Iole de Freitas celebra 70 anos com exposição no Museu de Arte Moderna

As pessoas mentem, os sentimentos mentem, até as estações do ano mentem. A matéria, não. Vidro, vaselina, tinta, o que seja. Esquente uma chapa de aço, e ela não terá outra opção a não ser curvar-se. Perfure-a, arranhe-a, pendure-a, e o material reagirá sempre da mesma forma. Celebrando 70 anos de idade, mais de 40 deles dedicados às artes plásticas, Iole de Freitas ainda aprende com a sinceridade da matéria. Na exposição que inaugura neste sábado no espaço monumental do Museu de Arte Moderna (MAM), intitulada “O peso de cada um” e composta de três imensas esculturas de aço que pesam juntas quatro toneladas, a lição foi incorporada ao conceito do trabalho: Iole notou que, enquanto manuseava as imensas chapas, de tão honestas, elas ainda eram capazes de surpreendê-la.

– É o que chamo de “inesperado excelente”, quando o material entrega muito mais do que você pede. Neste caso, eu estava trabalhando com chapas de aço imensas, retas, pesando quase uma tonelada cada. Um material muito resistente, industrial. No entanto, vi que, quando uma chapa dessas se ergue, ela mantém seu poder de autopermanência, ou, quando é tensionada, ela perde a memória com facilidade, e não volta ao formato original – detalha Iole, enquanto acompanha a finalização da montagem. – Então, que peso é este? É uma reflexão proposta. O peso, quando salta no ar, desaparece. Nestas esculturas, o peso está dissolvido no ato de suspensão ou em delicados pontos de apoio, em pontos de tensão que provocam a gravidade. É muito importante abrir esse espaço para que o próprio trabalho surpreenda o artista. E esse entendimento de deixar espaço para o inesperado só é conquistado com anos de trabalho. Quando jovens, tendemos a nos impor sobre a matéria, e com o tempo vamos entendendo que a obra é que tem de se impor sobre nós.

UMA GUINADA NA CARREIRA

Surgidas da tensão do próprio peso e cortadas por “flechas” que encontram o equilíbrio em poucos pontos de apoio – dependendo do ângulo do observador, a única escultura não suspensa parece pousar sobre o chão -, as instalações também representam uma guinada na carreira de Iole, que até então trabalhava com materiais mais leves. Curadora da mostra, Ligia Canongia explica o contraponto:

– As lâminas de aço inoxidável têm resistência maior e maleabilidade difícil, exigindo torções mais intensas e cálculos cirúrgicos de engenharia, justamente em função da rigidez e do peso do material. Apesar das especificidades da matéria, as esculturas evoluem no espaço como uma dança aérea imponderável, contrapondo seu peso original à ideia de leveza e movimento. A linha tênue entre o gestual e o geométrico ou entre a expressividade e a precisão formal, que sempre acompanhou o conjunto da obra, permanece nas peças atuais, mas com a recuperação inesperada dos reflexos e espelhamentos que a artista utilizava nos trabalhos dos anos 1970, quando iniciou a carreira.

Sem se importar com a algazarra de estudantes que visitavam o MAM na tarde de terça-feira, nem com o ruído estridente da equipe de montagem (“O museu é vivo, faz parte”, diz), a artista complementa o raciocínio de Ligia:

– Todo trabalho guarda uma herança estética do anterior. Tudo que fiz com fotografias, performances, opacidades, espelhamentos no passado está presente neste. E a vivência desse espaço específico é um desafio. A última vez que expus aqui foi em 1974, mas é um espaço já experimentado por mim, então isso cria um nível de exigência muito grande.

Um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, a artista mineira radicada no Rio teve desde sempre a relação com o espaço como mote (há 20 anos ela desenvolve a pesquisa “Para que servem as paredes dos museus?”). Suas instalações costumam desafiar a arquitetura dos ambientes que as acolhem, como aconteceu em suas últimas exibições, na Casa Daros, em 2013; na Casa França-Brasil, em 2009; na Fundação Iberê Camargo, em 2008; ou mesmo no Museu Fridericianum, em Kassel, Alemanha, onde ela participou da Documenta 12, em 2007. Desde 2000, Iole trabalhava com estruturas em policarbonato. A mudança para as chapas de aço – que já rendeu outras sete esculturas menores, a serem expostas na galeria Silvia Cintra + Box 4 a partir de 6 de agosto – se deu quase por acaso:

– Não foi uma decisão pensada. Uma revista de arte me pediu para fazer um múltiplo há dois anos, achei boa a ideia, mas não queria fazer algo pequeno, comedido. E aí tomei o aço pensando em criar a estrutura. Comecei a curvar as chapas de aço e pensei: este é o trabalho. Gostei, porque fiz um processo de eliminação de materiais, não era mais preciso a intervenção do policarbonato. A beleza resulta da verdade dessa ação. Quando veio o convite para pensar numa instalação para o MAM, quis assumir o desafio de trabalhar só com o aço. E aquilo que era parede virou um turbilhão no espaço.

A exposição no MAM traz, ainda, trabalhos em vidro com impressão fotográfica sobre película, da série “Escrito na água”, de 1996/1999, tanto do acervo pessoal da artista quanto da Coleção Gilberto Chateaubriand.

Fonte: O Globo
Foto: Fernando Lemos
Postado por: Raul Motta Junior