Obras na Ciclovia Tim Maia podem exigir até içamento das pistas

Quase um ano depois do desabamento que deixou dois mortos na Ciclovia Tim Maia, em 21 de abril de 2016, um laudo do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), divulgado nesta terça-feira, recomendou que a via seja interditada em todo trecho entre o Leblon e São Conrado, e não só na área próxima ao acidente, como acontece hoje. O documento afirma que a estrutura — que custou R$ 44,7 milhões e foi inaugurada há 14 meses — não tem condições adequadas de segurança e só deveria ser reaberta depois de intervenções que corrijam falhas na construção e desgastes como corrosões e fissuras. Segundo o presidente do Crea, Reynaldo Barros, a obra teve uma execução “malfeita”. Ele não calcula qual seria o custo dos reparos necessários, mas afirma que eles podem exigir futuras interdições da Avenida Niemeyer e até mesmo o içamento das pistas da ciclovia, com guindastes ou macacos hidráulicos. A medida seria uma solução para resolver um dos defeitos encontrados na vistoria encomendada pela Justiça, como o apoio inadequado entre os tabuleiros e os pilares da via.

O laudo do Crea afirma que a interdição preventiva da Tim Maia, entre o Leblon e São Conrado, deve começar em abril e se prolongar até agosto, quando termina o período de ressacas no mar. Só depois, dependendo do estágio das intervenções, poderia ser reavaliada a liberação da ciclovia. O trecho de São Conrado até a Barra não foi avaliado pelo Crea.

— Hoje, a ciclovia já apresenta sinais de desgaste muito intensos, apesar de ter sido inaugurada há pouco mais de um ano — afirmou o presidente do Crea, apontando que, se a via não for recuperada, os riscos aumentam. — A tendência é a ela envelhecer precocemente e ficar cada vez mais frágil.

PERIGO DE NOVOS ACIDENTES

Em paralelo às obras, os engenheiros sugerem que a prefeitura realize um estudo mais apurado sobre os fenômenos naturais que afetam a ciclovia. Enquanto essa análise não estiver pronta, diz Barros, a ciclovia deve fechar nos meses de ressaca, de abril a agosto, mesmo depois de ter passado por obras.

“Esta conclusão (…) se baseia no fato de que outras áreas, ao longo da ciclovia, podem estar expostas aos mesmos efeitos das marés, como aquele que ocasionou o acidente na região da Gruta da Imprensa, sendo que comprovadamente as estruturas não foram dimensionadas para estas situações”, afirma o laudo.

Os problemas no trajeto
Crea-RJ recomenda a interdição de todo o trecho entre o Leblon e São Conrado
Trecho inicial (pilares 1 a 5)
Subida da Niemeyer
•Fissuras e manchas nos
blocos de sustentação dos pilares
•Falta de parafuso de fixação de guarda-corpo
•Pontos generalizados de corrosão
nas vigas e tabuleiros
•Falhas no acabamento do concreto
da base de um dos blocos
•Ferragens expostas
•Juntas de dilatação danificadas,
com corrosão e acabamento irregular
•Corrosões nos guarda-corpos e
em suas placas de fixação
•Material de vedação da junta
de dilatação inadequado
•Corrosão avançada nas grades de proteção
•Área com inclinação da rocha, com
indicação de falta de ancoramento nos
tirantes que sustentam os pilares
•Blocos apoiados em encostas com
inclinação elevada e sem tirantes
•Corrosão nos blocos de sustentação
•Postes de iluminação com fissuras
Gruta da Imprensa
Vidigal
•Vigas com pontos de corrosão
•Manchas na concretagem em pilares reforçados
•Fissuras nos tabuleiros
•Danos na ligação do pilar com a laje
•Falhas no concreto do pavimento,
com pontos de armadura exposta e corroída
•Ferragens expostas
•Fissuras generalizadas no piso e
nos blocos de sustentação
•Juntas de dilatação desniveladas e
com fissuras no material de vedação
•Blocos apoiados em base inclinada sem tirantes
•Corrosão em vigas
•Lajes pré-fabricadas quebradas e com fissuras
•Ligações dos pilares com vigas metálicas por soldas sem padrão de qualidade
•Estruturas apoiadas em terreno íngreme
sem travamento adequado
O local é a área onde o acidente de 21 /04/2016 deixou dois mortos
Sheraton – Leblon
•Muros com pontos de corrosão e falhas na concretagem
•Piso com desnível
•Muros de contenção com corrosão
e integridade comprometida
Fonte: Crea-RJ
As áreas de risco estariam localizadas, sobretudo, na subida da Avenida Niemeyer, entre São Conrado e o Vidigal. Foi nessa região que, em abril do ano passado, ondas de até seis metros causaram o escorregamento da plataforma entre os pilares 48 e 49 da ciclovia. Um laudo da Coppe/UFRJ apontou que os jatos d’água causaram o desequilíbrio de um dos tabuleiros da via, construídos “descolados” de seus apoios. Após o acidente, obras reforçaram a estrutura do trecho, com pistas dimensionadas para uma pressão de 6,6 toneladas por metro quadrado.

Em outros pontos, de acordo com os engenheiros do Crea, a necessidade de realização de obras parecidas só seria identificada com o estudo sobre as marés na região. Mas a lista de problemas encontrados pelo conselho já é longa. O laudo, de 122 páginas, apresenta 169 fotografias deles.

Próximo ao local do acidente, na estrutura refeita recentemente, foram constatados sinais de fratura do concreto na ligação das vigas com os pilares, segundo o documento, provavelmente resultante do longo trecho sem juntas de dilatação (quatro vãos foram unificados). No mesmo trecho, os engenheiros também apontaram corrosões e fissuras nos tabuleiros.

Na subida mais próxima a São Conrado, há áreas em que os pilares se apoiam em rochas inclinadas, mas sem ancoramento em suas bases. Perto do Vidigal, estruturas estão apoiadas em terreno íngreme, sem acabamentos adequados para travá-los na pedra. Além disso, existem lajes pré-fabricadas quebradas e com fissuras e ferragens expostas. Na área próxima ao Mirante do Leblon, uma das mais movimentadas, o Crea aponta que há muros com pontos de corrosão e falhas na concretagem, além de contenção com integridade comprometida.

Ao longo de toda a ciclovia, nas áreas em que o piso está apoiado diretamente no solo, o aterro apresenta afundamentos e pontos de infiltração. O laudo também diz que a maioria das juntas de dilatação da ciclovia não apresenta vedação suficiente.

— O acidente foi em função da onda, com uma força não prevista no projeto. Essa é a questão mais preocupante. O restante da estrutura tem condições de ser recuperado— afirma o engenheiro civil do Crea José Shipper.

A Justiça tinha determinado o fechamento da ciclovia até a perícia feita pelo Crea. Entregue anteontem à 9ª Vara de Fazenda Pública, o laudo será analisado pelo juiz Marcello Alvarenga Leite.

PROCESSO AINDA NÃO TEVE RÉUS JULGADOS

Numa outra frente, desde que a Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público contra 16 pessoas por homicídio culposo (quando não há intenção de matar), nenhum réu foi julgado no processo sobre as responsabilidades do acidente, que tramita na 32ª Vara Criminal. De acordo com o Tribunal de Justiça, os autos estão em fase de citação. A família das duas vítimas já foi indenizada pela prefeitura.

A Procuradoria Geral do Município aguarda a análise do laudo do Crea pelos técnicos da Geo-Rio, para se pronunciar em juízo. A Prefeitura ressalta que, se ficar comprovada falha na execução da ciclovia Tim Maia, vai adotar todas as medidas necessárias para adequação do projeto pela empresa contratada, uma vez que a obra ainda está no período de garantia.

Em nota, o Consórcio Contemat/Concrejato, responsável pela construção, afirmou que “nenhuma das considerações quanto à qualidade da construção gera qualquer risco à segurança da estrutura da ciclovia e de seus usuários, desde que realizada a manutenção regular do equipamento”. A assessoria de imprensa do ex-prefeito Eduardo Paes afirmou, também por nota, que “a antiga gestão espera que o consórcio Contemat-Concrejato, responsável pelo detalhamento do projeto executivo e construção da Ciclovia Tim Maia, trecho Niemeyer , preste os esclarecimentos necessários e corrija os eventuais problemas apresentados no relatório”. O texto afirma ainda que a administração “implantou todas as solicitações feitas pela Justiça para que a ciclovia fosse liberada para uso neste trecho com total segurança estrutural e plano de contingência contra intempéries”.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto:marcelodejesus / Agência O Globo