Soluções para calçadas portuguesas do Rio serão tema de debate no Museu Histórico Nacional

Campolide é uma freguesia de Lisboa que resolveu colocar uma das maiores tradições do país em xeque. Em março, moradores foram chamados a escolher, numa votação, entre a permanência das calçadas de pedras portuguesas e a sua substituição por um pavimento “mais moderno e seguro”. Remando contra a história, a maioria dos votantes – 61,5% – decidiu pela segunda opção. O plebiscito dá uma ideia do quanto o assunto é delicado por lá, o berço das calçadas de pedrinhas pretas e brancas, que acabaram exportadas para os quatro cantos do planeta. No Rio, o tema pode ser considerado tão ou mais complexo. Numa cidade que ostenta uma beleza natural única, às vezes é difícil reparar no que está abaixo do olhar. Mas a verdade é que o Rio tem a peculiaridade de ser a cidade do mundo com a maior extensão de calçadas de pedras portuguesas, sendo algumas, como a da Avenida Atlântica, tombadas. O total – mais de um milhão e duzentos mil metros quadrados – ultrapassa a própria Lisboa e qualquer ex-colônia de Portugal, como Macau.

É quando o salto de uma executiva se engancha entre as pedrinhas do Centro, quando um idoso tropeça num pedaço solto em Copacabana ou o carrinho de bebê fica preso num buraco em Laranjeiras que esse “grande detalhe” da configuração urbana carioca parece ganhar a devida atenção. Se, por um lado, elas representam um traço da identidade da cidade, uma arte que acompanha os passos da população de Norte a Sul, por outro, essas calçadas – pela ausência de uma manutenção adequada, vale frisar – colecionam uma série de obstáculos à mobilidade. Com um pé no passado e os olhos no futuro desse patrimônio, será inaugurada hoje no Museu Histórico Nacional a exposição “Tatuagens urbanas e o imaginário carioca”, que levará os visitantes a um passeio pelas calçadas desenhadas desde a Roma Antiga e por criações inspiradas nos mosaicos, como móveis, joias e roupas. A programação será acompanhada de um curso para formação de 60 calceteiros (os profissionais especializados na construção e conserto desse tipo de pavimento) e de um seminário que pretende buscar soluções para os passeios do Rio, marcado para o dia 23 deste mês.

Para o evento, serão trazidas experiências de Lisboa, por meio do arquiteto Pedro Homem de Gouveia, coordenador do Plano de Acessibilidade Pedonal da Câmara de Lisboa (CML). Como já declarou o arquiteto em eventos em Portugal, a ideia do projeto é “combater a calçada sem qualidade”, mas sem dar fim à tradição. Também participarão dos debates entidades como o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e o Instituto Pereira Passos (IPP), arquitetos e urbanistas que hoje estão à frente de mudanças no espaço carioca e ainda representantes da prefeitura. O município tem grande interesse na discussão, porque pretende extrair dos encontros respostas que servirão de base para a nova regulamentação de calçadas do Rio. Uma das ideias é que, a partir do encontro, seja formado um banco de profissionais calceteiros para atender as necessidades de condomínios e empresas que prestam serviço à prefeitura e a concessionárias. Com essa lista de especialistas, não haverá mais desculpa para, após uma obra, transformar o desenho de uma calçada num remendo.

– As calçadas de pedras portuguesas não atendem às necessidades atuais da cidade. Hoje a cidade convive com carrinhos de bebê, cadeiras de rodas, portadores de necessidades especiais. Justamente por isso está se promovendo esse seminário e também o curso para o aperfeiçoamento de mão de obra, com mestres vindos de Portugal. A mão de obra é muito escassa. Os profissionais qualificados são em número pequeno para a demanda de mais de um milhão de metros quadrados que a gente tem. Estamos em busca de soluções que não signifiquem a perda dessa identidade cultural e histórica – afirma Renata Lima, curadora do evento e que, em 2010, por meio da sua editora, Atlântica, editou o livro “Tapetes de pedra”.

Por causa da sua bagagem, Renata é hoje referência no assunto não só aqui, como também em Portugal, onde costuma ser consultada pela Prefeitura de Lisboa.

– A calçada de pedras portuguesa não causa problema nenhum quando está bem construída. Mas, sem mão de obra qualificada suficiente, ela começa a ser consertada de qualquer maneira. Cortam a pedra de modo errado, usam cimento em vez de areia, não batem a pedra com o instrumento certo… A calçada, uma semana depois, vai estar com problema novamente. A areia drena a água e, logo, não cria poça. Isso ajuda na durabilidade da calçada. O cimento, com o tempo e peso, faz a calçada afundar. Há técnicas que precisam ser seguidas, e isso é uma questão urgente – explica Renata, que aponta alternativas para calçadas com grande movimentação de pessoas e que não possuem valor histórico ou artístico.

Entre essas medidas, que facilitam a conservação e a mobilidade, está a criação de corredores de concreto no meio dos passeios de pedras, como já existem em algumas ruas do Centro.

No Rio, há calçamentos de pedras sob responsabilidade privada e do poder público. No primeiro caso, a manutenção é feita por moradores e comerciantes. Quando uma concessionária faz uma obra no passeio, é dela o dever de deixá-lo depois em perfeito estado. Não existe, entretanto, na legislação nada que obrigue a permanência de uma calçada de pedras portuguesas quando se trata de um espaço sob cuidados privados. Se um edifício quiser trocar o pavimento, por exemplo, da sua porta, ele pode, desde que não use material derrapante. Essa é uma questão que deverá ser debatida no encontro no Museu Histórico Nacional.

Subsecretário municipal de Engenharia e Conservação, Marco Aurélio Regalo diz que a prefeitura gasta por ano cerca de R$ 3 milhões no conserto desses passeios no eixo Zona Sul-Centro. Já a multa para quem não conserva as calçadas – ou cria obstáculos à passagem de pedestres – varia de R$ 300 a R$ 2 mil. Desde 2011, a prefeitura fez 13 mil notificações referentes ao assunto, sendo que em 70% dos casos as calçadas foram recuperadas no prazo de 60 dias (oferecido antes da aplicação da multa).

Marco Aurélio revela quem são os maiores vilões das pedrinhas portuguesas:

– São os carros estacionados na calçada, que acabam soltando as pedras, e as intervenções de concessionárias que fazem o reparo de forma mal feita e deixam um passivo grande – afirma o subsecretário, que faz uma avaliação do estado geral das calçadas de pedras portuguesas da cidade. – Em péssimo estado elas não estão. Não se percebe pela cidade um ponto de degradação grande. O que tem são locais que, ao longo do tempo, foram deteriorados e não estão mais como o original.

Uma pena, já que algumas calçadas são verdadeiras obras de arte. A Avenida Atlântica é a mais emblemática: seus desenhos geométricos e inspirados em ondas foram projetados pelo paisagista Roberto Burle Marx, no final dos anos 60. Mas, em 1906, a Atlântica se tornou o primeiro lugar da cidade a contar com esse tipo de calçamento, por iniciativa do prefeito Pereira Passos. O calçadão já tinha ondas, numa cópia do calçamento visto na Praça do Rossio, em Lisboa. Nos anos 30, ele passou por uma reforma, que alterou a posição das ondas: se antes eram transversais ao mar, na obra acabaram deitadas. Burle Marx, na década de 60, manteve a mudança, mas modificou o traço e criou formas também para o canteiro central e para a calçada junto aos edifícios.

Depois da implantação em 1906, as pedras de tradição lusitana se espalharam como água pelo Rio. Na cidade, prevalecem os desenhos gráficos e abstratos. Mas há também os temáticos, como os de notas musicais, em homenagem a Noel Rosa, em Vila Isabel, e os de símbolos, como da Justiça e da Medicina. Entre os exemplares mais belos, está o da Rua Rodolfo Dantas, em Copacabana, que mistura desenhos florais e geométricos. Renata Lima cita outra, escondidinha na Rua General Glicério, que leva a assinatura de Burle Marx. Na Cinelândia, rolos de filmes, por causa dos antigos cinemas, e máscaras em alusão ao Teatro Municipal enfeitam o caminho dos pedestres. E para quem acha que a calçada de pedras portuguesas é coisa do século passado, logo no velho Centro do Rio é possível ver uma em versão digital: é a que dá forma ao QR Code em frente à estátua de Dom João VI.

A calçada de pedras portuguesas da Cinelândia: salas de cinema da praça inspiraram figuras – Hudson Pontes / Agência O Globo
Essa pavimentação artesanal surgiu em Portugal no começo do século XX. Na fonte da arte, estão os mosaicos romanos e árabes. Renata explica que a calçada foi construída pela primeira vez em volta do Castelo de São Jorge, em Alfama, bairro de origem moura em Lisboa. Depois disso, ela foi largamente disseminada na cidade e também por países de língua portuguesa. No Brasil, a primeira data de 1905, e fica em frente ao Teatro Amazonas, em Manaus: o trabalho em ondas simboliza o encontra das águas dos rios Negro e Solimões.

– Essa calçada surge em decorrência do crescimento urbano, da necessidade de movimentação. Até então, as ruas eram de terra batida. As doenças e pragas se propagavam com muita rapidez nessa época e a pedra, de certa maneira, higienizava a cidade. E também facilitava o transporte e a mobilidade das pessoas – conta Renata, acrescentando às qualidades o lado artístico desse pavimento. – A calçada de pedras portuguesas eterniza uma mensagem, uma identidade do lugar.

Fonte: O GLobo
Foto: Bruno Veiga / Divulgação
Postado por: Raul Motta Junior