Faltando um mês para o início dos desfiles do Grupo Especial na Sapucaí, no próximo dia 26 de fevereiro, o ritmo é acelerado nos barracões para transformar em alegorias e fantasias a ideia dos carnavalescos. Mas em ano de crise, ainda mais profunda do que em carnavais anteriores, as escolas de samba estão tendo de tirar da cabeça o que não têm no bolso. Com os patrocínios rarefeitos, a grande maioria dos enredos contados no sambódromo em 2017 será autoral, criações livres dos artistas da folia, como nas antigas.
Só a Mocidade, que levará Marrocos à avenida, e a Unidos da Tijuca, que falará da influência dos negros na música americana, trabalham com promessas de financiamento extra para o desfile. Nesse compasso, no Grupo Especial os temas se dividem, metade, essencialmente sobre a brasilidade. A outra metade, por assim dizer, é internacional, embora com associações diretas à cultura nacional.
São seis, digamos, em tons verde e amarelo: a fé popular na campeã Mangueira; a obra “Iracema”, de José de Alencar, na Beija-Flor; o Xingu na Imperatriz Leopoldinense; o movimento tropicalista no Paraíso do Tuiuti; uma versão carnavalesca, bem brasileira, da “Divina Comédia” no Salgueiro; e uma homenagem a Ivete Sangalo, na Grande Rio, que será também um passeio pela Bahia.
Os outros seis fazem viagens a terras mais distantes. Mas, pegando carona no enredo da Tuiuti, que, ao abordar a Tropicália, tratará do Manifesto Antropofágico escrito por Oswald de Andrade, pode-se afirmar que quase todos deglutirão temas universais para digeri-los sob forma tipicamente brasileira.
A Vila Isabel, por exemplo, propõe uma nova Kizomba com a música negra do mundo — e, consequentemente, sambas, lundus, afoxés… A União da Ilha cantará o povo banto, de Angola, um dos principais grupos etnolinguísticos trazidos para o Brasil pela escravidão. E a Portela falará dos rios do planeta e, portanto, dos nacionais também — com licença poética para recriar o rio da Portela, cantado por Paulinho da Viola em “Foi um rio que passou em minha vida”.
— Falaremos das civilizações no entorno de rios como o Nilo e o Eufrates, dos seres mitológicos e da vida à beira-rio, como os ribeirinhos e as lavadeiras. Um contraponto no desfile será numa ala e num carro que lembrarão a morte do Rio Doce, afetado pela tragédia de Mariana — afirma o carnavalesco Paulo Barros. — Terminaremos com o rio azul e branco da própria Portela. Será um enredo poético, com estética arrojada, para entreter e divertir o público — promete ele.
Já outros três enredos são mais assumidamente “gringos”. A São Clemente conta a história da criação do Palácio de Versailles, aproveitando-se da criatividade da carnavalesca Rosa Magalhães, com mais um daqueles seus enredos difíceis de pronunciar: “Onisuáquimalipanse”. A mensagem que fica no final, porém, é que as mesmas maracutaias e esbanjamentos que aconteceram na Europa ocorrem quase que corriqueiramente por aqui.
Já a Mocidade, ao abordar Marrocos, promove um encontro entre Allah e Xangô. E a Tijuca, ao cantar a música negra americana, terá como fio condutor uma conversa entre o músico Pixinguinha e o rei do jazz americano Louis Armstrong, remontando a um encontro que aconteceu de verdade, em 1957.
Nesse desfile tijucano a la Tio Sam, vai ter Michael Jackson, Donna Summer, Whitney Houston e até Elvis Presley e Madonna, embora esses dois últimos não sejam artistas negros. Alguns serão representados por covers, outros, diz a escola, de forma “bem mais caricata”. Mas o que mais mobilizou fãs da música americana, até agora, foi o anúncio de uma ala dedicada a Beyoncé, com 150 dançarinos de Stiletto (dança sobre salto alto) escolhidos em concorridas audições na quadra da azul e amarela. A promessa, afirmam a agremiação, é de um desfile divertido, com o qual o público vai se identificar de imediato.
LIBERDADE DE CRIAÇÃO
Sem preocupações mais com patrocínio, o carnavalesco da Imperatriz, Cahê Rodrigues, conta que está tendo liberdade total para desenvolver o enredo “Xingu, o clamor que vem da floresta!”. Enfrentou até a primeira grande polêmica do carnaval, ao incluir no desfile uma crítica ao uso indiscriminado de agrotóxicos que ameaça o parque indígena, o que despertou a ira do agronegócio. Apesar disso, nada mudou nos planejamentos da verde e branco.
O carnavalesco Cahê Rodrigues, da Imperatriz, no Xingu: enredo da escola causou polêmica com o agronegócio – Arquivo pessoal/Cahe Rodrigues
No fim de 2016, ele passou quatro dias na região que será abordada, no Mato Grosso. Viu de perto a cultura indígena, o legado dos irmãos Vilas-Bôas para criação do Parque Nacional do Xingu e a beleza de ritos e costumes do lugar, que vão ser traduzidas em fantasias e alegorias. Mas também questões delicadas, igualmente abordadas no desfile da verde e branca, como a preocupação com a manutenção das terras, as ameaças dos madeireiros e os danos ambientais provocados pela construção da usina de Belo Monte.
— Vamos tocar nesses assuntos, sim. Não temos como falar da luta dos índios sem falar desse lado dramático. Entendemos que é uma festa de alegria, mas é preciso mostrar essas verdades — diz Cahê, contando que uma ideia dele fazer o enredo. — Sempre tive vontade de desenvolver um tema indígena. A escola não tinha proposta alguma de enredo patrocinado, o que abriu a oportunidade. Mesmo em meio à crise, quando se tem liberdade para apostar num carnaval autoral, conseguimos driblar qualquer dificuldade. Ver seu sonho virando enredo acaba motivando a fazer mais, correr atrás. Acho que é isso que tem acontecido nesse carnaval, comigo e outros carnavalescos.
Confira a lista de enredos para o carnaval do ano que vem:
Mangueira – “Só com a ajuda do santo”
Carnavalesco: Leandro Vieira
Unidos da Tijuca – “Música na alma, inspiração de uma nação!”
Carnavalescos: Annik Salmon, Carlos Carvalho, Hélcio Paim, Marcus Paulo e Mauro Quintaes
Portela – “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse Rio passar…”
Carnavalesco: Paulo Barros
Salgueiro – “A divina comédia do carnaval”
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage
Beija-Flor – “A Virgem dos Lábios de Mel – Iracema”
Carnavalescos: Comissão de carnaval
Imperatriz – “Xingu, o clamor que vem da floresta!”
Carnavalesco: Cahe Rodrigues
Grande Rio – “Ivete do rio ao Rio!”
Carnavalesco: Fábio Ricardo
Vila Isabel – “O som da cor”
Carnavalesco: Alex de Souza
São Clemente – “Onisuáquimalipanse”
Carnavalesca: Rosa Magalhães
Mocidade – “As Mil e Uma Noites de uma ‘Mocidade’ pra lá de Marrakesh”
Carnavalescos: Alexandre Louzada e Edson Pereira
União da Ilha – “Nzara Ndembu – Glória ao senhor do tempo”
Carnavalesco: Severo Luzardo
Paraíso do Tuiuti – “Carnavaleidoscópio Tropifágico”
Carnavalesco: Jack Vasconcelos
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Fernando Lemos