Victor Klier, Marco Drifer, Fábio Tenório e Victor Moura são artistas do universo das HQs com estilos bem distintos e um denominador comum: o mestre Ziraldo. Com a confiança de quem aprendeu as bases para um trabalho de qualidade e desenvolveu ao longo desses anos um caminho próprio, eles retomam a parceria e embalam suas criações, a partir de agora, sob o selo Ziraldinos. O primeiro produto em conjunto será uma graphic novel. E a produção já está em curso. O grupo faz as reuniões em um estúdio na Lagoa, mas às vezes também em bares; e, frequentemente, pela internet. A ideia é que cada um empreste sua melhor habilidade ao outro, seja no roteiro ou nas ilustrações.
Eventualmente, eles também vão convidar outros artistas para participar de obras específicas.
— Depois do trabalho com o Ziraldo, seguimos com projetos individuais. Agora vamos somar ideias. Percebemos que os gibis de banca estão rareando, por isso começamos o projeto com graphic novels, com uma linguagem para jovens adultos. Nosso trabalho é dinâmico: escrevo um roteiro e mando para o Fabinho (Tenório). Ele faz os desenhos, outro pega, e assim vai — diz o idealizador, Klier, criador da Turma da Febeca (já publicada no GLOBO) e dos personagens Dadá e Peludin.
Suas criações são sempre anticonvencionais. Na história de Febeca, por exemplo, que é cadeirante, ele discute questões como homossexualismo, gravidez precoce e abuso infantil com outros personagens. Na nova fase, a protagonista ganhará ares mais adultos, conta.
— Sempre tive a ideia de criar algo diferente do que se via no mercado. A Febeca não é um trabalho social. A inclusão dela é para mostrar que todas as diferenças são válidas. A história foca nos desejos, nos sonhos, nas vontades e nas aventuras que a turma têm, como toda criança comum — frisa.
Quando começou a trabalhar com Ziraldo, em 1990, Klier conheceu o pai de Tenório, outro profissional do ramo. O filho, criador das tirinhas do Birita, está desenvolvendo com ele um roteiro de ficção científica batizado de “Depois da meia-noite”. Em paralelo, prepara o primeiro lançamento infantil, “Monstro selfie”.
Mas o primeiro Ziraldino a trabalhar com o mestre, em 1989, foi Drifer. Com arte dele e roteiro de Klier, a HQ “O grande assalto” é outro trabalho em curso com o novo selo.
— Comecei como colorista na antiga Rio Gráfica Editora e no estúdio do Ziraldo. Com o tempo, passei a estudar tinta acrílica e pintura. Quando faço os desenhos, uso a técnica de acrílico aguado. Meu negócio é fazer ilustrações — diz o artista.
Moura ainda integra a atual equipe de Ziraldo, que o batizou de Mouse Man pela ótima prestação de ajuda com questões digitais.
Prestes a comemorar 85 anos, em 2017, e ainda cheio de projetos em mente, o consagrado cartunista recebe a homenagem de seus pupilos como um acalento. E faz questão de lembrar os nomes de todos os outros que também passaram por sua trajetória, entre eles Miguel Mendes, Miguel Paiva, Claudio Paiva, Reinaldo e Caulos.
— Essa homenagem é um carinho deles comigo, que nunca se afastaram de mim. Já formei uns 20 artistas, alguns já estão famosíssimos por aí. Quero ver pintar o que eles pintam, desenhar o que desenham. Estes meninos já têm toda a bagagem para ir longe — diz Ziraldo.
E acrescenta que o quarteto deve reforçar seu diferencial no trabalho impresso em tempos incógnitos de internet e efemeridade.
— O século XXI mudou completamente a relação entre os profissionais de quase todas as profissões. Nós tínhamos uma relação com o papel impresso, que era uma outra maneira de produzir. Agora, ninguém sabe o futuro e a utilização exata da internet. A repercussão da linguagem escrita ainda é muito maior. Então, acredito que para realizar um trabalho de profundidade tem que ser em um livro, em um jornal, em uma revista — frisa.
Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Mônica Imbuzeiro/ Agência O Globo