A tentativa frustrada de despoluir o complexo lagunar da Barra, uma promessa olímpica, foi notícia até na imprensa internacional. O problema, porém, afeta também os rios, responsáveis por carregar a sujeira até as lagoas de Jacarepaguá, de Marapendi e da Tijuca. Os casos do Arroio Pavuna, atualmente repleto de gigogas, e do Sangradouro, recém-adornado com faixas de protestos, estão entre os que mais preocupam moradores do entorno.
Na semana passada, duas faixas com a frase “S.O.S Freguesia” foram colocadas na Passarela da Freguesia, por onde passa o Rio Sangradouro, ou Sangrador. Numa delas, lê-se também “o Rio Sangradouro pede socorro”, e, na outra, “mau cheiro insuportável”. Adriano Silva, morador do bairro, aprovou o protesto:
— Já vi até galinhas lá dentro. E o cheiro está horroroso.
Há três anos, a prefeitura canalizou o Rio Sangradouro. Na época, a medida foi criticada por ambientalistas, que alertavam para a possibilidade de a poluição piorar após a intervenção no curso natural do rio. A alegação do poder público para a medida era o combate às enchentes na região. Segundo a gestora ambiental Núbia Correa, coordenadora da Comissão de Meio Ambiente de Jacarepaguá, a obra deveria ter sido acompanhada de atuação da Cedae:
— Não adianta manilhar o rio e o esgoto continuar entrando. Até um bambuzal que ajudava a fazer uma filtragem natural da sujeira foi arrancado.
Síndico da Passarela da Freguesia, Alvaro Lopes foi quem colou os cartazes. Ele diz que desde a canalização não há limpeza no Sangradouro.
— Eu reclamei e a Superintendência de Jacarepaguá me disse que (a limpeza) seria só enxugar gelo, porque o necessário é acabar com o despejo de esgoto. Mas o estado está falido e não há perspectiva para obras grandes, então o mínimo que deveriam fazer era limpar o rio — argumenta.
Faixas de protesto no Rio Sangradouro – Foto do Leitor / Adriano Silva / foto de leitor
Uma promessa da gestor anterior era a construção de Unidades de Tratamento de Rios (UTR), que tratam o esgoto na foz dos rios, evitando que chegue às lagoas. O projeto, presente no caderno de encargos olímpicos, citava obras nos rios das Pedras, Anil, Arroio Pavuna e Pavuninha. Mas só o Arroio Fundo ganhou uma unidade. Em 2015, o então prefeito Eduardo Paes anunciou que desistira das UTRs porque elas seriam pouco efetivas sem o fim de lançamento de esgoto.
Núbia discorda:
— Hoje a UTR do Arroio Fundo é pouco efetiva porque outros rios, muito poluídos, cruzam-no, e com isso a lagoa (de Jacarepaguá) continua ficando suja. Mas, se fizessem todas as UTRs planejadas, isso ajudaria a aliviar a situação.
Um sinal de poluição é a proliferação de gigogas. No trecho do Arroio Pavuna, em frente ao condomínio Cidade Jardim, as plantas reapareceram. Desde a época da Olimpíada, Sandra Vilella, moradora do residencial, reclama da situação:
— A prefeitura deveria começar imediatamente ações para limpar o canal que deságua na Lagoa de Jacarepaguá. Desde o verão, a situação piorou muito. Aqui tem até famílias de capivaras, que acabam sofrendo. Outro problema é que a comunidade que margeia o canal, perto da Estrada dos Bandeirantes, não tem saneamento. Também já ouvi dizer que fábricas da região lançam esgoto no rio.
A Rio Águas informa que o Sangradouro deverá ser desassoreado no segundo semestre, e que o orçamento para retirada de gigogas do Arroio Pavuna está sendo feito. Já a Cedae diz que há rede de tratamento de esgoto na região dos dois rios e que está realizando o levantamento de ligações clandestinas nas proximidades.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Analice Paron