metros, no Vale do Campo Belo. E este caminha para entrar nos registros meteorológicos como um dos lugares mais frios – se não, o mais frio – do Brasil. Não há um único mês do ano, mesmo no auge do verão, que o termômetro não marque menos de 10 graus. Em 12 de agosto do ano passado, os termômetros chegaram no local a 13,3 graus negativos.
Como os frequentadores do Parque Nacional de Itatiaia sabem, frio lá sempre fez. O que faltava era uma estação meteorológica para medir. A oficial, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), foi desativada nos anos 1940. Não sem motivo, o Itatiaia atraiu caçadores de frio, como Artur Chiovitti, um dos responsáveis pela instalação das três estações automáticas que agora funcionam no Planalto.
Se o frio extremo para padrões brasileiros não surpreende, a descoberta de que o Vale do Campo Belo – e não o alto das montanhas – é o lugar mais gélido foi vista com interesse. O motivo é que o Vale é uma geladeira natural. Cercado por algumas das montanhas mais altas do Sudeste, tem o solo rochoso coberto só pela vegetação rasteira dos campos de altitude. Com isso, o calor absorvido durante o dia não é retido e escapa para o espaço à noite.
Assim que escurece, frequentadores já sabem que podem esperar pelo frio e pelos lobos guarás, que após muitos anos, estão de volta.
O frio é certo e a geada, frequente. Já neve é outra história. Para que ela caia, como no histórico ano de 1985, é preciso muita umidade. O problema é que o inverno é a estação mais seca. Este ano, porém, promete. O inverno começou mais chuvoso que o esperado. E algumas previsões meteorológicas indicam que neste domingo ou na segunda-feira, há chance de nevar no Parque do Itatiaia, num dos espetáculos naturais mais raros dos trópicos. Resta torcer.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: César Caffé / Reprodução