Companhia argentina Fuerza Bruta faz primeira temporada no Rio

Com quatro companhias espalhadas pelo mundo, nove anos em cartaz em um teatro off-Broadway, apresentações em 29 países e uma audiência que soma mais de cinco milhões de espectadores, o Fuerza Bruta tem números que só não impressionam mais do que sua própria performance. O grupo argentino estreia no Metropolitan na próxima sexta-feira, com um espetáculo que leva seu nome e fica em cartaz até 19 de fevereiro.

Esta será a primeira vez que a trupe cumprirá temporada no Rio de Janeiro, depois de se apresentar em São Paulo e na Praia de Atlântida, no Rio Grande do Sul, com o espetáculo “Wayra”, em 2015. Mas não é sua primeira passagem pela cidade: no carnaval do ano passado, 15 bailarinos da companhia participaram da comissão de frente da Grande Rio e ajudaram a escola a tirar nota 10 no quesito. Na homenagem a Pelé, um dos melhores momentos foi marcado por um elemento apresentado pelo grupo aos paulistas logo depois. Uma bola transparente gigante foi inflada diante do público, e dentro dela dançavam alguns artistas, enquanto um integrante representando o rei do futebol passeava pelo lado de fora, ora com o uniforme do Santos, ora ostentando a camisa canarinho e a taça Jules Rimet.

— Eu não conseguia parar de chorar. Fiquei muito emocionado — lembra Diqui James, diretor do grupo, em entrevista ao GLOBO-Barra pelo telefone, de Buenos Aires.

A emoção não é gratuita. Aos 18 anos, e pouco tempo depois de começar a fazer teatro, James passou o carnaval em uma pequena cidade no interior da Bahia. Num boteco onde esteve numa das noites, não havia luz elétrica, e a única iluminação vinha de um pequeno televisor ligado graças a um gerador. Pela pequena tela, ele viu as cores intensas da Marquês de Sapucaí e vibrou com a bateria das escolas de samba. Uma experiência inesquecível, segundo ele, e que marcou sua trajetória profissional.

— Esse momento sempre me acompanhou na hora de criar algo. Acho que a linguagem que eu desenvolvi com o Fuerza Bruta é muito parecida — diz.

A força da percussão ao vivo vai fazer parte do espetáculo exibido aos cariocas, que será único na trajetória dos argentinos. Como uma forma de se renovar, James costuma promover pequenas mudanças na performance: ele já trocou a trilha sonora pelas canções do rapper Usher, que se apresentou ao vivo com o grupo, em Nova York, chamou DJs para pequenos setlists e convidou artistas locais para interferências. No Rio, uma vez por semana, o DJ de uma festa famosa na cidade animará o fim das sessões. E os percussionistas Wallace Rocha, Juninho Manga, Fábio Araújo, Anderson Santos, Júnior Bolinha e Ângelo Ligão, do AfroReggae, vão tocar um instrumento argentino chamado bombo leguero, que ganhou o nome por ter a fama de ser ouvido a mais de uma légua (quase cinco quilômetros) de distância.

Quando Johayne Hildefonso, diretor artístico do AfroReggae, assistiu ao Fuerza Bruta em Nova York pela primeira vez, ficou parado, boquiaberto, enquanto as pessoas iam embora do teatro, tamanho o impacto com a experiência. As cenas apresentadas em 360 graus, com uma grande dose de interatividade e que buscam uma comunicação sensorial e não verbal com a plateia, fizeram com que o ator, professor e diretor teatral imediatamente se lembrasse de seus alunos no Brasil.

— Olha que eu nem imaginava que um dia a gente fosse se encontrar e que o Diqui fosse vir aqui a Vigário Geral. Mas, quando eu vi o espetáculo, pensei: “Pô, tem tudo a ver com a pegada que a gente gosta” — contou Johayne, em uma entrevista realizada no Centro Cultural Waly Salomão, localizado na favela onde se passou uma das grandes tragédias cariocas. — O Fuerza Bruta te dá liberdade de se expressar. É o tambor que impulsiona, que faz sair algo preso dentro de você. Quando voltei ao Brasil, mudei várias coisas no meu trabalho em função daquilo que eu tinha visto.

O Fuerza Bruta tem vários elencos viajando pelo mundo simultaneamente. Atualmente, está sendo montado um elenco fixo para Tóquio (já existe um radicado em Buenos Aires). Há outra trupe em turnê pela China, e mais uma cumprindo temporada em Istambul, na Turquia, e Milão, na Itália. O elenco que estará no Rio vem de Montevidéu, no Uruguai, e daqui seguirá para México, Espanha (Barcelona) e Coreia. No ano passado, para o espetáculo de São Paulo, foram contratados seis bailarinos brasileiros que hoje rodam o mundo.

Cena de “Wayra”, espetáculo exibido em São Paulo em 2015 – Divulgação / Divulgação
O AfroReggae, criado há 23 anos, também se desdobrou: tem quatro centros culturais no Rio (em Vigário Geral, no Caju, no Morro do Cantagalo, em Copacabana; e em Parada de Lucas), e mantém um bloco de carnaval, trupes de teatro, dança e circo, uma orquestra, um grupo de samba e o Afro Lata, banda de percussão com instrumentos reciclados. E, assim como o Fuerza Bruta, ganhou o mundo, não só com performances em países como Inglaterra, Colômbia e Suíça, mas também com projetos sociais na Ásia e na África.

— Costumamos dizer que somos movidos a desafio, e, talvez por sermos um grupo com a utopia de mudar realidades tão caóticas como as de dentro das comunidades do Rio de Janeiro, isso faça com que tenhamos uma criatividade mais aflorada — reflete Anderson Santos, percussionista que já participou de diversas ações do grupo pelo mundo e que estará em cartaz no Metropolitan.

Quando a equipe do GLOBO-Barra visitou a sede do AfroReggae, os percussionistas que se apresentarão com o Fuerza Bruta já procuravam entrar em sintonia com o universo artístico dos colegas argentinos, assistindo a vídeos disponíveis na internet. E notaram muitas semelhanças entre o trabalho das duas companhias.

— A linguagem corporal deles é incrível. Falando de Fuerza Bruta e de AfroReggae, e colocando a violência como um meio-termo, falamos de transformação. Acho que eles retratam exatamente o que a gente costuma fazer na vida, pegar um cotidiano violento e caótico e transformar em algo bom, que lava a alma — diz Anderson.

— Essa também é a mensagem que tentamos passar nos nossos espetáculos e oficinas. Você começa a enxergar a vida de outra forma: entende que tem que mudar o seu cotidiano, e que a sua realidade influencia todos os outros que estão ao seu redor, os que estão ao redor desses, e assim sucessivamente. Essa energia de transformação é o que nos une — acrescenta o percussionista Júnior Bolinha.

VENCENDO BARREIRAS CULTURAIS

A violência e o caos são temas que acompanham a trajetória de Diqui James desde que o diretor ingressou na vida artística, com o grupo La Organización Negra, fundado em 1984, no início da redemocratização na Argentina, após o fim de uma sangrenta ditadura militar.

Artistas “nadam” sobre o público: equipe técnica viabiliza ousadias artísticas – Michel filho 9-4-2015 / Agência O Globo
— Era muito lindo, pois havia um grupo de jovens se misturando aos mais velhos que voltavam do exílio na Europa. Eles traziam na bagagem suas loucuras dos anos 1970, enquanto nós, jovens, começávamos a entender o que havia acontecido — relembra o diretor. — Foi como uma explosão, como a descoberta de um outro mundo.

A explosão à qual ele se refere apareceu em cena primeiramente de forma mais sombria, refletindo as angústias do período pós-nuclear. Só depois da criação do grupo De La Guarda, nos anos 1990, e já como diretor, é que a potência de seu trabalho passou para o outro lado do espectro.

— Mudamos completamente o foco. Decidimos continuar a ter toda esta potência e expressividade, mas atirando para o lado da felicidade. Na Argentina, temos algo muito particular: associamos a felicidade, a alegria e a euforia à violência — explica.

A brasileira Flora Barros, formada pelo conservatório Trinity Laban, de Londres, apresenta-se com o Fuerza Bruta desde 2015, e conta que não sofreu choque cultural algum ao começar a trabalhar com a companhia. Para ela, Brasil e Argentina são dois países muito próximos e viscerais. O maior desafio, diz, é manter a preparação corporal enquanto está em turnê, período em que os artistas encaram entre oito e dez sessões semanais de espetáculos em que literalmente andam pelas paredes e se jogam sobre o público.

— Acho que a gente tem uma proximidade muito grande com os argentinos, tanto em termos de cultura quanto de paixão. Mesmo que o grupo se encontre apenas nas turnês, a gente se entende muito bem. E isso fica muito claro no espetáculo: o Fuerza Bruta é uma celebração da vida, com carnaval, festa, emoção, fúria. É muito carnal. E brasileiro tem muito isso — compara.

Percussionistas treinam em Vigário Geral para participar do show do Fuerza Bruta no Rio – Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo
Esta mistura de carnaval e fúria pode causar estranheza. Como conta James, em uma temporada na China, eles tiveram dificuldade para fazer com que os artistas locais entendessem a emoção de um momento do espetáculo em que vários objetos são quebrados: em vez de uma expressão de raiva, a quebradeira é uma grande celebração. A relação com o público também passou por obstáculo semelhante, segundo Flora:

— O público chinês ficava com medo do espetáculo. O tempo todo a gente tinha que buscar meios de abraçá-los emocionalmente. Era uma abordagem completamente diferente da feita no Brasil: aqui, as pessoas brigavam para estar perto da gente. É preciso ler o público e perceber a energia que ele devolve. Nenhuma apresentação é igual.

Para outra brasileira no grupo, Ivone Virgilis, produtora (company manager) do elenco que virá ao Rio, não obstante as diferenças culturais, o Fuerza Bruta é bem recebido em qualquer lugar, por razões bem simples:

— O show funciona muito bem e emociona sempre. As reações são as mesmas em qualquer lugar, o que confirma que, independentemente de cor, idade, sexo ou religião, no fundo nós somos todos iguais. É uma sensação ótima. Mas talvez o principal seja o fato de ser um show em sintonia com os tempos frenéticos que estamos vivendo, além, é claro, de ter uma qualidade artística extraordinária.

Ensaio do grupo em teia gigante para espetáculo apresentado em São Paulo – Michel filho 9-4-2015 / Agência O Globo
Para criar e montar os espetáculos complexos, que, detalha Ivone, são ao mesmo tempo teatrais, musicais, atléticos, coreográficos e visualmente ricos, há, além dos artistas, uma equipe de engenharia sempre a postos.

Antiga parceira do empresário argentino Fernando Moya, um dos criadores do grupo, Ivone tem larga experiência nacional (trabalhou com André Midani no período áureo da gravadora Warner) e internacional na área de espetáculos. Ela assumiu o cargo no Fuerza Bruta no ano passado e diz que hoje não se vê fazendo outra coisa:

— Trabalhar com eles é a confirmação de que não se pode deixar de sonhar. O Fuerza Bruta ultrapassa todos os limites, com desafios de montagem e performance de vários delírios artísticos. Só mesmo um bando de sonhadores seria capaz de fazer descer uma piscina enorme cheia de gente sobre a cabeça do público.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: ZHAO-JUNSHI / Divulgação