Artistas pouco conhecidos pelo grande público, moradores da Barra assinam faixas de sucesso

Se os vir passar, você provavelmente acreditará estar diante de um vizinho comum. Mas o trabalho deles vem fazendo sucesso na televisão, nas rádios, nas redes sociais, nos cinemas, nas pistas de dança. Trocando em miúdos, seus olhos podem não identificá-los, mas seus ouvidos certamente reconhecem as obras deles. Nesta edição, O GLOBO-Barra reúne as histórias de três músicos da região que têm carreiras sólidas e estão num momento especial de suas trajetórias, embora não apareçam fim de semana sim, fim de semana não em programas de auditório.

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A cantora e compositora Bianca Chami, de 28 anos, costuma dizer que esse misto de anonimato e reconhecimento é parte de sua história. O público, conta, ainda não a associa ao hit “Carioca”, que tem sacudido as noites do Rio. Nele, sua voz tranquila é embalada pelas mixagens dos DJs e produtores Joe Kinni e Jakko.

Fã de samba e de jazz, ritmo em que se baseia para compor letras e melodias ao violão, Bianca foi surpreendida ao ser convidada pela dupla para falar sobre a cidade numa composição de pegada eletrônica. Até então, conta, gravava músicas autorais, escritas a partir do que sentia. Nada com temática predeterminada. O resultado teve desdobramentos acima do esperado pelo trio.

— Quando recebi o convite, levei um susto. Eles mandaram a base e eu tinha que fazer a letra e a melodia. Graças à repercussão, tenho recebido convites de DJs do mundo inteiro, e alguns querem inclusive gravar em português. Estou muito feliz — conta. — Estamos em fase de produção de mais duas músicas. Agora com tema livre! Gostei desse formato. Não quero outra coisa.

A indicação foi feita pela Warner, a gravadora dos três, quando Joe Kinni e Jakko procuravam uma cantora e compositora carioca para colaborar na faixa que desejavam lançar. Bianca gastou o botão repeat por dois dias, ouvindo a batida incessantemente, para se inspirar. Depois, bastaram 20 minutos para que escrevesse a letra, que homenageia a cidade e as mulheres. O lançamento da canção foi no ano passado; e o do clipe, no início de março. “Carioca” já ganhou mais dez versões oficiais, com mixagens variadas. No Spotify, as faixas somam mais de um milhão de execuções.

— É uma música que toca nas festas e nas boates; então, os DJs é que estão à frente. Ainda não tivemos a oportunidade de mostrá-la na televisão e percebo, pelos comentários nas redes sociais, que as pessoas pensam que participo só como intérprete — diz Bianca, que aos poucos têm podido divulgar suas outras composições. — As pessoas mandam mensagens falando do meu trabalho e contam que o descobriram através de “Carioca”.

Quando os internautas buscam outros trabalhos de Bianca Chami, encontram três EPs, o primeiro, de 2013. A cantora tem influência de nomes como Chico Buarque, Elza Soares, Caetano Veloso, Wilson das Neves, Nina Simone e Edith Piaf — por quem nutre aberta preferência, justificada pelo fato de ser “dramática desde pequenininha”, como diz.

A cantora Nina chegou ao quarto lugar nas paradas com “D.R. em setembro” , de Kiko Zambianchi – Analice Paron / Agência O Globo
A decisão de ser cantora, conta Bianca, foi tomada durante o intercâmbio em Londres, para onde embarcou aos 20 anos. Foi na cidade inglesa que ela começou a estudar piano e violão e ingressou na cena cultural. Suas primeiras letras foram em inglês, idioma do primeiro vídeo publicado em seu canal no YouTube, em 2011, com uma interpretação de “Why don’t you do right”, de Peggy Lee. O português passou a ser a língua oficial de suas composições dois anos depois, quando voltou ao Brasil:

— Eu não seria cantora se não escrevesse. É legal gravar uma música de alguém. Mas a graça é cantar o que escrevo, algo que eu exercito todo dia.

O repertório das apresentações, quase sempre acústicas, é eclético. Vai de Fagner a Raça Negra:

— Escolho músicas de que gosto e que me marcaram. E faço releituras inusitadas, como Pepê & Neném em versão jazz. Gosto dessa brincadeira.

A também cantora e compositora Nina tem uma carreira iniciada mais cedo, ainda na infância. O que mudou, recentemente, foi o rumo de sua trajetória. A carioca teve o primeiro contato com a música aos 4 anos, quando se mudou para o Pará. Em pouco tempo estava se apresentando no coral de uma igreja, por sugestão da avó. A paixão foi se fortalecendo e resultou em aulas de canto, de vídeo e de dança, aprendizado que continuou na volta ao Rio, seis anos depois. Aos 21 anos, ela se lançou como artista gospel, mas com seu nome de registro, Kellen.

Há dois anos, porém, ela encontrou em um dos apelidos que recebeu na infância, Nina, o nome ideal para a identidade que queria assumir dali em diante. O estilo musical também mudou. Pop, rock, folk e MPB viraram referências para a nova fase. O processo de redescoberta teve como um dos desdobramentos o EP “Tanta sede”, lançado em dezembro.

O álbum traz releituras, duas faixas autorais (“Amor para sempre” e “Combustível”) e uma canção inédita encomendada a Kiko Zambianchi, “D.R. em setembro”. A música despontou, de acordo com a Crowley, multinacional especializada em gravação e monitoração eletrônica de rádio, levando Nina ao quarto lugar no ranking nacional em dezembro, empatada com Calvin Harris e Ludmila e à frente de Wesley Safadão.

— Procuramos o Kiko Zambianchi por ser um hit maker respeitado, e ele indicou “D.R. em setembro”, dizendo que a achava a minha cara. Começamos a gravar, com um som gostoso de ouvir. Ele mesmo disse que ia virar um hit. É uma música muito especial — conta Nina.

A agenda da cantora tem contemplado apresentações fora da cidade, dada a dificuldade, tão comentada entre os artistas, de encontrar boas casas no Rio para realizar shows de pequeno ou médio portes.

As faixas do EP dividem espaço nos shows com músicas de artistas como Rita Lee, Frejat e Buchecha. Uma das pérolas do álbum é uma regravação de um clássico, aposta que lhe deu um friozinho na barriga.

— Tínhamos duas páginas de músicas. Escolhi aquelas com que me identifico mais. “Escritos nas estrelas”, de Tetê Espíndola, eu achei muita responsabilidade regravar, por ter sido um grande sucesso nos anos 1980. Foi a única que relutei em incluir no EP. Mas as pessoas estão gostando, dizem que tenho colocado minha essência no que faço — conta.

TRILHAS SONORAS

Você com certeza já ouviu uma música de Ricardo Leão, de 57 anos. Pode ter sido em um show, com o disco rolando ou até numa passadinha pela sala enquanto alguém assistia à televisão. O pianista e, desde 2005, produtor musical se dedica à criação de trilhas sonoras para séries e novelas, além de longas-metragens. Se você já se divertiu ao ver programas como “Sob nova direção”, “Pé na cova”, “Mr. Brau”, a nova geração da “Escolinha do professor Raimundo” ou os dois longas “S.O.S.: mulheres ao mar”, o trabalho dele certamente ajudou a garantir seu envolvimento na narrativa.

Ricardo Leão em seu estúdio, o Jaula do Leão, onde gravou parte de seu mais novo álbum , com a trilha da novela “A lei do amor” – Fabio Rossi / Agência O Globo
Sua produção mais recente foi para a novela “A lei do amor”, exibida de outubro a março pela Rede Globo, que rendeu um álbum gravado parcialmente em seu estúdio, o Jaula do Leão, na Barra. A trama densa e o número de antagonistas acima do habitual tornaram o desenvolvimento das músicas um desafio, diz o profissional. Para ele, toda trilha é como se fosse a primeira, justamente por considerar que cada uma é única. Com a experiência de 50 anos dedicados à música, dos quais 12 voltados para novelas e programas, garante que nenhuma cena fica completa sem uma composição original. E o banco de músicas de suas produções é de dar inveja. Só para uma novela, explica, pode ser necessário criar cerca de cem faixas.

No caso de “A lei do amor”, cuja trilha era envolta em angústia e tensão, a inspiração veio da memória. Para embalar a trama que se desenrolava em São Dimas, uma cidade fictícia de médio porte no interior de São Paulo, Leão tomou como base a cultura local de Goiânia, onde nasceu. As gravações envolveram orquestras de corda, uso de instrumentos de madeira e violas caipiras.

— Esse é um trabalho que demorou 57 anos para ser feito — afirma Leão. — Fico o tempo todo ligado. Se estou vendo um filme ou uma série, observo o que funciona. Quando você faz uma música, coloca nela toda a sua vivência.

Ricardo Leão já correu estrada ao lado de grandes nomes da música brasileira. Os planos de ser pianista clássico quando começou a estudar música, aos 7 anos, foram se modificando, à medida em que ele ia conhecendo outros ritmos. Quando se mudou para o Rio, em 1984, passou a tocar na noite carioca. Fez nome com as apresentações, o que lhe rendeu a gravação de seu primeiro disco, ao lado de Natan Marques.

Durante as décadas de 1980 e 1990, ele se apresentou em festivais dentro e fora do país e foi instrumentista de artistas de destaque, como Emílio Santiago, Milton Nascimento, Margareth Menezes e Simone, para quem trabalhou como maestro por 18 anos. Como produtor, destacou-se pelo álbum “Por onde andará Stephen Fry?”, de Zeca Baleiro.

— Cada vez que eu me sento ao piano sai alguma coisa. Sempre gravo. Pouquíssimas vezes joguei a música fora. Em algum momento, ela serve.

Fonte: O Globo
postado por: Raul Motta Junior
Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo