Na semana que vem, o Cais do Valongo tem grande chance de ser eleito Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Apesar do seu valor para a história da diáspora africana, e para o turismo no Rio, não há garantia de segurança para as peças encontradas em escavações no local. O material — cerca de 500 mil itens, muitos da tradição banto, como amuletos em osso, colares, pulseiras em piaçava e jogos de búzios — está armazenado num galpão da Gamboa, aos pés do Morro da Providência. Os guardas municipais que faziam a vigilância do lugar, que abriga também cerca de outros 700 mil artefatos resgatados no período de obras do Porto, foram expulsos por traficantes, como revelou ontem Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO. O secretário municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação, Indio da Costa, disse que uma empresa já foi contratada para atuar na vigilância. Mas só há um segurança por turno para tomar conta de 3,5 mil metros quadrados. Ele admite que a medida não resolve definitivamente o problema, pois “a gente vive num estado em que o tráfico dominou”.
Diante dos perigos para o acervo, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) enviou nesta quarta-feira uma equipe ao local para avaliar as condições de armazenamento das peças. O resultado da inspeção deve ser divulgado nesta quinta. Para Indio da Costa, a sorte é que criminosos não têm interesse no material:
— A gente vive uma calamidade pública no estado, e não tem empresa de segurança que dê conta se alguém chegar de fuzil. Essa é a realidade. Por sorte, ninguém tem interesse nessas peças. A bandidagem não vai querer roubar peça arqueológica para vender. É importante elas serem bem cuidadas, mas não têm valor econômico como celular e relógios — afirma Indio, acrescentando que a empresa contratada, Angel, receberá R$ 19 mil por mês da prefeitura para manter segurança 24h com o revezamento de quatro profissionais.
MUNICÍPIO DEVERIA GERIR MATERIAL
A Polícia Militar disse que o 5º BPM (Praça da Harmonia) faz patrulhamento com rondas de carro e motocicletas, além de blitz e operações na região. O Comando das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) afirmou que o esquema de policiamento da unidade da Providência passa por mudanças de estratégia para coibir a atuação de criminosos fora do perímetro da comunidade. Já a Guarda Municipal informou que o local é considerado de risco e que, após uma avaliação, concluiu-se que não era possível colocar homens atuando no galpão.
A insegurança, no entanto, não é o único problema que cerca as peças encontradas nas escavações do Cais do Valongo. No fim do ano passado, a prefeitura, o Iphan e o Ministério Público Federal (MPF) assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que obriga o município a conservar, gerir e promover a divulgação do material escavado por meio do Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (LAAU), que deve contar com reserva técnica, área de exposição, laboratórios de pesquisas e auditório. O espaço, que custaria R$ 4 milhões, seria aberto ao público. O projeto, desenvolvido na gestão de Eduardo Paes, agora está na gaveta, sem verba para sair do papel:
— A prefeitura está em situação fiscal complicada, como o Brasil inteiro — justifica Indio, dizendo que o rombo na sua secretaria chegaria a R$ 1 bilhão. — No momento, a prioridade é saúde e educação.
No domingo, terá início em Cracóvia, na Polônia, a reunião anual do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco. No encontro, que vai até o dia 12 de julho, será votado se o Cais do Valongo deve entrar no rol de sítios classificados como Patrimônio da Humanidade.
Coordenador do trabalho entregue à Unesco, o antropólogo Milton Guran destaca a relevância do acervo:
— Esse é provavelmente o maior acervo arqueológico da diáspora africana do mundo. A conservação e gestão desse material são de responsabilidade compartilhada entre o Iphan e a prefeitura e fazem parte do compromisso do estado brasileiro com a inclusão do Cais do Valongo na lista de Patrimônio Mundial. As dificuldades que estão sendo enfrentadas serão superadas em breve, caso o título seja aprovado em Cracóvia.
INVENTÁRIO CUSTOU R$ 1 MILHÃO
Ex-presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, Washington Fajardo diz que deixou um planejamento pronto para a instalação do Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana para o governo Marcelo Crivella. Ele é a favor da busca de parceiros, inclusive no exterior, e da participação financeira do Iphan para transformá-lo em realidade. No acervo de relíquias recolhidas durante as obras na Zona Portuária, ainda há, entre outras peças, pedaços de louças, faianças, a pedra fundamental da Docas de dom Pedro II, moedas de ouro, canhões do Império e partes de navios. São pedacinhos da história econômica, naval e doméstica do Rio.
— A prefeitura investiu muito nesse acervo. Dedicou um imóvel público, gastou R$ 1 milhão no trabalho de inventário. O município do Rio acabou um pouco penalizado por ter que sozinho cuidar de um acervo que é de interesse do país. Será que o Iphan não pode colocar R$ 2 milhões para criar o laboratório, que vai ser uma reserva técnica aberta à população? — defende Fajardo.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Mariana Aimée/divulgação