Dos quatro atletas que conduziram a tocha na cerimônia de abertura da Paralimpíada do Rio, mês passado, três eram da Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef). Cinco participaram dos Jogos, e a companhia de dança inclusiva da instituição, Corpo em Mente, foi destaque na festa de encerramento do evento. Apesar dos bons frutos, a Andef completa 35 anos em meio a uma grave crise econômica. Para tentar reverter o quadro, o coordenador de gestão da associação, João Batista Carvalho, se reúne, segunda-feira, no Rio, com o secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Luiz Lima.
O governo do estado rescindiu, há seis meses, contratos com a associação, que previam repasses mensais de R$ 1 milhão, a metade dos recursos da Andef. A Petrobras também cancelou contrato, em dezembro passado, que financiava assistência a jovens da comunidade do Rio do Ouro, onde funciona a sede da associação. Hoje com apenas 50% da receita que tinha no início do ano, oriundos de outros contratos, a Andef acumula dívida de mais de R$ 2 milhões com um banco, suspendeu todos os seus programas de assistência e demitiu 500 de seus 900 funcionários. O número de assistidos caiu de 1.500 para 230.
Equipe de atletismo, um dos esportes em que atlestas da Andef se destacam nas paralimpidas – Agência O Globo / Bárbara Lopes
— As contas não estavam fechando. Recorremos ao empréstimo, mas a situação ficou insustentável, e, infelizmente, suspendemos todos os nossos projetos — lamenta Carvalho, que, ao lado da mulher, Tânia Rodrigues, ajudou a criar a associação em 1981, Ano Internacional da Pessoa Deficiente.
A Andef foi além do intuito de incluir deficientes no mercado de trabalho, e atuava em diferentes setores, como saúde, cultura e esporte. Foi na associação que nasceu o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), em 1995. No mesmo ano, foi criada a fábrica de cadeiras de rodas e muletas, e, no ano seguinte, a Andef instalou o primeiro Centro de Treinamento Paralímpico do Brasil, em sua sede. Hoje, o centro gera cerca de R$ 1 milhão anualmente para a instituição, recurso com o qual a associação não mais contará a partir do ano que vem, quando será inaugurado um novo centro de treinamento do CBP em São Paulo.
— Aqui em Niterói podemos treinar apenas quatro modalidades. No centro de São Paulo estão incluídas todas as modalidades paralímpicas. Mas é lamentável que deixe de ser explorado um espaço com toda essa estrutura: quadra, piscina, pista de atletismo, todos os serviços de saúde de reabilitação, cozinha e restaurante, além de 16 quartos de hotel — ressalta Carvalho.
Nos 35 anos de Andef, Carvalho destaca alguns nomes, entre eles o de Márcia Malsar, ex-atleta paralímpica, primeira brasileira a conquistar uma medalha de ouro, na Paralimpíada de 1984, nos 200 metros rasos, e uma dos quatro que carregaram a tocha este ano. Ela dividiu a honra com o colega de associação Clodoaldo Silva, que conquistou 13 medalhas paralímpicas.
Atualmente apenas os 140 atletas da instituição, os dez dançarinos da companhia de dança e 80 pessoas que utilizam os serviços de reabilitação são beneficiados pela associação.
Fonte: O Globo
Agência O Globo / Bárbara Lopes
Postado por: Raul Motta Junior