Há 35 anos na Zona Portuária, Armazém Cultural das Artes tenta reverter pedido de desocupação

Instalado há 35 anos na Zona Portuária, o Armazém Cultural das Artes e Técnicos em Espetáculos e Diversões pode estar com seus dias contados na região. Responsável por produzir cenários para mais de três mil produções teatrais, e com oficinas que passam a tradição para as novas gerações, o Armazém Cultural e seus “artistas invisíveis”, como define a cenógrafa Emily Pirmez, ocupam um prédio na Avenida Venezuela que pertencia à Cia. Docas do Rio de Janeiro. Após decreto de 2013 da presidente Dilma destinando antigos imóveis federais para a revitalização e urbanização da área, o prédio foi cedido à Companhia de Desenvolvimento Urbano (Cdurp). Com base nesse mesmo decreto, porém, a Cdurp encaminhou, no mês passado, um pedido para que o Armazém desocupe o lugar.

– Em 2014, a Cdurp havia dito que buscaria uma alternativa. Agora recebemos esse documento, mas continuamos aqui. Então, o momento é de diálogo – conta Emily, explicando que, na próxima terça-feira, dia 21, haverá uma reunião com o presidente da Cdurp, Alberto Silva, e o secretário municipal de Cultura, Marcelo Calero, sobre a questão.

Segundo a Companhia de Desenvolvimento Urbano, no entanto, o terreno já está destinado a um complexo residencial com 1.440 unidades.

‘CIDADE DO TEATRO’ OU ÁREA RESIDENCIAL

Na reunião agendada para a próxima terça-feira (21), os representantes do Armazém esperam reapresentar um projeto que começaram a arquitetar há quatro anos, para transformar a área numa “cidade do teatro”.

– Não somos contra a revitalização da Zona Portuária. Queremos fazer parte dela. A arte não se gentrifica, ela é a solução – diz a cenógrafa Emily Pirmez.

Quem explica o que seria o novo Armazém Cultural é Amir Haddad, diretor, ator e idealizador do projeto.

– A ideia seria ir do prego ao espetáculo, criando ali um núcleo cultural que parta da confecção do teatro até os ensaios, as apresentações – detalha, ressaltando que eles ainda buscam parcerias para isso, além de procurar resolver o impasse da permanência.

MOBILIZAÇÃO

Como Haddad, o fundador da Cia. Boto-Vermelho, Ricardo Schöpke, também tem sido um defensor do Armazém, desde o início das ameaças de despejo. Em 2014, ele coordenou uma coleta de assinaturas on-line em prol da causa, o que foi retomado agora.

– O primeiro cenário da minha companhia foi feito no Armazém, que está em sua terceira geração. Com a ajuda dos amigos, já temos mais de 380 nomes a favor da permanência – relata Schöpke, lembrando que no dia 15 de agosto eles devem promover um evento para estimular o debate sobre os usos da Zona Portuária, com atividades de dança, exposição, sarau e cinema.

– Aquela área não é um vazio, nem de pessoas nem de cultura – diz o arquiteto Roberto Anderson Magalhães, que procurou o espaço há alguns anos oferecendo ajuda.

O QUE DIZ A CDURP

Em nota, a Cdurp diz que, antes mesmo de ter o imóvel cedido pela Cia. Docas – o que aconteceu em dezembro do ano passado -, já havia alertado o Armazém sobre a necessidade de desocupação do local, por causa do iminente processo de revitalização da Zona Portuária. O grupo nega que tenha sido avisado à época.

A Cdurp ainda afirma que, em 2014, quando se comprometeu a buscar alternativas, solicitou que o Armazém apresentasse sugestões de espaços adequados à sua prática, o que não teria sido feito. Os artistas, por sua vez, alegam que essas áreas só podem ser apontadas pela própria companhia.

Seja como for, a Cdurp diz que a saída do Armazém é inevitável, já que o terreno está comprometido. De acordo com a companhia, o complexo residencial garantiria o “adensamento populacional e recursos para a operação urbana Porto Maravilha, conforme previsto no Leilão dos Certificados de Potencial Adicional de Construção, de 13 de junho de 2011”.

Fonte: O Globo
Foto: DIvulgação – O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior