Seria impossível para qualquer niteroiense listar os locais mais bonitos da cidade e deixar de fora o visual do mirante do Parque da Cidade. Não é de hoje que a beleza da paisagem e a localização privilegiada do maciço de cerca de 270 metros de altura entre os bairros de São Francisco e Piratininga atraem turistas e praticantes de voo livre. Mas o que muitos esportistas — profissionais e amadores — vêm redescobrindo são os encantos das trilhas que circundam o acesso às rampas de salto. A revitalização dos percursos, com sinalização e desobstrução dos caminhos, tem atraído cada vez mais corredores e ciclistas em busca de adrenalina e ar puro, além de caminhantes de fim de semana.
Em um dia de tempo bom, pela manhã, o fluxo de cilistas e corredores é intenso na mata de aproximadamente 150 mil metros quadrados. Das 13 trilhas que levam para caminhos distintos, nas duas faces do Morro da Viração, seis delas — Platô, Formigão, Velocidade, Eucalipto, Waimea e Campinho — são ideais para a turma das pedaladas. Jailton Deolindo Mesquita, professor de educação física e mecânico de bicicletas, pedala diariamente da Venda da Cruz, em São Gonçalo, até São Francisco para se aventurar nas trilhas do parque. Para ele, o caminho até lá serve de aquecimento e todo esforço é recompensado:
— Venho bem cedo, quando ainda há pouco trânsito na rua. Vale muito a pena. É um privilégio termos um lugar como esse para praticar esportes.
Entre as trilhas para a prática de bicicross, a do Campinho é uma das mais especiais. Em meio à vegetação e longe do olhar de grande parte dos visitantes do parque, os ciclistas construíram numa área descampada um circuito com curvas de diferentes ângulos, pedras, rampas e obstáculos para saltos. A trilha chamada por eles de Waimea é a mais radical. Ela começa lá do alto, entre as rampas de voo livre, e é indicada para praticantes mais experientes da modalidade downhill. As estruturas de madeira instaladas no início do caminho fazem os ciclistas atingirem alta velocidade, concluindo o percurso de 1,2 quilômetro em cerca de um minuto e meio. Na trilha do Formigão, com terreno mais instável, rústico e cheio raízes, pedalam os praticantes da modalidade cross country.
O nutricionista e personal trainer Fernando Henrique de Almeida Silva pratica bicicross há dez anos e considera o Parque da Cidade um paraíso para o esporte.
— São trilhas perfeitas, com níveis diferentes e muita intensidade, nas quais eu posso apurar minha técnica sem precisar ter o trabalho de prender a bike no carro, disputar espaço na rua ou enfrentar uma estrada e ainda ter que arrumar um local para estacionar. Já saio de casa pedalando — conta ele, morador do Ingá.
Praticantes de bicicross descem a Trilha dos Eucaliptos – Adriana Lorete / Agência O Globo
Os encantos do parque também atraíram o estudante de engenharia Yago Marsile. Surfista nas horas vagas, ele praticava musculação na academia todos os dias, mas sentia falta do contato com a natureza. Há um ano meio, passou a revezar os treinos indoor com as pedaladas na trilha do Parque da Cidade:
— Sempre gostei de praticar esporte ao ar livre. Gosto muito de surfar, mas é algo que depende das condições do mar, não dá para fazer todo dia. Ao contrário de muita gente, fiz o caminho inverso: não vim para o Parque da Cidade por conta do bicicross, mas comecei a praticá-lo para poder estar no Parque da Cidade.
A atividade ao ar livre foi tão contagiante que o universitário passou a levar o pai, o empresário Marco Valério Marsile, de 54 anos, para pedalar com ele na mata.
— Venho mais como uma terapia. O bom daqui é que é bem democrático, tem trilhas com diferentes níveis de dificuldade. Dá para todo mundo — diz o novo adepto.
Notáveis há muitos anos na paisagem do Parque da Cidade, os praticantes de asa-delta e parapente consideram positiva a adesão cada vez maior de esportistas de outras modalidades à área. O instrutor de parapente Paulo Giovani Sales chama a atenção para a importância de se preservar o meio ambiente:
— Não é porque sou atleta, mas o desportista é um tipo de frequentador com o perfil ideal para um lugar como esse. São pessoas que valorizam a riqueza do lugar e ajudam a preservá-lo. Eles usam a mata, nós usamos as rampas e o ar. Tem espaço para todo mundo. A presença deles na mata torna as trilhas mais seguras, e todo mundo se beneficia, é bom para o parque como um todo.
O intenso movimento nas trilhas do Parque da Cidade fez com que a Secretaria municipal de Meio Ambiente iniciasse, há dois meses, um trabalho de recuperação dos percursos. Das 13 trilhas, três começaram a ser revitalizadas. Até o fim do ano, todas elas, que somam 50 quilômetros por dentro da área da Mata Atlântica, serão mapeadas, limpas, desobstruídas e receberão sinalização. Já foram instaladas em toda área do parque dez novas lixeiras de madeira de reflorestamento, 20 placas de sinalização e mesas e cadeiras para piquenique. Outras 20 placas de PVC foram fixadas no fim das trilhas para delimitar o término dos percursos. Além disso, mais de 40 árvores receberam sinais para indicar o caminho correto aos visitantes. Outra iniciativa para atrair o público é o manejo das trilhas, feito a partir da limpeza e da retirada de galhos que obstruem o caminho.
Inicialmente, três delas receberão as melhorias. A do Bosque dos Eucaliptos é a mais adiantada. Já foi desobstruída e recebeu sinalização rústica. A trilha do Morro do Santo Inácio, uma das mais tradicionais do parque, ganhou placas de madeira e receberá setas nas árvores nos próximos dias. Já a trilha do Mirante da Pedra Rachada está na fase de manutenção e limpeza para depois receber a sinalização.
MORRO ACIMA POR TRILHA OU ASFALTO
Cheios de disposição, corredores sozinhos ou em grupos estão subindo a Rua Nossa Senhora de Lourdes, em São Francisco, para chegar à Estrada da Viração, acesso ao Parque da Cidade. Outros preferem se aventurar pela mata na prática do trail run, uma corrida mais rústica, junto à natureza. Os diferentes tipos de solo — terra batida, asfalto e paralelepípedo — com muitas subidas e descidas fazem do Parque da Cidade uma das principais opções para corredores dessa modalidade. E tem aqueles atletas que simplesmente querem variar um pouco a atmosfera da praia. Para estes, o Morro da Viração também é uma alternativa.
A professora de educação física Luciana Collier, de 46 anos, encaixa-se nesse perfil. Moradora de São Francisco, ela sempre correu na orla, mas nos últimos meses passou a subir o Parque da Cidade quase todos os dias.
— É um exercício intenso, mais puxado, e o clima aqui é muito agradável, temperatura mais amena, ar puro. Venho bem cedo. Chegar aqui em cima e contemplar a vista é recompensador. Depois de fazer alongamento, desço com a mente purificada. Sinto um efeito físico e terapêutico maior — lista Luciana.
Rossy Borges, coach de uma equipe de corrida, escolheu o Parque da Cidade aos treinos de trail run.
— É um dos poucos lugares em Niterói com nível elevado de altitude e trilhas para serem exploradas. O treino atende a todos os níveis de atletas, desde o iniciante ao avançado, contanto que tenha orientação. Nos dias mais quentes, o parque serve como opção por ter muitas árvores e sombras, que amenizam o calor. E a vista lá de cima compensa os esforços da subida — elogia Borges.
Para quem quiser se aventurar pela mata e não tem experiência em corridas, a administração do Parque da Cidade começou a promover caminhadas guiadas pelas trilhas a cada 15 dias. O calendário dos passeios é divulgado no site da Secretaria municipal de Meio Ambiente (smarhs.niteroi.rj.gov.br), pelo qual os interessados podem agendar o passeio.
Desde 2014, quando a cidade passou a contar com o decreto que estabeleceu o Parque Municipal Natural de Niterói (Parnit), uma área de 4.400 hectares (35% do território da cidade) começou a ser protegida por lei, incluindo o Morro da Viração. A meta é alcançar 50%.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto:Adriana Lorete / Agência O Globo